O Passarinho Milagreiro

-André, temos que ir a casa da tua Mãe , anda lá…. acorda! A Violeta e o Hércules devem estar cheios de fome! A-C-O-R-D-A dorminhoco.

E o André resmungava coisas ininteligíveis e tentava segurar o cobertor por cima dos ombros, numa vã tentativa de conseguir dormir mais uns minutinhos. Mas lá acabou por se render, sabia que a Rita, sua namorada há mais de três anos não o ía deixar em paz até que se levantasse.
-Que chatinha que és! Quero lá saber da Violeta! Ainda por cima ela está gorda e devia fazer dieta…
-Háháhá, tu és muito engraçado: ela não está gorda, ela vai ter gatinhos!! Mais uma razão para comer bem e a horas. Além disso, tu prometeste à tua Mãe que ias lá todos os dias de manhã e já são duas da tarde! És cá um preguiçoso.. e um menino mimalho, também!

E lá foram eles, a casa da Mãe do André tratar da bicharada. Havia a Violeta a gata, o Hércules o cão e um passarinho bonito que a Mãe dizia que cantava muito bem, numa Gaiola instalada na cozinha, perto da janela.
Mal entraram na cozinha, com a Violeta a miar-lhes nos calcanhares, a Rita dá um berro terrífico, prolongado, estridente e que faz o André dar um salto e ficar em posição de defesa: pernas afastadas para melhor apoio, punhos cerrados e levantados à altura da cara, prontíssimo para enfrentar qualquer ladrão ou inimigo!
-O que foi?? Onde está? ?Diz-me, o que viste, Rita?dizia o André, enquanto percorria vertiginosamente todo o aposento com os seus olhos vigilantes em estado máximo de alerta…
E eis que a Rita, como que muda e bloqueada, levanta um braço e aponta para uma aranha pendurada no candeeiro da cozinha. Era grande, a aranha. O problema era que até o André, apesar de jurar a pés juntos que não, tinha terror das aranhas… como se iria ele desenvencilhar desta fera de oito patas, provavelmente peludas?
-Rita, tem calma… é só uma aranhita… Olha, eu até a podia ir apanhar mas, para ficares mais descansada, vou pulveriza-la com insecticida e assim ficas com a certeza que ela morre, OK?
E o André foi à despensa da Mãe, agarrou a lata tamanho XL do Insecticida e despejou, literalmente, todo o seu conteúdo na cozinha. Fecharam a porta, certificaram-se que a gata e o cão estavam com eles e foram para a sala esperar que o produto fizesse o efeito prometido no invólucro.
-“Para acabar com todos os tipos de insectos, rastejantes e voadores, aranhas, ratos, cobras, tigres e leões!” Leu André no rótulo…
-Só não mata crocodilos… não sei porquê!
Rita, ainda em estado de choque, nem se apercebeu do disparate que ele dizia.
O silêncio instalou-se entre eles. A Rita pensava na aranha gigantesca, e o André pensava como iria pegar nela, sem dar parte de fraco à frente da namorada. Ía ter que a deitar fora, mas como? O estômago revolvia-se só de pensar em olhar de novo para ela!
– Oh NÃO!! Ai meu Deus!!! O Passarinho!! Esquecemo-nos do passarinho da tua Mãe na cozinha!! Que horror, se calhar vai morrer… André! Vai lá depressa e pega na gaiola, pode ser que ainda vá a tempo… Mas já nada havia a fazer… o pobre do passarinho jazia no fundo da sua gaiola, com as patitas hirtas para cima…
– E agora o que fazemos, a minha Mãe era apaixonada por este passarinho! Falava com ele todo o dia, até dizia que ele lhe respondia… Chegava até a pedir-lhe um sinal para alguma coisa em que ela estivesse indecisa. Escolheu o carro novo porque o passarinho piava sempre duas vezes quando ouvia o nome da marca… Eu queria o Audi e ela comprou o Volvo, porque o passarinho lhe disse… Não tenho coragem de lhe dizer que o matamos com insecticida!
– André, temos que ter calma. Para já não se diz nada à tua Mãe, deixa-a gozar as férias já há tanto tempo desejadas, não lhe vamos estragar o último dia. Entretanto, vamos a uma loja de animais e compramos um pássaro igual, vais ver que ela não vai notar a diferença…
– Rita, mas hoje já é Sábado, vai ser difícil encontrar lojas abertas… Olha vou tirar uma fotografia ao morto para sabermos a marca dele.
– A espécie, André… a espécie! corrige a Rita..
Os dois calcorrearam todas as lojas de pássaros que conseguiram encontrar, mostravam a fotografia do defunto, mas nada: ninguém tinha desses pássaros! E o tempo a correr… Mas nada vezes nada, ninguém tinha dessa espécie de pássaros…
