Caminhada até Fátima, a Nossa Senhora. Para sempre agradecida.

Primeiro dia.
Fiz 30 km, do Porto até Escapães. Estou cansada mas muito contente por aqui ter chegado sem nenhum problema nos pés ou pernas.
Da próxima vez que ouvir alguém dizer:
-“Vou lá para baixo, para Lisboa!”
vou contestar isso veementemente, pois o que eu hoje fiz foi subir e não descer. A prova disso foi que, até S. João da Madeira, se vê sempre o nosso Atlântico, por a quota ser bastante elevada, em relação ao mar.
Ao longo do dia foi-se confirmando aquilo que eu já tinha imaginado: passei por muitos grupos, quase todos eles organizados. A proveniência deles era do mais variado possível, todos do Norte, claro. E todos uma simpatia. Recebi alguns convites para me juntar a grupos, que recusei, usando toda a minha habilidade para não deixar ninguém melindrado. Até um arroz de cabidela (argck!) me ofereceram! É realmente impressionante a solidariedade que se sente ao longo da caminhada. Quase todas as pessoas com quem me cruzei, que não iam em peregrinação, me davam os Bons dias ou Boas tardes, conforme as horas desejando-me também uma boa caminhada.
Particulares, às portas das suas casas a oferecerem-nos fruta e água fresca, de boa vontade!
Apanhei um grupo de crianças da Catequese que me encheram de bananas, laranjas, tangerinas e garrafas de água. O gosto deles em me oferecerem essas coisas era tão visível, tão palpável, que tive que as aceitar todas e carregá-las até a uma próxima curva e as oferecer a outros, de maneira que os miúdos não vissem.
Rezei o meu Terço, ouvi as minhas músicas preferidas, cantei, assobiei e dei por mim a quaaaase, mesmo quase a fazer um gesto como se tivesse a tocar um violino. Isso de termos uns auriculares dá nisso… espero não espantar nenhum peregrino com alguns acordes que dê mais desafinados se, distraída, me entusiasmar demasiado…
E meditei. Temos tempo para tudo e tudo isso faz passar melhor o tempo. Pensei em todos que gravitam ou gravitavam na minha órbita. Propus-me a meditar num tema específico todos os dias desta minha primeira ida a Fátima. Hoje escolhi a família e os meus amigos. Rezei por todos eles e agradeci a sorte que eu tenho de ter tanta gente de quem eu gosto e que gostam de mim na minha vida. Nesta minha peregrinação, que vai ser de agradecimento, tinha que ser a primeira coisa a ser agradecida: família e amigos.
Obrigada Inês e João por me terem ido apanhar, pelo óptimo jantar e por esta cama maravilhosa que só está à espera que eu termine de escrever para me ajudar a adormecer… de coração azul e embalada pelos ruidosos festejos pela conquista do Campeonato:
“Olé, Porto, Olé…
Nós somos a tua voz,
Queremos esta vitória,
Conquista-a por nós!”
E conquistou…

Até já!

Segundo dia.
Fiz igualmente 30 km. Custaram-me mais, pois o calor – húmido – era muito e desagradável. E as subidas ainda são muitas. Fico à espera do Distrito de Aveiro pois lembro-me de o meu Pai nos perguntar, sempre que íamos de viagem para a Costa Nova, se nós sabíamos porque é que o Distrito de Aveiro era o que tinha mais bicicletas de Portugal inteiro:
-“Sabem porquê, meninos? Porque é o mais plano também! Assim, torna-se muito mais fácil usar a bicicleta….”
Que venha o Distrito de Aveiro, então….
Foi bom amanhecer em Casaldelo. Foi muito boa a noite e o pequeno-almoço, Inês e João.
Lá para o meio da tarde, encontrei no bolso do meu casaco umas amêndoas de chocolate. Já não eram redondas, estavam transformadas numa pasta disforme de chocolate, mas que bem me souberam!! Obrigada Inês, por este e os outros mimos…
De manhã atravessei S. João da Madeira. Atravessar não será a palavra certa, pois fiquei com a sensação de ter andado, literalmente, às voltinhas por lá… nunca tinha visto tantas rotundas num sítio só! Fiquei com a impressão que ainda assim falhei algumas… perdi-lhes a conta a partir da quinta ou sexta rotunda. Um dia que tenha disponibilidade ainda organizo uma peregrinação para bater todas as rotundas de S.João da Madeira. Só preciso é de levar umas pastilhas contra os enjoos, com tantas voltas ainda se fica tonta…
Hoje tive três percalços de ordem técnica. O primeiro foi o meu terço preferido que rebentou. Caminhei todo o dia com as duas últimas Avé-marias do segundo mistério e o Pai-nosso do terceiro, no bolso… não dá jeito nenhum, estou sempre a esquecer-me das que foram subtraídas e tenho que voltar atrás, não tenho tempo para isso…
O segundo percalço foi ter perdido os meus auriculares. A sorte foi que, numa das muitas rotundas de S. João da Madeira, havia uma loja gigante de Chineses: auriculares repostos!
Mas não consegui ouvir quase nenhuma música, pois o terceiro dissabor foi ter ficado sem bateria no telemóvel muito cedo e o carregador suplente que trazia, não tinha sido devidamente carregado, por mim! “Mea culpa”.
Já não consegui extravasar-me nas minhas cantorias ao longo da caminhada… e fez-me muita falta.
Voltei a encontrar-me com o grupo do Arroz de Cabidela.
“-A Senhora ainda não desistiu?”
“-Eu, desistir? A não ser que me aconteça alguma lesão física, não penso em desistir…? Porque diz isso?”
-” Ora bem, porque a Senhora é mulher e bai sózinha. Todas as mulheres que bão sózinhas desistem logo no primeiro dia, por isso estou espantado que não tenha desistido já!”
(Hãããã?!?! Por ser mulher e ir sózinha?!?!)
Em Castelo do Neiva (proveniência do grupo da Cabidela) ainda pensam assim…
Hoje o almoço tinha sido Rojões, dizia que estavam de trás-da-orelha!
“-A Senhora debia ter cumido cunnosco!”
“-Muito obrigada, comi uma sopa que me soube muito bem…”
“-Mas bocê pensa que nós também não comemos sopa? Aqui no grupo num falta nada: depois dos rojões morfamos umas balentes papas de sarrabulho!”
(Mais sangue! Não… Socorro!!)
Sempre com um palito, que passava de um canto para o outro da boca a um ritmo alucinante e hipnotizante para mim, tornou a convidar-me para me juntar ao grupo. E de novo, tive que driblar-me em argumentos para me escapar disso.
Despedi-me e ainda ouvi, depois de um sonoro arroto, o homem da Cabidela a sussurrar para o lado:
“-Bai desistir, num passa de amanhã!”
E esqueci-me de perguntar qual era a ementa para o dia seguinte… talvez lampreia, cheínha de sangue, não?
Hoje tive a agradável surpresa de ter tido o meu irmão Pedro e a Isabel minha cunhada ao final da tarde. Vieram ter comigo a Albergaria, ajudaram-me com o alojamento e ainda jantamos juntos. Foi mesmo muito bom!
Sinto-me hoje mais cansada, e apareceu-me, sem me doer ou ter dado qualquer sinal, uma bolha no pé esquerdo. Mas o que me dói mais hoje é o direito. Carinhosamente trataram dos meus pés, num posto de apoio aos Peregrinos e vamos lá ver se amanhã vão passar estas mazelas. O Sr. José Cruz disse que sim, que não era nada de especial…
Espero amanhã conseguir fugir daquelas pessoas negativas que nada ajudam:
“-Para apanhar a N1, vou bem por aqui?”
“-Sim, tem que ser mesmo por aqui, mas olhe que ainda tem que palmilhar muito! E mais à frente tem lá uma subida que aquilo parece uma escada para o céu! E depois ainda aparecem mais outras duas que não são brincadeira, não são não Senhora… Mas bá com Deus!”
A solidariedade que se encontra pelo caminho é assombrosa! O nosso povo é bom… Houve umas alturas em que até fiquei comovida e outras com vontade de abraçar, como foi o caso de uma Senhora que estava a estender a roupa no seu jardim quando eu ía a passar. Com um sorriso, deu-me as Boas tardes e perguntou-me se eu queria comer ou beber alguma coisa. Que tinha feito bolo de mármore para os netos e queria que eu levasse uma fatia comigo. Agradeci e aceitei a água para encher o meu cantil.

