As Trufas

Num belo mas frio dia de Outono, andava Maria às trufas, no meio das Carvalheiras. Tinha fama de as descobrir, mesmo a considerável distância. Os seus vizinhos usavam um porco e um outro tinha treinado um Podengo para farejar trufas. Mas quem tinha maior sucesso era a Maria, sem dúvidas! Tinha aprendido a procurar com o seu Avô, desde tenra idade. Revelou-se ser um dom inato nela. Todos os Outonos o rendimento da sua família se fazia para o ano inteiro à custa das trufas que conseguiam vender a um muito bom preço. Tinham já os seus clientes fixos. Os principais eram dois Franceses.: um restaurante parisiense e o outro uma família que tinha uma marca com o nome familiar, “Beaumont”. Quase todos os seus produtos, que eram muito conceituados no mundo gastronómico, levavam
trufas na sua confecção. E as trufas eram portuguesas, as melhores!
Maria, ao contrário dos outros “caçadores de trufas” que só iam pela manhã, preferia passar um dia inteiro na apanha, se o tempo estivesse bom para isso, numa semana ganhava mesmo muito dinheiro.
Levava merenda, fruta e água numa cabaça que trazia a tiracolo. Assim ficava no monte até que o sol desaparecesse no horizonte. Rendia-lhe o dia quatro vezes mais do que aos outros.
Hoje, já com o saco de juta quase cheio, mãos e roupa impregnados de terra escura e húmida, cansada, Maria parou para fazer uma pausa, sentando-se num tronco velho e oco caído no chão. Limpou a sua faca de mato à ganga das suas calças o melhor que pode e começou a partir um pedaço de queijo curado de cabra que tinha trazido. Partiu um pouco de pão e quando se preparava para comer, levantou a cabeça e viu, paradas à sua frente, aparecidas do nada, sem terem feito o mais pequeno barulho, duas crianças! Mas o estado delas era de tal maneira selvagem que pareciam mais uns animais… e o cheiro delas… Maria nunca tinha experimentado um
tamanho fedor! A criança mais velha deveria ter uns 5 ou 6 anos, a julgar pela altura. A outra, pelas feições ainda quase de bebé, não teria mais de 3 anos. Os seus cabelos eram escuros, desgrenhados, nunca deviam ter conhecido um pente, e se algum dia foram cortados, não tinha sido por uma tesoura, de certeza. Estavam cobertos por uns panos andrajosos que um dia tinham sido qualquer coisa de vestir, ou não, pois nem se percebia nenhuma forma ou feitio. Os trapos estavam seguros aos corpos frágeis das duas crianças com cordas de sisal e algumas tiras de couro. À laia de sapatos, tinham os pés embrulhados em peles de animais, que Maria pensou serem de coelho.
Tudo o resto que ficava à mostra, mesmo estando já a declinar o sol, via-se bem que estava sujo e pestilento: cara, braços e pernas.
-“Que.. que… quem são vocês?” perguntou-lhes Maria, ainda mal refeita desta aparição.
Mas nenhum dos dois lhes respondeu. Continuavam a olhar para ela, fixamente…
-“Onde estão os vossos pais? A vossa Mãe não anda a procurar por vocês?”
E a criança mais velha respondeu com um encolher de ombros e um vago abanar de cabeça a dizer não.
Maria, recompôs-se da surpresa e, como sempre o fazia, tomou rapidamente conta da situação. Tinha que descobrir quem os miúdos eram e como tinham ido ali parar. Partiu dois pedaços de pão e queijo e deu-os a cada um deles. E era como ela tinha desconfiado: eles estavam esfomeados! Só a maneira como se agarraram à comida, dizia tudo. O mais novo até se engasgou, tal era a sofredigão com que comia. Deu-lhes a beber o resto da água que levava na sua cabaça. E eles voltaram a apontar para a broa, queriam mais…
