A Compaixão

Li, já há algum tempo, a notícia de um caso de solidão detectado em Roma, Itália. Para grande pena minha, não guardei logo o artigo e nunca mais o consegui encontrar.
Mas vou tentar contar do que me lembro e me impressionou:

Foi chamada a Polícia na cidade de Roma, para acudir ao que parecia um caso de violência doméstica. Mais precisamente, os vizinhos de um casal de velhinhos estavam fartos de ouvir berros e choros. Em vez de lá irem ver o que se passava, chamaram a Policia, presumindo que alguém estava a bater em alguém. Quando dois Polícias destacados para irem averiguar o que se passava lá chegaram, confrontaram-se com um casal de muita idade (acho que 94 o marido e 90 a mulher) a chorarem, pela triste e pobre vida que tinham. Contaram aos dois homens que tinham ficado deprimidos e sem esperança ao verem tanta notícia má na Televisão. Confessaram à Polícia que eles (os Policiais) tinham sido a única visita que receberam durante os últimos anos!! Disseram-lhes que se sentiam muito sozinhos, não tinham ninguém para conversarem.
Um dos Agentes, deu uma vista de olhos pela casa e confirmou a extrema pobreza em que vivia o casal. Abriu o frigorífico e deparou-se com ele quase vazio.
Enquanto o seu colega ficou a ouvir e a conversar com o casal, um dos Polícias decidiu fazer uma belíssima Pasta italiana, depois de ter descido à rua e de ter feito meia dúzia de compras.
Não me lembro como tudo terminou, até acho que a notícia não avançava muito mais, focando-se no problema bem actual da solidão das pessoas mais idosas, mas gosto de imaginar que quando a comida ficou pronta se sentaram os quatro a comerem e a conversarem, amenamente, a ouvirem e a falarem, dos dois lados. A darem e a receberem. Gosto também de pensar que a vida deste casal melhorou a partir daí e que os seus novos amigos, os Polícias, passaram a ser visita frequente lá em casa.

Isto fez-me lembrar a parábola sobre os trabalhadores da vinha que eram contratados de manhã cedo, a meio do dia e a meio da tarde para uma jornada de trabalho pesado e que, ao final do dia, todos eram pagos por igual…
Esta parábola sempre me confundiu, não percebia como Jesus achava que o patrão tinha sido justo e como Jesus desprezava os trabalhadores que tinham começado mais cedo e que reclamavam mais dinheiro.
Mas este ano, finalmente, e através de palavras simples que ouvi, consegui atingir o verdadeiro significado desta parábola. É que não se trata de justiça mas sim de caridade e do direito que o Patrão tinha de fazer o que quisesse com o seu dinheiro desde que não enganasse ninguém. Os trabalhadores contratados mais tardiamente não deixavam de ter a mesma vontade e a mesma necessidade de trabalhar. Só não tiveram tanta sorte ou oportunidade como os primeiros tiveram ao serem escolhidos mais cedo. E também se trata da inveja que os primeiros trabalhadores demonstraram pelos que trabalharam menos horas, criticando quem com eles afinal cumpriu o que lhes tinha prometido. E muito pouco nesta vida é de “toma lá dá cá!”, pelo menos genuinamente, pois há muita gente a funcionar nesse esquema de “dou mas quero receber” e vice-versa.
E a justiça, como nós a conhecemos e praticamos aqui na Terra, está longe de ser perfeita.
Só a justiça divina nos poderá julgar, castigar ou privilegiar com absoluta sabedoria.
Este casal de velhinhos, comparo-os aos tais trabalhadores tardios. Não tiveram culpa de viverem em tamanha solidão, com muito poucos recursos… com certeza não escolheram esta vida para eles.
Os polícias, que lhes deram companhia, conforto, que até cozinharam para eles sem nada querer em troca, comparo-os ao Patrão justo e caridoso.
Os vizinhos, os tais que chamaram a Polícia sem sequer tentarem saber o que se passava, assumindo, preconceituosamente , estar a ser cometido alguma espécie de crime, são, para mim, os trabalhadores que reclamaram a injustiça… da Justiça Divina.

Um exemplo a seguir, este dos dois Polícias Italianos.

2 pensamentos sobre “A Compaixão

  1. Me lembro que nesse ano eu li um artigo que diziam que no Reino Unido (UK) estavam em via de criar um ministério da solidão (não me lembro o nome que seria dado) apenas me chamou a atenção para a questão porque eu sou fã de Hopper e seu argumento para suas telas sempre foi a solidão nas cidades. Mas, tenho para mim, que se estivesse cá, nesses chamados dias contemporâneos estaria surpreso em como nos isolamos em nós mesmos. Os olhares estão sempre presos as telas de seus telemóveis e me causa enorme espanto ver como ainda assim, se ocupam da vida alheia. Não entendo.

    bacio

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