“Vou-me deitar, dormir e descansar,
Encosto-me ao cravo,
Abraço-me à Cruz,
E encomendo a minha alma ao Menino Jesus!”

Até já…

Terceiro dia.
Andei 39 km. Até à Curia, onde fico a dormir. Levantei-me bem mais cedo, hoje. Queria evitar andar pela hora de mais calor. Ao despedir-me do Sr. José Cruz, o Enfermeiro (pensava eu) que me tinha tratado os pés na noite anterior, agradeci-lhe, dizendo que me sentia muito bem e perguntei-lhe há quantos anos era ele Enfermeiro.
“-Enfermeiro, eu? Nunca fui! Sou Carpinteiro e Serralheiro Civil de profissão, desde sempre…”
E lá fiquei eu a rebobinar tudo o que ele me tinha feito na noite anterior, com agulhas, desinfectantes, curativos e ligaduras. Contei este desfecho ao meu irmão Miguel, que me disse de imediato:
“-Tiveste sorte, imagina se ele era talhante ou carniceiro!”
Decidi parar para descansar e comer alguma coisa em Águeda. Mesmo à entrada de Águeda, parei nas tendas de apoio aos Peregrinos dos Cavaleiros da Ordem de Malta. Excelentes! As pessoas e as maravilhas que nos fazem aos nossos pés… Não te encontrei lá, Augusto Pinto Osório, mas disseram-me que estavam à tua espera e apercebi-me que toda a gente gosta lá de ti… nada que me espante, por acaso.
Depois de almoçar em Águeda, continuando um pouco mais, comecei a pensar na eventualidade de me ficar por ali, pois estava a ficar mais dorida do meu pé direito. Mas com toda a sorte que tenho tido, cruzei-me com um pequeno grupo de Fânzeres que tinham vindo por Crestuma-Lever, com apenas três pessoas, mas pessoas excecionalmente boas, e um carro com um amigo deles a dar-lhes apoio durante toda a caminhada. Acabei por ir no embalo deles, decidida a fazer mais um esforço. Gentilmente, tiraram-me a minha mochila dos ombros e passaram-na para o carro de apoio:
“-Assim a Senhora vai mais leve!” – disseram eles.
O peso que, literalmente, me saiu dos ombros, chegou a desequilibrar-me durante uns momentos e umas centenas de metros mais à frente, percebi que os meus pés já quase não me doíam…
Extraordinário: o peso da mochila estava-me a estragar isto tudo! Consegui acelerar o passo e fui sempre com a Lasalete (mulher de um dos outros dois) à frente do grupo uns metros largos a marcar passo.
A solidariedade que se vai encontrando pelo meio do caminho é avassaladora. Cheguei a ver cestos gigantes cheios de laranjas, maças e bananas, sem ninguém a vigiar e com um cartaz que dizia: PARA OS PEREGRINOS!
Bancas com café, chá, sumos, águas, sanduiches, bolos, etc. vêem-se muitas. Quem pensa que pode ir a Fátima e fazer dieta pelo caminho, desengane-se: é muito difícil… eu perco-me com a fruta!
Com os meus auriculares novos, voltei a ouvir, cantar e trautear as minhas músicas preferidas, que são tantas!
Comecei hoje pela do Rui Massena, Renascer… com um triplo significado: renascer o dia/sol – eram 6 horas da manhã – renascer a música nesta minha peregrinação depois de um dia sem ela e finalmente o renascer da minha enorme vontade de terminar isto com sucesso! E como eu gosto quando uma música obriga o meu corpo a acompanhar a melodia!
Hoje não me cruzei com o Mr. Cabidela… será que ele já desistiu? Háháhá, essa até que era bem apanhada, se ele desistisse… mas não me vou pronunciar mais sobre isso, estou em contenção de pensamentos maus! Não posso intitulá-lo de pateta nem de idiota, seria muito pouco apropriado para quem vai numa peregrinação de Acção de Graças, Paz e Amor a Fátima! Não vos parece?
Amanhã, logo pela fresca, direcção Coimbra!
Vou dormir, porque já nem sei onde me dói o meu corpo…. Mas vou dormir feliz, por mais um dia conseguido!