-“Talvez o Sr. Tomé dos Passarinhos tivesse…”
-“E onde podemos encontrar esse Sr. Tomé dos Passarinhos, por favor?”
-“Ele tem uma loja no Mercado do Bolhão. Vão encontra-lo lá de certeza!”
E lá foram eles a correr para o Bolhão, como quem corre atrás de uma última esperança!
-Despacha-te André! São quase seis horas, não podemos chegar tarde!
– Rita, já estou cansado disto! Ainda nem sequer almoçamos… Estou cheio de fome..
– André, não sejas egoísta: era o pássaro que a tua Mãe adorava, era a ele que ela se confessava, era com quem ela se aconselhava! E era ele que a maravilhava com o seu trinado!
– Pronto, está bem! Para dizer a verdade eu nunca reparei muito nele, nem me lembro de o ouvir a cantar… Mas ela adorava realmente o estupor do pássaro!
Mas oh desilusão: a loja do Sr. Tomé dos Passarinhos estava mesmo fechada, o Sr. Tomé tinha sido operado aos Bicos de Papagaio que sempre foram o tormento dele. Estava em casa a recuperar e a loja só devia abrir daqui a duas semanas – informou, solicito, um vizinho da loja do Sr. Tomé dos Passarinhos., o Sr. Manel das Tripas.
-Mas nós temos muita urgência, disseram-nos que ele tem esta espécie de pássaros – e lá mostraram a fotografia do finado ao vizinho.
– Ah pois tem, e cantam muito bem! O Sr. Tomé até costuma dizer que eles conversam com ele. Ele tem muitos desses lá na casa dele, é ele que os cria..
– Por favor, Sr. Manel, diga-nos onde é que ele mora, é quase um caso de vida ou de morte! Nós precisamos de arranjar um pássaro desses urgentemente, hoje!
– Bem, eu só sei que ele mora lá para os lados de Rio Tinto. Nunca lá fui, mas aquilo não deve ser difícil de encontrar… a casa dele fica ao pé da Escola, é isso! Ele costuma dizer que vê o neto dele através da rede do jardim!
– E lá foram os dois lá para os lados de Rio Tinto, em busca do Sr. Tomé dos Passarinhos.
– E quantas escolas encontraram em Rio Tinto? Para cima de 10! Escolas primárias, Escolas privadas, Escolas Preparatórias, Escolas Industriais e Escolas Profissionais. Não faltavam escolas em Rio Tinto, caramba! E nenhuma delas tinha a casa de um Sr. Tomé dos Passarinhos como vizinha…
– E agora? O que podemos fazer mais? Desisto, Rita! Vou telefonar à minha Mãe e conto-lhe tudo… estou cansado, com fome e farto desta procura toda.
– André, tem calma… a tua Mãe pediu-nos, pela primeira vez, que tomássemos conta dos animais dela. Eu não quero que ela tenha esse desgosto de perder o seu passarinho e eu ficar com esse peso na consciência para a vida inteira! Mas o que é aquilo? Olha aquele miúdo que ali vai, tem uma gaiola na mão. E os pássaros que lá estão dentro são iguais ao nosso! Pára, pára o carro que eu vou falar com ele!
E a Rita pergunta à criança onde arranjou ele aqueles passarinhos que levava na sua bonita gaiola.
-Foi um Senhor que mos deu, menina! Ele é criador de pássaros e já há tempos que tem andado doente. Diz que não consegue tratar dos pássaros todos, por isso deu-me este casal.
– E por acaso não se chama o Sr. Tomé dos Passarinhos?
– Sim, é esse o nome dele. Ele mora ali ao fundo, mesmo ao lado da Escola de Condução que pertence ao neto dele, o mais velho…
E lá descobriram o Sr. Tomé dos Passarinhos, finalmente! Falaram com ele, mostraram-lhe a fotografia do cadáver e prontamente lhes foi oferecido um exemplar exactamente igual, menos naquela coisa de estar morto… porque lá vivaço era ele!
Aliviados, correram de volta a casa da Mãe do André, deitaram fora o outro que tinha esticado o pernil, sem um pingo de sensibilidade ou dignidade nenhuma pois foi atirado para o contentor do lixo sem mais nem menos e enfiaram o pássaro novo na gaiola antiga. E mesmo a tempo!! Foi quando se ouviu a porta a abrir e a Mãe do André, toda sorridente, entrou casa.
-Olá! Por aqui a esta hora? Mas que surpresa! Está tudo bem? Como estão os meus animais, bem tratados como me prometeram?
-Oh Mãe, que coisa! Acha que não íamos dar conta do recado? Por amor de Deus, que falta de confiança tem em nós… Conte-nos mas é como foram as suas mini-férias!
– Logo vos conto tudo, agora vou ver os meus amigos… Violeta! Bichaninha… bichaninha… Hércules, meu amigo Hércules…
E a Mãe entrou na cozinha.
André e Rita quase suspenderam o fôlego: iria notar alguma diferença?