E voltaram a comer, desta vez mais pausadamente, como quem já sabe que nada nem ninguém lhes vai roubar aquele pedaço de pão… Maria estava comovida, quem seriam eles? Como era possível chegarem ao estado em que estavam, animalesco, selvagem? E o que fazer, agora? Bom, não havia muito que pensar, em relação a isso. Iriam com ela para casa, lavava-os, vestia-os, alimentava-os e deixava-os dormir uma boa noite de sono. Amanhã era já outro dia e logo se veria o que fazer. Os seus pais ajudariam com certeza.
Meteram-se os três ao caminho, Maria à frente e as duas crianças atrás. Ainda tentou pegar na mão do mais pequenino, mas o gesto de incompreensão e pavor que o rapaz fez demoveu-a da sua intenção.
Maria chegou muito tarde a casa. Os pais dela já estavam numa verdadeira aflição… “Que a filha nunca tinha chegado tão tarde, teria-lhe acontecido alguma coisa?”
Ficaram os dois aliviados quando a viram a entrar pela porta de casa. Mas, mal lhes passou a aflição, espantaram-se com a companhia que a filha trazia! “Quem eram? Credo, que sujos… e que cheiro eles têm, Maria, filha… onde foste desencantar estes miúdos?”
E Maria contou como os encontrou lá pelo meio dos montes, nas Carvalheiras, sozinhos os dois, perto da Cova das Fragas, onde as cabras gostavam de ir pastar.
Os três deram uma barrela às crianças e até tiveram uma surpresa: o miúdo mais novo afinal era uma rapariga, e bem bonita por sinal. A resistência dos dois selvagenzitos traduziu-se em berraria, arranhões e choro convulsivo. Foi fácil de compreender que aquelas crianças não sabiam o que era tomar um banho e serem esfregados de toda a sujidade. Cortaram-lhes os cabelos, foram enxutos, vestidos e ainda comeram uma boa sopa de legumes com pedaços de carne. Foi impossível fazê-los usarem as colheres. Não sabiam pegar nelas nem percebiam para que aquilo servia!
-” Amanhã vou à Guarda. Alguém deve andar à procura deles, são ainda muito pequenos!” Disse o Pai da Maria.
Tentaram que as crianças lhes dissessem o nome, mas nenhum deles falava. Olhos postos no chão, sempre encostados um ao outro, as únicas coisas que os faziam ficar atentos e solícitos era a vista de qualquer comida ou bebida. Foram deitados, os dois juntos, no quarto dos fundos, o que servia para guardar o material necessário para tratar a lã: cardas, fusos, rocas, tintos, rodas de fiar e os teares manuais de Maria. Arrumaram tudo para um canto e improvisaram uma boa cama, quentinha e confortável para as duas crianças.
Maria serviu-lhes, logo que acordaram, uma malga de leite das suas cabras, ainda morno. Esmigalhou-lhes broa e deitou-a no leite. Adoçou tudo com duas boas porções de mel de rosmaninho. Mais uma vez a colher que lhes deu foi completamente ignorada. Sorveram o leite e depois, com os dedos, apanharam a pasta de broa que ficou no fundo da malga.
Maria perguntou ao mais velho onde estava a Mãe dele. E ele, de novo, encolheu os ombros e fez sinal com a cabeça que não…
-Como te chamas? E a tua irmã, qual é o nome dela?
De novo o mesmo encolher de ombros como resposta.
Seriam surdos, pensou Maria? Ou mudos… sei lá!
E tentou com gestos perguntar-lhes o nome.
-“Maria! Maria!”dizia repetidamente apontando para ela própria e depois, pontando para o Pai dela disse, por três vezes:
-“Manel, Manel! Manel!” e para a sua Mãe, tocando-lhe no peito:
-“Teresa! Teresa…”
A seguir, apontando para cada um deles, fez um gesto de interrogação com as mãos e com a sua expressão facial.
E o miúdo percebeu!
Apontando para ela, disse, com ar de quem tinha descoberto uma coisa boa:
-“Maria! Maria!”
E finalmente, apontando para si próprio disse:
-“Gui”
E tocando na sua irmã, exclama:
-“Géni”