Até já!

Quarto dia.
Mais 29 km. Cumpri o previsto.
Cheguei a Coimbra, onde vou pernoitar.
Ontem dormi que nem uma pedra, estava mesmo muito cansada.
Saí, com o mesmo pequeno grupo de ontem, da Curia às 6 da manhã. Passamos pela Mealhada e nem sequer senti um cheirinho que fosse a leitão! Também àquela hora da manhã, os leitões ainda devem estar adormecidos… de qualquer maneira, nunca me tinha apercebido que a Mealhada fosse tão comprida… é que de carro, parece muito pequenina, principalmente porque já sei para onde ir: ao Virgílio dos Leitões, o último de Sul para Norte e o melhor deles todos.
Encontramos um grupo gigantesco de peregrinos, todos de Amarante, eram 420! Garanto-vos que impressiona ver uma fila indiana (de dois a dois) do tamanho deles! E não vai ser numa fotografia que se percebe a real dimensão daquele grupo, todos equipados com o Colete Refletor.
“Refletiam” movimento, cor e burburinho para todos os lados! Para trás, para a frente gravitavam à volta deles apoios ao grupo: ambulâncias, 2 sinaleiros que seguiam uns 50 metros à frente, carrinha com águas, carrinha com café, chá e bolachas, carrinha com colchões e mantas, carrinha com malas e carrinha com sei-lá-o-que-mais-que-devia-ser-absolutamente-indispensável e um autêntico Camião TIR com um cozinha gigante lá montada… A única coisa que os que pertenciam a esse grupo tinham de fazer era só de andarem… para a frente, de preferência!
À frente do “pelotão” vinha uma mulher, com um amplificador, que berrava ordens de comando ou frases para a carneirada repetir:
“Bom dia!” – berrava ela…
“Bom dia!” – respondia o grupo
“BOM DIA!” – tornava a berrar ela, a queixar-se que não estava a ouvir nada… dez “Bons dias” depois, já estava com vontade de lhe lançar uma pedra à cabeça, daquelas brancas de calcário (pelo menos era menos dura que o granito), mas contive os meus ímpetos, sorri e acelerei um bocado a marcha para me afastar o mais possível deles. Preferi continuar em estado de graça, para não comprometer o meu espírito peregrino…
Gosto muito mais da simplicidade e da calma da minha mochila e o poder de decidir se falo, se oiço música, se rezo o terço, se paro para um café, para fazer xixi ou simplesmente para fotografar alguma coisa de que eu goste ou me impressiona.
Perto das 11 horas da manhã, depois de me ter começado a doer consideravelmente o meu calcanhar esquerdo, decidi parar, de novo, na Tenda dos Cavaleiros da Ordem de Malta. Novamente me impressionaram pela solidariedade, pelo carinho, pela boa disposição e pelo profissionalismo a tratarem dos peregrinos! Caramba! Como é bom haver pessoas assim! O mundo fica infinitamente melhor, com pessoas destas… Ao perceber, depois de indagar e ficar a par das imensas dificuldades que eles têm para arranjar todo o material que oferecem, fiquei com vontade de lhes mandar umas coisas para o ano. Vou ver se convenço mais alguém a contribuir: ligaduras, Betadine, Gazes, Meias para entorses (mesmo usadas), adesivos, cremes, etc., etc…. tudo será bem vindo!
Foi nessa altura que me despedi do meu simpático grupo que tive a sorte de ter encontrado ontem. Um aperto de mãos ao Fernando, outro ao Sidónio (é a primeira vez que conheço alguém que se chama assim) ao Júlio (motorista) e um abraço à minha amiga Lasalete (nem sei se é assim que se escreve). Gente boa e generosa. Gente simples. Daquelas que nos ajudam sem quererem nada em troca e sempre com um sorriso!
E lá segui eu novamente com a minha mochila às costas.
Depois de Santa Luzia, optei por ir pelo caminho recomendado, mas que pelos vistos os peregrinos não gostavam de usar. Perguntei porquê, se diziam que era mais seguro, não era melhor? Que não, andava-se mais uns dois ou três km e só se via campos e campos a perder de vista!
E foi isso “dos campos e campos a perder de vista” que me fez escolher precisamente esse caminho. Em mais de 10 km, não apanhei nem passaram por mim nenhum peregrino de Fátima, só no sentido oposto, alguns estrangeiros, a fazerem o Caminho de Santiago.
Mas eu passei por muita coisa bonita. Vi pássaros fantásticos, vi Corvos, Milhafres, Ovelhas, Cabras, flores espantosas e ainda descobri um rio pequeno, afluente do Mondego, que tinha umas plantas sub-aquáticas floridas à superfície da água. As flores eram brancas, pequenas e imensas! Uma beleza.. Nunca tinha visto nada assim.
Como eu gostava de conseguir explicar os cheirinhos deliciosos que senti de tanta flor e os sons que a passarada fazia!
Eu tenho destas sortes, de conseguir ver lugares assim destes… Adorei e não me posso esquecer onde começa: em Fornos.
João Pereira, estive atenta e não te vi, mas vives num sítio fantástico! Adorei uma fonte que aí vi, com azulejos representando animais…. é perto de tua casa?
Cheia de fotografias na minha máquina e novamente cheia de dores no calcanhar esquerdo, lá cheguei a Coimbra cheia de fome e sede. Muito cansada. Mas dentro de mim aumenta de dia para dia, esta sensação de contentamento, de saber que dentro do meu coração, já tão estragado, ainda cabe tantas coisas e tanta gente boa!
A cada dia que passa, mais esta minha ida a Fátima é de/e sobre agradecimento… São tantas as coisas que tenho boas na minha vida, se calhar sem as merecer…
Mais um dia se passou e nem sinal do Mr. Cabidela e do seu grupo de Castelo do Neiva! Por onde andará ele? Amanhã vou investigar isso, é que acabamos por encontrar muitas pessoas repetidas pelo caminho… hoje, quando estava a ser massajada nos pés, oiço uma mulher a dizer:
“-Olha a minha amiga de Águeda!” – ao mesmo tempo que a sorrir olhava para mim. Olhei por trás do meu ombro para ver se estava lá a tal amiga dela de Águeda, quando a oiço exclamar:
“- Então já não se lembra de mim? Fiquei-lhe a guardar a mochila, enquanto foi ao quarto-de-banho em Águeda!”
“-Claro que lembro! Então, como vão esses pés?”
Neste quarto dia, dia dos “Cochos, Pernetas e Mancos”, o assunto principal é sempre “os pés”… por isso, para não sair da minha zona de conforto, agora falo de imediato em pés e ninguém fica a perceber que eu sou distraída e não me lembro nem de nomes nem de caras… E vocês nem imaginam do tanto que se pode falar sobre pés: parece-me ser um assunto inesgotável!
Vou dormir, recuperar as minhas forças para conseguir chegar à Redinha, amanhã….
E vou adormecer a pensar nas palavras que os meus amigos me têm dispensado, aqui, de incentivo. Fazem-me sentir acompanhada.
Eu não digo que sou uma sortuda?

