Desorganização

Sou uma pessoa desorganizada. Mas, incompreensívelmente para outros que não o são, encontro ordem no meio da minha desordem. Sei bem que o que eu procuro está ali, no meio de muitas outras coisas, em cima daquilo vermelho e ao lado daquela coisa em couro, virado ao contrário e entalado entre outros objectos que já não uso há anos… é simples, assim…
Só passa a ser um problema quando alguém me altera essa ordem e me destabiliza tudo.

A ler, sou do mais desorganizada possível. Na minha cabeceira tenho montes de livros, literalmente. Muitas vezes estou a ler mais de dois ao mesmo tempo. Tanto gosto de romances históricos, como biografias e mistérios. Adoro ler histórias infantis, aliás, um dos meus livros preferidos é o genial Romance da Raposa de Aquilino Ribeiro. Tenho até mesmo um livro que ando a ler há mais de três anos. É um livro “so, so boring” que até eu não percebo como ainda não o pus de lado, de vez… é sobre a cidade de Pompeia, que ficou submersa em cinzas e lava aquando uma das erupções do Vesúvio como que congelando instantaneamente uma cidade e todas as vidas que lá existiam. O tema até que me interessa, mas está escrito de uma maneira desesperante de tão maçadora que é… foi a minha irmã que me ofereceu o livro, numa das suas vindas ao Porto, de comboio.
– ” Toma, ofereço-te este livro. Vais gostar dele….”
– ” Mas tu não o acabaste ainda, não o trouxeste para leres no comboio?”
-” Não faz mal, fica com ele que eu tenho muitos outros para ler…”
Devia ter desconfiado, principalmente porque me disse ter dormido durante quase toda a viagem….
E lá continua ele, num dos montes de livros na minha cabeceira. Sempre que me falta o sono, lá lhe leio mais uma ou duas páginas… acho que já passei da página 42. .

E com a música, podemos ser desorganizados? É claro que sim, pelo menos eu sou. As minhas listas do Spotify devem meter medo a muita gente: Cold Play antes do Rachmaninoff, Creedence entre duas maravilhas de Beethoven e imediatamente a seguir ao meu sobrinho Sebastião a cantar sobre Lobisomens e Abraços, William Vaughan a competir com os Snow Patrol e o Salvador Sobral a dizer que o coração dele pode amar pelos dois…
Mas é assim que eu gosto. Melhor dizendo, quando gosto, gosto em qualquer lugar e a qualquer hora.

E os meus pensamentos? Confesso, são desorganizados também…. e como isso me pesa na consciência, sempre que a lucidez me envolve o discernimento, procuro isolar-me para “mastigar” melhor o que penso ou sinto sobre determinada coisa, pessoa ou assunto. Cada vez mais gosto de organizar a desorganização de tudo o que sei sobre algum tema ou pessoa que me intriga, procurar outras opiniões ou estudos para só então me pronunciar sobre isso….

Até mesmo quando sonho, tudo me aparece da maneira mais desorganizada possível. Ainda bem que não dou muito valor ao significado dos sonhos para além de achar que refletem o que nos preocupa ou ao que somos sensíveis, ou…. que nada significam. Se desse, teria a maior das dificuldades em interpretá-los: o que significaria andar com sapatos pendurados nas orelhas  e chegar ao meu trabalho, de manhã, saída directamente e a pingar das àguas de um rio, vestida de astronauta puxando uma Girafa pela trela?

Será possível ter um Coração desorganizado? É sim, claro que é possível. E a prova disso é o meu coração que ama desorganizadamente, sem nenhum critério, um montão de pessoas. Todas diferentes, mas todas importantes para mim. Pessoas da minha família, pessoas que fazem parte do meu dia a dia, pessoas afastadas de mim fisicamente, pessoas que eu conheco desde sempre e até algumas pessoas que eu nunca vi na minha vida, mas que aprendi a conhecer e a gostar através das suas histórias e contos. Desorganizo-me toda ao presenciar qualquer cenário de carinho e protecção, em particular se forem velhinhos, os protagonistas. Sou capaz de ir até ao fim do mundo, mesmo que isso cause o maior caos de desorganização pelo caminho fora, para ajudar uma criança. Vibro por uma determinada árvore, flor, montanha ou animal. Gosto até – imaginem! –  de curvas da estrada, curvas de rios e das curvas roliças de bebés ainda de colo.
Assim, sem qualquer ordem pré-estabelecida. Nem sequer por ordem de entrada….
Até nos meus ódios particulares sou uma total desorganizada, mas com alguns pontos comuns… deslealdade, mentira, hipocrisia e futilidade são defeitos que não possuo e que não suporto nos outros. Divertem-me, quando não me irritam profundamente, todos os que – provando não o serem – se  autoproclamam inteligentíssimos e  indispensáveis à ordem natural de todas as coisas… Abomino a falta de paciência para os outros, particularmente para com os mais frágeis e indefesos. Desprezo os pretenciosos, os
mal-dizentes e os que são traidores. Mas sou capaz de admirar quem sobe na vida a pulso, quem é resiliente, corajoso e diligente. Mesmo que não aprove tudo que façam, ficam com a minha admiração cativa. Consigo pescar coisas positivas em pessoas como eu, desorganizadas,  que parecem ser apenas negativas, para outros.

Até os meus defeitos são do mais desorganizado possível. Os que eu tenho consciência de ter e de outros que eu não sabia que tinha. Gostava de os ter todos organizados e arrumadinhos em prateleiras, por ordem de gravidade e ordenados de cima para baixo (os terríveis em baixo, os mais inofensivos em cima). Talvez  se eu os contemplasse todos os dias assim dispostos, eu pudesse começar a tratar de os eliminar, um a um, começando por cima. Parece-me que seria bem mais fácil:
– “Hoje vou eliminar-te da minha vida, ó orgulho!” diria eu, ao mesmo tempo que tirava o orgulho da respectiva prateleira e o enfiava pela retrete abaixo…. ou então:
– “Vai ser hoje que me vou livrar de ti para sempre, ó “mania de deixar para amanhã o que podes fazer hoje”” e atirava-a pela janela fora, para nunca mais a deixar entrar em minha casa…
E ainda:
– ” Vai ser hoje o dia em que me vou separar de ti, grande defeito que estás aí na terceira prateleira…. Deito-te ao lixo, ó minha incapacidade para perdoar os outros!”

Mas o problema voltaria todo ao princípio, pois como uma desorganizada incorrigível que sou, bastaria pouco tempo para as prateleiras ficarem todas revoltas e com defeitos meus muito bem escondidos e baralhados … de novo.

Enfim…. só para perceberem como eu sou desorganizada, comecei a escrever este texto com um propósito de vos falar de Donald Trump e de Jair Bolsonaro e acabei por só falar da minha desorganização…. que querem? Desorganizei-me, pela quinquagésima centésima vez e desconfio que muitas mais estarão para vir.

Sou assim, na essência. Não consigo mudar. Era preciso ser muito organizada da cabeça para o conseguir fazer…

E desorganizadamente vos digo adeus e até à próxima.

Publicado por cristina sottomayor

Tudo o que eu escrevo aqui é um misto de vivências minhas e pura ficção. Mas mesmo na ficção, não consigo deixar de ser inspirada por momentos bons ou maus que vivi ou vi acontecerem à minha volta.

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