O julgamento do Coração Culpado

 

Na véspera do seu Julgamento o Coração não conseguiu dormir. A angústia afugentava-lhe o sono.
Ainda o sol não se tinha levantado e já o pobre do Coração, farto de dar voltas, estremeções, cambalhotas e saltinhos para adormecer, decidiu levantar-se e preparar-se para o dia difícil que estava para começar.
Quando entrou no Tribunal, sentiu os olhos dos que o acusavam a trespassarem-no… tanta animosidade que se sentia no ar!
À hora marcada, foram todos chamados e instalados nos seus lugares. O Coração, sentou-se no banco dos Réus. Sempre tinha sido um coração puro, verdadeiro, sem maldade ou inveja e por ser assim achou que conseguiria defender-se sozinho. Falaria sempre a verdade, por mais que custasse.
No lado oposto, sentaram-se os que o acusavam: o cérebro, a barriga, o útero, os olhos, o cabelo e a boca.
No meio dos dois grupos, num plano mais elevado e atrás de uma grande secretária estava o Juiz, com uma cara de poucos-amigos. Estava a fungar e a assoar-se para um grande lenço aos quadradinhos. Os seus olhos estavam vermelhos e lacrimosos. Fez-se um respeitoso silêncio para se ouvir três espirros seguidos que o Juiz produziu… que barulhão!
“-Era o que eu estava mesmo a precisar: de um Juiz com alergias!” -pensou o Coração.
“Ora então vamos lá começar! – disse o Juiz com a sua voz fungosa.- Sr. Coração! Vai ser julgado por crimes cometidos contra os acusadores, a saber: O Cérebro acusa-o de ter posto em alto risco a sua racionalidade; a Barriga diz que ficou disléxica e cheia de tiques com os tumultos que lhe provocou; O Útero queixa-se de ter sido posto completamente de lado; os Olhos ficaram exaustos de tanto que os obrigou a ver; o Cabelo ainda não recuperou dos choques que lhe infligiu e a boca não lhe perdoa o trabalho extra não remunerado e sem descanso. Está ciente de todas as acusações que tem contra si?”
“-Estou sim, Sr. Juiz.”
“-E o que me tem a dizer, declara-se culpado ou inocente?”
“Inocente, Sr. Juiz! Triste, mas inocente!”
“Então vamos lá começar o julgamento. Que suba ao estrado o Sr. Cérebro!”
O que nos tem o Senhor a dizer contra o Réu?-pergunta o Juiz.
“Eu estou muito desagradado com toda esta situação. Sinto que fui muito ignorado e que a minha reputação ficou irremediavelmente danificada. Fartei-me de avisar e de explicar por A+B que o Coração não se podia deixar ir assim. Que muita coisa estava em causa e que a satisfação imediata nunca foi coisa de se confiar… Além do mais, eu já não vou para novo e isso de ter que decorar novos nomes tipo Rachmaninnof, Bach, Bethoven é um abuso, não tenho descanso: eles são os para piano, para violino, para sei-lá-o-quê; são andamentos, são adágios, são mandamentos e o Diabo-a-quatro! E pelo meio ainda aparecem os Metallica, os Cold Play e os Gun and Roses… Não há cérebro que aguente! Agora que as coisas terminaram, sou eu que tenho que aguentar o barco, dar alento, mostrar o caminho, não deixar a vontade esmorecer e explicar que o tempo tudo fará serenar. Mas, Sr. Juiz… é um trabalho inglório, ninguém me quer dar ouvidos e eu, muito sinceramente já nem consigo pensar direito. Contrariamente ao que eu sempre fiz, agora só consigo pensar numa coisa de cada vez! O transtorno que isso me faz! Não acho justo ser eu a ficar com este grande problema, por isso estou aqui para exigir que se faça justiça! O Coração vai ter que pagar…” –
e dando por terminada a sua declaração, o Cérebro voltou ao seu lugar.
“-Obrigado pelo seu depoimento Sr. Cérebro! disse o Juiz, depois de ter dado mais duas assoadelas no lenço que já estava perigosamente molhado.. – Que avance agora a D. Barriga. Venha contar-nos o que a molestou.”
E a Barriga lá subiu para o palanque.
“-Juro dizer a verdade, apenas a verdade e só a verdade, so help me God!” – declarou a Barriga , com a palma da mão direita levantada, sem ninguém lhe ter pedido nada…
Instalou-se uma pequena confusão na sala, até o Juiz ficou baralhado com o discurso da Barriga.
“- Porque raio é que disse isso, D. Barriga??”
“-Desculpe… sorry, vi isto num filme e achei que ia ficar giro fazê-lo aqui. Estive ontem toda a tarde a treinar em frente ao espelho…”
“-Bem, diga lá de que se queixa em relação ao Coração. Que mal lhe pode ele ter feito?”
“-Sr. Juiz, ainda bem que o pergunta, porque tenho muito que contar – Ai! A Barriga sempre com a mania das grandezas: gostava de se ouvir a ela própria e de chamar a atenção de toda a gente posicionando-se sempre na primeira linha, toda a vez que chegava a qualquer lado. Apesar de a tentarem esconder ela conseguia sempre que reparassem nela.