Até já…

Quinto dia.
Mais 31 km. Parti de Coimbra, em direcção a Redinha, ainda a ouvir os barulhos e cantorias da noitada que foi da Queima-das-fitas. Em plena ponte de Santa Clara, um desses estudantes, já completamente extravasado nos copos de uma longa noite, ainda teve suficiente lucidez para me desejar uma boa caminhada…. para…. para… para… para ?!?!?
-“Desculpe, para onde vai?”
-“Para Fátima!”
-“Há, pois! Fátima, os três Pastorinhos… essas cenas todas maradas… Boa viagem, Continuação, Tudo de bom! Até amanhã! (???)”
Acordei cheia de energia. Os meus pés melhoraram consideravelmente e caminhei toda a manhã sem dificuldades de maior. Tive uma vontade enorme de ir visitar Coninbriga, onde já não vou desde pequena, acompanhada pelo meu Pai e irmãos. Mas lembro-me muito bem do quanto eu gostei daquilo. Fica para uma outra vez, agora seria complicado. Choveu durante toda a manhã. Mas era chuva da miúda, quase da molha-tolos…
Até por volta das 3 horas da tarde, o percurso foi pelo IC2. Não havia alternativa. Assustador o trânsito, ininterrupto, grande parte de camiões TIR.
Hoje o dia era triste para a minha família. Foi o dia do enterro do Tio Nicha, um dos melhores amigos do meu Pai. Não estive no seu enterro, mas estive com ele nas minhas orações. Num dos momentos em que aproveitei para descansar, falou-me o meu primo Miguel que estava a vir de Lisboa com a minha Tia Leonor. Vieram ter comigo, antes de se irem despedir do Tio Nicha. Foi como que um presente inesperado que recebi nesta minha peregrinação! Que bom que foi, Miguel Lopo! Obrigada…
Hoje foi com certeza o meu dia da música! Usei e abusei de todas as músicas que eu gosto e que fazem parte da minha lista do Spotify. Sentia-me bem, feliz… Fartei-me de cantar e de assobiar… à minha vontade! Já pouco me importa que os outros que vão passando me oiçam: encolho os ombros, rio-me para eles e continuo com a minha cantoria. Que bem que sabe! Não me lembro de fazer isto nunca…
Já há uns anos, depois de ter sido operada à Tiróide, fiquei uns meses rouca, ou afónica. Na altura descurei isso e não fui fazer terapia da fala para recuperar a minha voz em 100%. Apercebi-me tarde demais que não conseguia elevar o meu tom de voz, não conseguia dar berros e, principalmente, não conseguia fazer voz de falsete ou mais esganiçada para encarnar as personagens das histórias que contava aos meus sobrinhos.
Mariana, Inês, Francisca e Sancha: lembram-se daquela história do coelhinho que se estava sempre a queixar, que passava a vida a chorar, guinchar, berrar e muitos mais barulhos estranhos que vos fazia rir às gargalhadas? Acho que já consigo fazer outra vez isso tudo… Vou experimentar com a Luisinha, com a Caetana, com o Luís e com o Duarte.
É que cantar aos altos berros os Pink Floyd, desembaraça-me a voz, desprende-a! Faço finalmente a terapia da fala:
“We’re just two lost souls
Swimming in a fish bowl
Year after year
Running over the same old ground
And how we found
The same old fears
Wish you were here”