E o pior aconteceu, da cozinha veio um berro aflitivo e um baque surdo da Senhora a cair no chão, desmaiada!
-Oh meu Deus!Reconheceu que nós a enganamos! Como ela devia gostar do pássaro- diz a Rita enquanto corriam os dois a socorrer a pobre Senhora.
Deram-lhe palmadinhas na cara, nas mãos… sentaram-na numa cadeira e borrifaram-lhe a cara com água!
A Senhora ainda trémula, branca como a cal, consegue gaguejar:
– Milagre, Mi-la-gre!
E, ainda descomposta, saia à banda e cabelo inclinado – para o lado em que ficou pressionado contra o chão na sua queda, tamanha era a quantidade de laca que tinha – baton vermelho todo esborratado e fora dos beiços, levanta-se num repente da cadeira e vai admirar o passarinho na gaiola:
-Milagre, Milagre! O meu pássaro era de plástico, coberto de penas e agora ressuscitou!!
– De… Plástico … Mãe?
Mas então não foi ele que escolheu a marca do carro novo???
– Isso fui eu que inventei para te enganar! O vendedor da Volvo fez-me um desconto de 5000 euros! Milagre! Milagre na minha casa! Vou já contar às minhas vizinhas….

Não faço ideia como acabou esta história…

Talvez o pássaro tenha sido feliz ou talvez a Violeta o tenha comido… mas antes de o comer, a Violeta deu à luz sete gatinhos! Provavelmente teve que dividir com eles a provável refeição, ou não!

Não sei também se o André conseguiu finalmente o Audi que queria, ou se a Rita ficou para sempre amiga da Sogra, pouco provável..

Do Hércules não reza a história – nesta história pelo menos, porque na outra…. Oh lá lá!

Do que eu tenho a certeza é que a Mãe do André ficou famosa no seu Bairro, passando a ser conhecida pela Milagreira dos Passarinhos!
Não havia vizinha que não a consultasse antes de qualquer decisão importante… Até o Presidente da Junta do Barbelo a foi consultar: faria bem candidatar-se outra vez à Junta? O que dizia o pássaro? Iria conseguir enfrentar o mau-olhado que lhe deitavam? “Que sim, que devia” – disse o pássaro à Milagreira. E o cargo de Presidente da Junta do Barbelo voltou a ser dele! Infalível, o Pássaro Milagreiro!

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