Maria pressentiu que tinha de ser cuidadosa, foi a primeira vez que ele tinha falado, não queria que ele se fechasse outra vez.
Agora tinham que se mexer, hoje chegava o melhor cliente deles, o Sr. Beaumont para vir buscar as trufas. Ainda bem que Maria, sempre previdente, já tinha trufas mais do que as necessárias para vender. Foram à GNR. Não havia nenhum registro de desaparecimento de nenhuma criança. Mesmo assim, o Comandante do Posto, cumprindo o protocolo, mandou um Telex para o Quartel da GNR do Porto e outro para o de Lisboa, para se divulgar o aparecimento das duas crianças, a nível nacional. Podia ser que alguém soubesse deste desaparecimento…
Voltaram para casa, o tal cliente já devia estar a chegar.
E já lá estava à espera, o Sr. Beaumont. Alto, olhos claros, cabelos castanhos bem cortados, barba desfeita, ombros largos, consistente e sobriamente bem vestido, um Blazer de camurça castanha a dar-lhe um ar de Senhor e umas botas sólidas de carneira a condizer com tudo o resto. Uma boa figura, era o que ele era.
Saudou Maria e seu Pai e olhou para as duas crianças com um certo espanto.
-“Bonjour les enfants! Et quel est votre non?”
-“Je m’apelle Gui et ma soeur Geni.”
Maria e seus pais abriram desmesuradamente as suas bocas e olhos tal foi o espanto! Eles falavam francês! Por isso não respondiam a nada nem a ninguém, não percebiam o português! “Que burra! – pensou a Maria – como não me ocorreu uma coisa destas?”
Depois de Monsieur Beaumont ter ficado a par de toda a situação, prontificou-se logo para interrogar as duas crianças.
Não sabiam que idade tinham. Viviam, desde que se lembravam, com a “Maman” deles. Tinham abandonado a casa porque a “Maman” deitou-se a dormir e nunca mais acordava. Tentaram fazê-lo mas ela não se mexia sequer. Taparam a “Maman” com muitas peles quentinhas porque ela estava com muito frio, as suas mãos eram frias como a neve, e vieram-se embora para procurar comida. O Gui dizia que a Géni não parava de chorar, com a fome que tinha. E foi então que encontraram a Maria.
Quando lhes perguntaram se sabia voltar a casa deles, disse que sim.
E lá foram todos, juntamente com dois Guardas Republicanos, guiados pelo Gui pelo monte acima em busca da casa deles. A Géni, que se recusava obstinadamente a sair do lado do irmão, também ia no grupo. Era pequena mas surpreendentemente, caminhava sem se cansar.
Chegaram a uma espécie de clareira, no meio dum Souto. Havia lá Castanheiros que já deviam ter mais de cem anos…
O grupo olhou à sua volta e não descobriram casa alguma. Um pouco desorientados, seguiram o Gui e a irmã que se dirigiam a um buraco que existia num pequeno talude. Entraram os dois e desapareceram de imediato da vista dos outros.
Maria e os Guardas, entreolharam-se, e foi ela que primeiro tomou a iniciativa de seguir os miúdos entrando também pelo buraco, logo seguida pelos outros.
Demoraram um pedaço até que os seus olhos se habituassem à escuridão. Estavam dentro de uma caverna, quase toda ela forrada de peles de animais: cabras, raposas, ovelhas e até mesmo meia dúzia de peles de vaca enormes… Maria reconheceu pelo menos a pele de duas das suas cabras desaparecidas. E percebia agora o que tinha acontecido às vacas do Sr. Augusto… sempre tinham pensado que eram os lobos!
Os dois irmãos estavam os dois em pé, imóveis, a olhar para alguém que estava em cima de uma espécie de catre. Era a Mãe deles. Logo ao primeiro olhar, mesmo na penumbra, Maria percebeu que estava morta e provavelmente há já muitos dias.