Bem ditos Pink Floyd!
Também tenho aperfeiçoado o meu assobio, já mais para música clássica, o Benedictus, por exemplo…
Ou o Johann Pachelbel com o seu Canon tocado pelo George Winston, ou a 2. Sinfonia de Rachmaninoff (que maravilha!)
Mas a mais embaraçosa de todas é uma das músicas do Sebastiao, meu sobrinho. A música Watching Movies tem um refrão que me comanda a voz, não consigo resistir a cantá-lo:
“uuhuuh-uhuhuuuu!”
Imagino o que quem vem atrás de mim possa pensar, ao ouvir esses huhuhus todos espaçados de alguns segundos ou mesmo minutos…
Só espero não indispor ninguém! Mas a verdade é que adoro ouvir as minhas músicas preferidas, que ficarão indelevelmente ligadas a esta minha ida a Fátima a pé.
Já a tarde ía a meio e tornei a encontrar outro caminho alternativo ao IC2. E voltei a ser a única a fazê-lo. Não era tão comprido como o de ontem, mas era igualmente bonito. A paisagem começa já a modificar-se: muitas Oliveiras, Sobreiros e Azinheiras. A terra já é vermelha, cor de barro e as pedras que se vêem espalhadas nos campos já são todas calcário…
Continuo encantada com as flores silvestres que vou encontrando, havendo mesmo algumas que eu nunca vejo no Norte. Eu não acredito em coincidências e, por isso mesmo, acho que Nossa Senhora escolheu o mês de Maio de propósito para quem a fosse visitar a Fátima pudesse usufruir de toda a beleza das flores, selvagens, que vamos encontrando pelos caminhos. E os cheirinhos bons que se sentem pelo ar? Indiscritíveis….
Quando falava a alguém sobre a minha vinda a Fátima, todas as pessoas me diziam mais ou menos as mesmas coisas:
-que não devia vir sozinha
-que ía ter bolhas nos pés
-que devia trazer tal coisa.
-que devia fazer isto…
-que devia fazer aquilo…
-réu-péu-péu-pardais-ao-ninho…
Mas só duas pessoas me disseram o que eu agora me apercebo de ser o certo:
“-Para se estar tanto tempo sózinha, precisamos de estarmos muito bem connosco próprios ..” lembra-se de me ter dito isto, Joana Abreu?
“-Cristina, aproveite ao máximo e tente memorizar o mais possível as pessoas e coisas que vai encontrando, pois vai ser uma experiência espiritual única e irrepetível, por ser a primeira.” Prof. Jorge Cunha
Hoje completei dois terços do caminho Porto/Fátima, ao mesmo tempo que fiz exactamente a metade da distância entre Porto e Lisboa. Estou contente por ter conseguido fazê-lo, apesar de alguns momentos dolorosos e de desânimo por que passei.
Quando preparei a minha mochila, tentei ser o mais despojada possível de coisas inúteis ou com pouca necessidade. Agora, ainda acho que devia ter trazido apenas metade do que trouxe. Pois é mais ou menos o que eu ainda não precisei e nunca usei: a metade do que eu trouxe…
Continuo a testemunhar a solidariedade de muita gente ao longo do percurso. Que pessoas fantásticas! Hoje, muitas delas estavam estoicamente de pé atrás de uma banca, a oferecerem comida, fruta e bebidas a quem passava, debaixo de chuva. São os meus heróis!
Cruzei-me com um Pai e o seu filho, que iam a caminho de Santiago. Estavam os dois devidamente equipados e com uma bandeira portuguesa. O Pai, ia a pé, empurrando a cadeira de rodas do filho, de talvez os seus quatorze anos de idade que tinha o que me pareceu ser Paralisia Cerebral. Fiquei comovida com a alegria que emanava deles os dois, o sorriso deles a saudarem-me vai ficar para sempre guardado no meu coração. Sinto-me pequenina, ao lado de pessoas grandes destas!
Voltei a aceitar o carinho daquelas outras pessoas tão generosas e especiais que são os voluntários da Ordem de Malta!
E desta vez tive a sorte de encontrar quem tudo faz acontecer ali: Augusto Pinto Osório, adorei encontrar-te!
A excelência não precisa de muitos luxos, precisa de boa vontade como a que a tua equipe tem!
Amanhã vou em direcção a Barracão ou a Colmeias, ainda não sei muito bem.
Nem acredito que mais dois dias e chegarei a Fátima! Espero que tudo me continue a correr bem..
Consegui arranjar o meu Terço que estava partido.
Ninguém viu o Sr. Cabidela, andei a perguntar por ele… o grupo sumiu-se!
Vou dormir, que já é muito tarde para mim…
Beijos para todos!

Até já!