“- Eu fui completamente abusada! O Coração provocava-me como que choques eléctricos que me faziam desfalecer, sempre que gostava de ouvir ou ver qualquer coisa boa. Outras vezes, quando me obrigava a ouvir aquelas músicas intermináveis, fazia-me torções nos meus músculos sempre que os acordes eram especiais, melodiosos, arrebatadores. Não há direito! E quando queria perceber melhor uma música em especial, repetia-a até à exaustão da minha pobre condição de barriga… e quando eu pensava que tudo tinha acabado, descobria a mesma música mas com intérpretes diferentes: Ui, ui, ui… pobre de mim, indeed! Quero justiça! Estou toda espalmada… tão espalmadinha que quando…”
“-Muito bem D. Barriga, acho que já percebemos o que se passou consigo. – interrompeu o Juiz – Dispenso-a de continuar, recomponha-se e volte para o seu lugar. Chamo agora o Sr. Útero a depor. Aproxime-se por favor. E conte-nos o que lhe vai aí por dentro”
“-Obrigada Sr. Juiz, mas eu para dizer a verdade estou aqui porque o Cérebro me convenceu a vir testemunhar. Eu até queria ficar caladinho a ver se ninguém reparava em mim… Posso voltar para o meu lugar, Sr. Juiz?, Por favor?”
“-Mas o Sr. pensa que isto é uma brincadeira? Estamos no tribunal… diga o mal que o Coração lhe fez, estou à espera!”
“-Desculpe, eu não queria incomodar ninguém. Eu só disse ao Cérebro que estava contente por não falarem muito de mim, como se estivesse esquecido. Eu queria que todos se esquecessem do sei-lá-que-nome-lhe-hei-de-dar-do-que-tem-que-sair de dentro de mim… O Cérebro é que achou que eu estava a ser ignorado, mas eu nunca me senti esquecido, apenas controlado. Posso retirar a minha queixa contra o Coração? Eu gosto muito dele. Quando daqui sairmos, até lhe vou dar um abraço muito bom…
“-Bem, assim não há condições para continuar com a sua queixa… Considera-se esta queixa anulada. Pode sair da sala, já não precisamos mais de si.”
“-Muito obrigada Sr. Juiz! Muito agradecido pela sua benevolência… Mas vou esperar pelo meu amigo coração, sem ele não sou ninguém e quero dar-lhe o tal abraço de apoio!”
E o Coração, cansado de ser descuidado, quando ouve isto, vieram-lhe as lágrimas aos olhos: verdadeiro amigo, aquele Útero, pensou ele… e sem som, pronunciou a palavra “Obrigado” com a sua boca na direção do seu amigo.
A seguir vieram os olhos. Como eram dois, tiveram que se organizar antes para não caírem em atropelos ao falarem. Decidiram, pragmáticos como todos os olhos são pois só acreditam no que vêem, que iam ser rápidos e objectivos:
“-Sr. Juiz, nós reclamamos as imensas horas que o Coração nos obrigou a ver… Tudo tinha que ser passado a pente fino. Uma folha, uma flor, um céu bonito, um pássaro, uma criança pequena, um bebé sorridente, um vizinho triste, um Salvador endiabrado e cheio de sardas… e centenas de letras para ler… tudo o Coração obrigava a apreciar e a olhar com olhos de ver, que canseira! Reclamamos por este excesso todo. Precisamos de férias, de descanso… de novas lentes de contacto, já agora… Temos dito!”
“-E disseram muito bem! Agora vamos ouvir o cabelo… Venha cá se faz favor!” – chamou o Juiz.
“- Aqui estou eu Sr. Juiz. Mas eu na verdade só tenho a reclamar duas coisas: a primeira é que senti a falta de dois pedaços do meu cabelo. Foi numa altura em que adormeci e o Coração aproveitou-se disso e cortou-me o cabelo, duas vezes! Não acho justo, a única coisa boa é que não me cortou a minha madeixa branquinha-de-neve. Tenho-a escondida debaixo do cabelo preto, e não gostaria que a tivessem cortado, ficaria muito triste. Também quero justiça! Não se pode andar por aí a cortar cabelos por pura pieguices de Corações … Não tenho obrigação de aturar isso!”
“-Muito bem, Sr. Cabelo, muito bem. Já fiquei inteirado do que aconteceu.
Chamo, por último a boca para nos vir explicar qual foi a sua mágoa em relação ao Réu, o Coração. Aproxime-se Boca!”
“- Aqui estou eu, pronta para esclarecer o melhor possível o que se passou. Eu queixo-me do sorriso palerma que durante uma eternidade tive que estampar… de noite, de dia, quando olhava para alguém, quando via um animal, quando pagava uma multa, quando comprava um remédio, quando ía às compras no Supermercado, quando estava a trabalhar… Meu Deus, pensei que o sorriso não se ia desfazer nunca! Ficaram-me a doer os meus cantos de boca… ainda me doem! Que exagero, o sorriso parecia colado! Não há direito de obrigar a sorrir tanto sem parar! Exijo justiça também!”
“- Está bem, já os ouvi a todos. Agora vamos fazer um intervalo para eu estudar o caso e deliberar em conformidade. Sr. Coração, tem alguma coisa a dizer? Aproveite que é uma boa altura! Antes de eu me retirar…”