Levaram os miudos dali, para a clareira e Maria explicou-lhes o melhor que conseguiu, com a ajuda do Monsieur Beaumont, a morte da mãe. Os dois irmãos, sempre agarrados um ao outro, pouco ou nada demonstraram de desgosto que pudessem ter. Gui chegou mesmo a dizer que todos os animais acabavam por morrer. Uns era para serem comidos outros era porque não tinham conseguido comer para viver. A Mãe deles durante muitos dias deixou de comer, Gui sabia que tinha sido isso que a tinha acabado por matar.
Esta justificação e consequente aceitação da morte da Mãe, explicada pelo Gui, deixou os três adultos sem palavras. O que lhe responder, perante esta objectividade e ausência de emoção?
Organizou-se o seu enterro e Maria e os pais decidiram acolher os dois irmãos, eram pobres, mas como se costumava dizer, “casa onde comem quatro, arranjam-se sempre mais uns pratos!”
Graças a Monsieur Beaumont, que se interessou pessoalmente pelo caso, descobriu-se todo o mistério das duas crianças e de sua Mãe. Afinal não eram franceses, mas sim Belgas. A Mãe deles, tinha conseguido fugir com os seus dois filhos pequenos, na altura Guillaume com dois anos de idade e sua irmã Eugénie ainda um bebé de colo, com cerca de quatro meses. Fugiu depois de um tribunal belga ter atribuído a custódia dos seus dois filhos ao ex-marido dela, apanhado por ela própria a abusar do Guillaume. Nada ficou provado e o Pai, pessoa de muitas posses e influência política, além de ter ganho o processo do abuso sexual do próprio filho, ainda conseguiu ficar com a custódia deles e retirar toda e qualquer possibilidade de a Mãe os voltar a ver.
E aquela Mãe, ajudada por alguém que continuou no anonimato, conseguiu fugir com os dois filhos e esconder-se em Portugal, na região de Trás-os-Montes. E foi aí que viveram, provavelmente ajudados no início pelo tal amigo anónimo que, por qualquer razão desconhecida agora para sempre, a certa altura desapareceu da vida deles. Mas aquela Mãe, que devia viver apavorada com a possibilidade de ser descoberta, sobreviveu com os filhos no estado mais selvagem que podemos agora imaginar. Nada mais se sabe sobre o assunto.
As crianças não foram devolvidas à sua terra natal, felizmente pela grande ajuda de Mr. Beaumont, que não descansou enquanto não conseguiu que as elas fossem entregues, oficialmente, ao cuidado de Maria e dos pais dela.
O Pai dos miúdos, já tinha morrido, não por desgosto mas por SIDA! Sofreu HORRORES nos últimos tempos da vida dele e morreu sozinho e amargurado. Não conseguiria nunca morrer em paz, pois era um homem para além de mau, muito descrente.
Só me resta dizer que o que o Mr. Beaumont vinha fazer a Trás-os-Montes não era apenas vir buscar as trufas, do que ele gostava mesmo era de vir ver a Maria…. e veio tantas e tantas vezes que um dia acabou por ficar, com ela!

7 pensamentos sobre “As Trufas

    1. Anónimo

      Obrigada Isabelinha, espero corresponder às tuas expectativas, mas do que eu mais gosto é de me abstrair de tudo, quando estou a escrever e depois gosto muito que as minhas histórias vos divirtam, ou toquem, de alguma maneira especial. Um beijo.

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  1. Francisca de Sottomayor

    Parabéns Prima!! adoro os teus “contos”! fico sempre “presa” na leitura e à espera de conhecer o fim da história!!
    Beijos muito grandes.

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  2. Concha Mexia

    Querida Cristina, muito obrigada por partilhares connosco esse maravilhoso dom… É sempre com emoção e os olhos rasos de água que acabamos de te ler…
    Muitos parabéns! Um beijo grande
    Concha

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