Sexto dia.
Calcorreei mais 30 km. Parti da Redinha e cheguei a Barracão. Já só faltam 24 km! Quem os controla é o meu irmão Miguel: eu envio-lhe as coordenadas e ele faz as contas. Também me tem ajudado a optar por caminhos melhores. Depois de mais um excelente apoio dos Voluntários da Ordem de Malta, amanhã estarei pronta para percorrer os kms que faltam. Já estou com uma tamanha expectativa de chegar a Fátima que nem imaginam… ainda por cima, todos me dizem que é a parte mais bonita do caminho, ao mesmo tempo que é comovente. Estou em pulgas!
Hoje, pouco depois da hora do almoço, enveredei por mais um caminho campestre, calmo e bem mais seguro que o IC2. Continuo a ver peregrinos que preferem ir pelas estradas principais, atulhadas de carros e camiões que passam por nós a um ritmo cansativo, ensurdecedor e assustador. Não os percebo…
O caminho de hoje não vou conseguir fazer-lhe justiça, pois não sei como descrever toda a beleza que vi. Tenho tirado muitas fotografias, posso depois publicar algumas para vos transmitir algumas das coisas bonitas ou curiosas que fui vendo. Juntei-me um par de horas a um outro pequeno grupo de Cabeceiras de Basto. Duas mulheres e uma rapariga que começou a rezar o terço. Perguntei se podia acompanha-las e lá fomos as quatro a rezar… A rapariga, com uma voz melodiosa e cheia de entoações fez-me lembrar a minha Avó Branquinha nas Ladainhas que rezávamos, com ela nos comandos. Até o terço acabar, pareceu-me, a rapariga, um pouco beata de mais. A quantidade de orações já minhas conhecidas e outras que eu não tinha nunca ouvido foram tantas que ultrapassaram largamente em quatro vezes o tempo de rezar um terço normal… e entre cada mistério, cantavam o Avé-Maria.
“-Estou tramada – pensei eu, confesso – nunca mais me despacho disto…!”
358 orações depois, lá rezamos finalmente a Salvé-Rainha.
Foi então que, aquela que eu pensava ser uma beata das antigas, a tal rapariga, se revelou ser uma bem-disposta e com um sentido de humor do mais refinado que há. Foram duas horas de gargalhadas e boa disposição. Se há coisa que eu aprecio é estar com alguém com sentido de humor! Chamava-se Bernardete da Conceição.
Rata, quando me ligaste era delas que eu me estava a despedir…
Descobri que afinal existe mais uma unidade de medida de tempo e mais outra unidade de medida de comprimento!
A palavra “já” equivale a uma hora (60 longos minutos) e a palavra “alí” corresponde a uns compridíssimos cinco quilómetros. Transmito-vos o resultado do estudo que tenho vindo a fazer ao longo da minha caminhada, um “experimento” como dizem os Brasileiros:
Quando eu pergunto onde fica qualquer coisa (um café, um cruzamento, uma farmácia, um supermercado, etc.) se me respondem com “É já alí!” eu agora, já sei que é preciso passar uma hora inteira e palminhar mais cinco quilómetros. É científico, não falha!
Já = 1 hora
Alí = 5 km
Ainda bem que ninguém me respondeu com:
“-É já ali muito mais para a frente, a seguir a esta recta interminável, logo depois desta subida que começa na curva!”
Mas, tal como as nossas vidas, não existem “rectas intermináveis” todas têm um fim e, já que assim é, não vale a pena fixarmos os nossos olhos/objectivos apenas no final. Tudo passa melhor e mais depressa se estivermos atentos, ou distraídos, dependendo do ponto de vista, ao que vamos vendo, conhecendo e experimentando durante todo o caminho.
Ao longo destes últimos dias, tenho-vos falado da fruta que vai sendo oferecida aos peregrinos pelo caminho. Acho que tenho comido as melhores laranjas da minha vida! São laranjas daquelas que tínhamos quando éramos pequenos: nada de laranjas de Supermercado. Algumas feias, algumas tortas, algumas pequeninas, umas mais amarelas do que cor-de-laranja, mas todas elas sumarentas, doces e deliciosas! Que bem que me sabem, nas pausas que faço… Já é muito pouco provável que eu apanhe Escorbuto nesta minha vinda a Fátima, e também não terei, nos próximos tempos, falta de vitamina C… Que pena não haver Melancia… voltava ao princípio, só pela Melancia e as Laranjas!
Sinto-me cansada, mas muito contente comigo própria. Confesso-vos, aqui que ninguém nos “ouve”, que não sabia se ía conseguir aguentar. Quando o Mr. Cabidela declarou que eu ía desistir, depois de uns momentos iniciais em que eu própria fiquei na dúvida, atirei-me para a frente, muito decidida a chegar a Fátima, precisamente porque sou mulher e, porque não? também por ter optado em vir sozinha. Por isso, só posso agradecer a todos os Mr. Cabidelas que andam por esse mundo fora: obrigada por nos darem ânimo e incentivo, a nós, mulheres.
Obrigada por existirem! Sem vocês por aqui, não iríamos conseguir tudo o que fazemos, mesmo que fosse com muito esforço.
Vou dormir, que já são mais que horas…
E para melhor adormecer:

“Ó Senhora minha ó minha Mãe,
Eu me ofereço toda a vós
E, em prova da minha devoção para convosco,
Vos consagro, neste dia,
E para sempre, os meus olhos, os meus ouvidos, a minha boca, o meu coração e, inteiramente, todo o meu ser! e porque assim sou vossa, Ó incomparável Mãe,
Guardai-me e defendei-me
Como coisa e
propriedade vossa.
Lembrai-vos que vos pertenço, Terna Mãe, Senhora nossa.”

Até já!

