A Bolacha Maria

Tenho uma amiga nova. Chama-se Mia e tem três anos. Conhecia-a há já uma dúzia de dias. Ela e a Mãe entram sempre no mesmo Metro e na mesma carruagem do que eu. Uns dias viajamos de pé, lado-a-lado, outros sentadas e nos dias em que tudo está cheio e a abarrotar ficamos quase em cima umas das outras, literalmente…
Primeiro veio o reconhecimento, logo ao segundo dia, na forma de uns sorrisos trocados. A seguir foram uns “Olás” e uns “Adeus, até amanhã!” ou “Até amanhã e porta-te bem, Mia” já com mais confiança instalada entre nós.
Hoje ultrapassamos significativamente o nível básico: houve um presente acompanhado de um desabafo. Senti-me honrada pela confiança que a Mia me concedeu.
Mal nos vimos hoje, a Mia estendeu-me uma bolacha Maria e disse:
“-Toma, é para ti. Come!”
Levantei os olhos para a Mãe dela, como que a pedir alguma orientação, e a explicação dela veio rápida:
“-A Mia quando tirou bolachas para ela há pouco, ainda em casa, disse que ía guardar uma para a Senhora do Metro”…
E então eu comi a bolacha. Tentei acompanhar-lhe o ritmo, dentadinha a dentadinha como ela fazia à que tinha na mão. E consegui, a bolacha durou-me de Francos até à Trindade.
Com esta nova cumplicidade instalada entre nós, a Mia diz-me:
“-O Goncalo empurrou-me!”
De novo o meu olhar procurou o da Mãe dela que de imediato esclareceu:
“-O Gonçalo é o melhor amigo dela na escola.”
“-Ai sim, ele empurrou-te? E tu o que fizeste depois?” Perguntei eu.
“- Di-lhe um grande puntapé, puxei-lhe os cabelos e depois chorei muito!”
“- Então Mia, os amigos não fazem coisas dessas uns aos outros… ”
“- Poquê não fazem?”
“- Porque os amigos são bons para os seus amigos, ajudam-nos, brincam com eles e não gostam de os fazer chorar, gostam muito de os ver alegres!”
” – Mas eu sou muito boa para o Gonçalo, eu brinco sempre com ele! E quando a Sofia o empurrou eu fui atrás dela e empurrei-a com muita força!””
“- Se vocês os dois são tão amigos, então não podem andar por aí a empurrarem-se nem a baterem-se, Mia!”
“- Podemos, podemos! Eu bato-lhe e ele também me bate, ele ferra-me e eu também lhe ferro, com força… e depois de chorarmos vamos os dois brincar!!” Declarou a Mia, com um olhar vitorioso como quem explica a ordem das coisas, o lógico que não pode ser uma amizade, com regras muito próprias.
Chegada a paragem onde a minha nova amiga e a Mãe saem, apressamos as nossas despedidas para que tudo coubesse: “Adeus, Até amanhã, Xau! Porta-te bem, Obrigada pela bolacha que era muito boa! Beijinhos (dos falados e dos gesticulados com uma mão a agarrar um beijo da boca rechonchuda da Mia e a lançá-lo na minha direcção).
Amanhã o que me reservará a Mia para contar? Vou ficar em expectativa…

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