“-Quero então aproveitar para dizer outra vez que estou triste. Eu não queria nada disto… eu sempre mantive a minha porta muito bem fechada. Há muito que não deixava entrar ninguém. Mas eu estava muito estragado, todo remendado e cheio de cicatrizes. Com tanta obra não podia deixar de, de vez em quando despejar entulho pela porta fora… abria os ferrolhos, girava as sete chaves e entreabria-a por uns instantes apenas. O problema foi uma certa noite em que ouvi falar de um país onde tudo é verde, imenso e bonito… onde existem Castelos e Lagos e onde se fala de uma funny way… ouvi perguntar também qualquer coisa sobre viajar… Maldita curiosidade que me envolveu nessa altura e que me fez esquecer de voltar a fechar a porta… Eu não fiz por mal, não gosto de magoar nada nem ninguém e não gosto que não acreditem em mim… Estou triste, Sr. Juiz!”
E passaram-se uns momentos em que todos aproveitaram para pensarem um bocadinho…
Não teria sido tudo um exagero apenas? Como foi tudo acontecer? Porque é que teve de acontecer?
Voltou o Juiz para a sala do julgamento. Tinha a cara fechada, ainda fungava pelo nariz mas o lenço já era um novo, felizmente!
“-Após muito pensar, cheguei à conclusão que o Coração aqui presente foi culpadíssimo de tudo o que o acusam. Distraiu-se e não pesou as consequências dos seus actos imprudentes.
No entanto, não lhe reconheço nenhuma má-vontade. O pior castigo vai ser o dele, pois vai ter que lidar com a sua perda. Vai ter que saber esperar até não se sentir angustiado. Vai ter que decidir se fecha a porta de vez ou não. Quanto aos Queixosos, vão ter que ter paciência e esperar por tempos melhores. O Cérebro vai ter que se esforçar e pensar ainda mais em novas formas para distrair o Coração, o Útero vai recompor-se e apoiar também o Coração, nada de sustos! O Cabelo vai ter que deixar de ser vaidoso, só lhe digo isto!
Os olhos que continuem a ver maravilhas para animarem o Coração.
Quanto à boca, descansa durante uns tempos desses estiramentos pois não vai haver grande vontade do Coração sorrir durante uns tempos, mas que não se destreine!
E tu pobre Coração: remenda-te, cura-te, conserta-te e aprende a lição:
“Não se ama quem não se vê, não se vê quem não se sente e não se pode esperar muito tempo quando não se tem tempo para esperar…”

One thought on “O julgamento do Coração Culpado

  1. Ah, o cuore que pulsa e pulsa e pulsa para que tudo fique no seu devido lugar. O músculo involuntário, incansável que bate 80 ou 90 vezes por minuto. Nem vou somar quantas vezes ele nos impulsiona. São muitas e muitas. As vezes, falha, dispara. Às vezes, se cala e enfarta. Talvez por cansaço, descaso. É um músculo e sobre ele recai todos as dores.
    Ah, cuore.

    belo texto

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