Sétimo e último dia! A manhã está fresca e muito cinzenta, ao contrário da de ontem, que estava uma espantosa manhã de Primavera.
Já só faltam 26 km, acho eu, pois há quem diga que são 21 e outros 24.
São apenas 5,05 “já’s” e outros tantos “ali’s”…
Escolhi o valor mais alto, assim, se pecar, será por excesso.
Não me cansarei nunca de partilhar e testemunhar a minha excelente experiência com o Voluntariado da Ordem de Malta. Para além do óbvio, que é o tratamento de pés, pernas, braços ou qualquer outra indisposição, também nos tratam do nosso espírito. Nos três postos por onde passei, reinava a boa vontade, a boa disposição e o carinho – literalmente – pelo próximo. Apesar de eu ser amiga do Augusto, fui tratada da mesmíssima maneira que qualquer outro peregrino! Que exemplo enorme de solidariedade eles me deram… vão ficar bem arquivados no meu coração, para sempre.
Na verdade, os últimos dez kms de ontem (foram sempre os que mais me custaram, esses danados últimos!) percorri-os a convencer-me a mim própria que faltava pouco mais para chegar ao Posto da Ordem de Malta, em Barracão. E quando, dentro do meu horizonte se incorporaram as tendas militares que eles usam, foi como se estivesse sequiosa no deserto e de repente visse uma miragem! E pela terceira vez, tudo se repetiu: fui tratada o melhor que se pode ser tratada… “com Honra e Devoção!”
Que bom haver pessoas destas no nosso mundo, são realmente elas que fazem a diferença. Bem hajam!
São inúmeros os exemplos que poderia dar sobre o companheirismo e solidariedade que se vai encontrando por estes caminhos fora. Ontem, umas centenas de metros depois de uma miúda de uns cinco anos de idade, acompanhada pela Avó, me ter oferecido meia-dúzia de nozes, vem ao meu encontro um senhor, motorista de um das centenas de carros de apoio aos peregrinos que pululam de trás para a frente durante todo o trajecto. Estendeu-me um pau, acabadinho de entalhar e disse:
-“Preparei-o para si! Vai ver que é bom caminhar com ele.”
-“Para mim? Muito obrigada, que bom…”
-“Não é nada de especial, já tinha reparado que a Senhora não levava nenhum bastão na mão e como tenho muito tempo para matar, pois vou na carrinha, meti-me a fazê-lo para si. Faça uma boa viagem!”
Mais uma para eu arquivar…
Infelizmente, à noite, esqueci-me desse bastão nas tendas da Ordem de Malta. Mas a verdade é que valeu pelo gesto deste Senhor, que foi gigante, pois para mim já não me habituava a andar com um bastão na mão.
Eu sei, Miguel, mano mais velho, que quando leres isto vais exclamar qualquer coisa parecida com: “Que teimosa! É o melhor que há, caminhar com um bastão nas mãos!”
-/-
Hoje decidi dividir o meu relato diário em duas partes: a primeira parte, vou escrevendo nos meus momentos de descanso. A segunda, pela qual estou em muita expectativa, reservo-a para logo à noite, quando já estiver em Fátima…
Nestes últimos kms que fiz, vim pelo meio do monte. Se não fosse pelos campos que existem no sopé, não seria nada de especial, a não ser que eu fosse uma Koala: só eucaliptos, demasiados eucaliptos para o meu gosto. Só valeu pelo cheirinho que emana deles… Aqui temos tempo para pensarmos em tudo, até em parvoíces: cheguei à conclusão que o hálito dos Koalas deve ser muito bom, fresquinho e com “sabor a frio” que era como o meu sobrinho Sebastiao chamava às chicletes de Mentol.
-/-
Agora queria falar dos coletes de segurança que todos os peregrinos são obrigados a usar, enquanto caminham. Que mal amanhados eles são! Deviam vir, obrigatoriamente, com bolsos e outros compartimentos para levarem coisas tipo telemóveis e carregadores suplentes. O tecido deles devia ser quente no Inverno e fresco no Verão. O ideal mesmo era virem com ar-condicionado incorporado e um GPS para não nos enganarmos no caminho. Também seria agradável servirem de almofada quando nos deitássemos e de impermeáveis quando chovesse.
Deviam ter energia Solar e Wi-Fi.
Há! E deviam todos vir equipados com um espelho retrovisor: nem imaginam o que me custa olhar para trás para saber se posso dar largas à minha voz! Até me desequilibro, às vezes!
Um Pisca-pisca para a direita também fazia muito jeito, para prepararmos devidamente a ultrapassagem dos que vão mais devagar do que nós.
Por último, mas não menos importante, para quebrar a monotonia de estarmos sempre a ver as mesmas cores, deviam ser fornecidos uns com florzinhas, outros com risquinhas e outros com bolinhas, todos coloridos. Para os dias sombrios seria um conforto para os nossos olhos… Eu, pessoalmente, acho que escolheria o das bolinhas cor-de-rosa com fundo azul noite.
Inventam tanta coisa que não serve para nada, e ainda não inventaram o colete ideal para peregrinações…
Já é quase meio-dia, o sol já apareceu e o calor começou a apertar. Já tirei muitas das camadas de roupa que trazia vestida…
Vou continuar o meu caminho.
E vou igualmente continuar com as minhas cantorias e assobiadorias!
-/-
Estou escandalizada com o preço da Gasolina: 1,60€ o litro ?!?!?!?
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Parei para almoçar na Caranguejeira e o meu co-piloto-irmão-Miguel diz-me que já só faltam 14 km para o Santuário da nossa Rainha.
Acho que, apesar de estar cansada, é o dia em que me sinto melhor e com mais energia. Deve ser o que toda a gente me diz, sobre, quando se está a chegar, parecer que se renovam as energias inexplicavelmente ou não…
Agora despeço-me mesmo e mais logo escreverei a Segunda parte de hoje, para quem tiver a paciência de a ler.

Até já!

Chegada a Fátima. Última parte da última etapa. Bolas, quatro kms de subida… garanto que não é brincadeira nenhuma, e estava calor. Mas não posso dizer que tivesse sido a que mais me custou. O contentamento de já estar a chegar sobrepõe-se muito ao cansaço, que era o que todo o meu corpo ía berrando: “Estou cansado, vamos parar mais um bocado!”
Fiz estes últimos kms quase sempre de nariz no ar. Nem imaginam como estava o céu! As nuvens faziam desenhos nelas próprias, apagavam tudo e recomeçavam de novo esboços de plumas, bolas, aros, o que parecia cabelos, peixes, letras e até houve uma altura que pareciam formar um número e dois objectos muito intrigantes para mim. Eram os ventos altos que estavam a brincar com as nuvens brancas de algodão. Senti que, de uma maneira extraordinária, estava a ser presenteada à minha chegada com um espetáculo vindo do céu. Tirei muitas fotografias, quando as mostrar, dir-me-ão se foi tudo imaginação minha, ou não.
Eu já só sentia cansaço. As minhas pernas e pés estiveram ontem muito bem. Nada de bolhas ou outras mazelas. Que sorte eu continuo a ter! Impressionei-me, com muita gente à minha volta. Desfeitos, a gemerem de dores enquanto percorriam estes últimos metros, uns amparados por outros, outros literalmente puxados pelos bastões dos menos cansados, ladeira a cima. Viam-se pés entrapados que só de olhar para eles me provocavam dores alheias. E eram velhos, novos, homens ou mulheres. Transversal, portanto.
E a solidariedade e entre-ajuda ainda conseguiu crescer mais. Todos puxavam por todos!
Parei algumas vezes, e de imediato alguém vinha ter comigo a perguntar se estava tudo bem, a certificarem-se se eu estava a desanimar ou não, se eu precisava de água, etc., etc..
O mesmo instintivamente eu fazia quando via alguém a parar. As palavras de ordem eram todas para animar!
Quando passei – finalmente – pela placa da localidade que dizia FÁTIMA, fi-lo ao mesmo tempo que uma rapariga que mais tarde me disse que vinha de Guimarães. Era muito nova, não devia ter mais de 20 anos. Depois de ela ter lançado um berro:
-“Conseguimos ou não conseguimos??”
Estendeu-me as duas mãos, naquele gesto de “dá cá mais cinco”, um sorriso do tamanho do mundo e depois abraçamo-nos as duas!
Eu, Cristina, abraçada a alguém que não conheço de lado nenhum? E ainda por cima feliz?
Mas a verdade é que foi um momento emocionante… e é difícil conseguir explicar melhor.
Chegada ao que eles chamam de Rotunda Norte, fui tomar um café enquanto verificava a morada do quarto que tinha reservado já em Janeiro. Só tinha decorado o nome: Residencial Santa Bárbara. Não tinha reparado ainda na morada: Rua 13 de Maio, nr. 13…! Curioso, não é? Já em Coimbra, fiquei a dormir no dia 8 de Maio num hotel que se situava na Praça de 8 de Maio… são acasos engraçados que por vezes acontecem.
Perguntei se alguém sabia onde era essa rua 13 de Maio – esperando que não fosse longe dali – e uma Senhora que estava a comprar pão diz-me:
-“Eu sei onde fica essa rua, é para os lados da Rotunda dos Pastorinhos”
“-É muito longe daqui?”
A Senhora fez uma pausa antes de responder, olhou para a filha por uns instantes e voltando-se de novo para mim, responde-me assim:
“- Depende, é perto para quem não está cansado e muito longe para quem já fez tantos kms como eu acho que a Senhora fez. Nós levamos a Senhora até lá, não levamos, Margarida?”
Que não era preciso, que podia perfeitamente apanhar um táxi, que mais km menos km já não me fazia diferença,etc., mas nada que eu dissesse a demoveu da decisão de me levar até ao hotel. E levou-me, e era de facto muito longe. Teria sido duro para mim fazer mais aquela distância, de tal maneira eu estava cansada. Mais duas pessoas para eu arquivar…
Decidi descansar primeiro e só ir ao Santuário no dia 12. Quero estar em forma para aproveitar tudo!
Escrevi este texto às cinco da manhã, e vou dormir mais um bocadinho. O meu ritmo biológico anda um bocado descontrolado. Nada que não volte ao normal quando estiver de novo no Porto…

Até já!

 

Estou na casa da “Senhora toda vestida de branco, mais brilhante que o sol”…
Sempre que cá venho fico comovida.
Hoje, essa comoção triplicou.
Fogem de mim as palavras para tentar descrever o que sinto aqui, em plena casa da Nossa Rainha, nem sequer vou tentar fazê-lo.
O terço gigante já não está cá!
O céu, que emoldura todo este sítio que me provoca arrepios e me faz chorar, está uma beleza! As nuvens continuam a brincar comigo, a ganharem formas bonitas umas atrás das outras.
Rezei um terço por todos aqueles que me pediram assim como pelos que nada me disseram.
Entreguei as vossas intenções a Nossa Senhora. Usei o meu método secreto para não me esquecer de ninguém…
E está um frio de rachar!

Até sempre!

4 thoughts on “Caminhada até Fátima, a Nossa Senhora. Para sempre agradecida.

  1. Nuno Campos

    Olá Cristina, acompanhei a tua peregrinação, dia a dia, no FB. Gostei mesmo muito.

    Quase parecia que também lá estava.

    Tens realmente muito jeito para escrever, continua assim, por favor!…

    Obrigado pela partilha. Beijo grande.

    nuno

    Liked by 1 person

    1. Obrigada, Nuno. E tenho que te dizer que a dica que me deste sobre o tal creme anti-fricção foi crucial para mim.
      Gosto muito que gostes do que eu escrevo. Conheço o teu excelente sentido de humor e atrevo-me a pensar que também achas alguma piada ao meu, se é que o tenho…
      Beijinhos.

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  2. Obdulio Nuñes Ortega

    Cristina, de Cristo, que magnífico relato! Sou cristão, mas não professo Igreja nenhuma, a não ser uma junção de ensinamentos de matizes diversos. Mas se há algo que me comove é a expressão de fé, não importa de onde venha. Especialmente em Maria. Acompanhei a sua caminhada, passo a passo, a rir diversas vezes para a curiosidade da podóloga que me atendia. O seu excelente humor é natural e sua escrita fluída e encantadora. No meio do relato, já (imediatamente) estava a segui-la, também em seu blogue. As aparições (pessoais e mentais) do “diabo” Senhor Cabidela, a atentá-la, foram especialmente hilárias e emblemáticas dos quantos obstáculos se contrapõem a nossos objetivos, às vezes sob a aparência do simplório. Pretendo, um dia, percorrer o caminho de São Thiago de Compostela. Não sabia que os dois caminhos se cruzam. E caminhos cruzados são as tramas que tecem a vida.

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    1. Que simpático o seu comentário, Obdulio!
      Eu estou a fazer planos de ir no próximo ano a Santiago, desde o Porto, cidade onde nasci e vivo. Quem sabe os nossos caminhos se cruzarão nessa aventura, ou neste caso, se encontrarão!
      Muito obrigada!

      Liked by 1 person

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