O meu amigo Ernesto

Aeroporto de Buenos Aires. Fila interminável para passarmos todos pelo Detector de Metais e pela Alfândega. Tempo para tudo, tudo servia para aligeirar o nervosismo que o nosso corpo entranha, depois de 12 longas horas de voo. Li todos os cartazes que havia para ler no Aeroporto, entre eles um que avisava para os turistas se certificarem para apanhar apenas os Táxis oficiais, os que tivessem um Dístico Oficial.
Porta fora, mal tinha sido despachada e um homem dos seus 60 e muitos anos me pergunta:
– “Táxi Señora?”
– “Si, pero un Táxi Oficial, usted és Taxista Oficialle?”
-“Táxi Oficial?? Pero yo soy un Táxi Oficiali! Siempre Oficiale!!!
-“Donde está el comprovativo?”
-“Comprovativo, Señora??? Qual comprovativo??? Para que el comprovativo? Yo soy un Taxista de 30 anos de carrera!
Entretanto, enquanto acontecia esta conversa, o Ernesto ía pondo as minhas malas dentro do seu táxi…
A discussão foi aumentando, o Ernesto não me mostrava o raio do comprovativo e eu só ia se visse o tal selo! Zangados os dois, vieram as malas para fora do carro e comecei a procurar outro Táxi. Nem 1 minuto decorrido, oiço a voz do Ernesto a perguntar, atrás de mim:
-“Portuguesa?”
-“Si, Portuguesa!”
-“Claro! Cierto! Solamente los Portugeses son asi desconfiados!”
-“Yo no soy desconfiada, soy cuidadosa, Señor!”
-“Venga, no tienga miedo, mi nombre és Ernesto y soy honesto!
Tentei disfarçar o mais possível a minha vontade de rir, mas aquela frase, dita por ele foi de morrer a rir! “Ernesto Honesto!” Ha ha ha… Baixei as minhas guardas, lá foram as malas outra vez para dentro do Táxi e lá fui eu para “Tigre” onde vive o meu irmão Pedro.
Já a caminho, depois das pazes feitas e do preço combinado, o Ernesto atabalhoadamente começa a procurar pelo tablier do carro qualquer coisa, remexia, levantava montes de papéis e outros objectos não identificados, mas foi de baixo do seu lugar que finalmente sacou de um CD. Enfiou-o pela ranhura do leitor e com um sorriso de orelha a orelha diz-me:
– Señora, esta és la musica que mi gusta más!
E a altos berros começo a ouvir os primeiros acordes da “Caninha verde”. O pior foi quando o Ernesto quis provar-me que conhecia a música de cor e salteado. Nem imaginam o som que faz um Argentino a acompanhar (a letra sabia-a toda) uma música de Folclore Português… Delicioso. Comecei a pensar que a hora e meia de viagem que tinha ainda pela frente iria ser, no mínimo, interessante.
Contou-me então que os seus Avós eram Portugueses e que já tinha ido uma vez a Portugal. Visivelmente comovido, declara que a cidade mais bonita do Mundo para ele é Viana do Castelo e Bimarães!! O Avô era de Viana e a família da Avó de Bimarães!
– Sr. Ernesto, no será antes Guimarães?
– Si, si, no importa, Bimarães ou Chimarães, para mi seria siempre la mejor!
Passados uns 15 ou 20 minutos, o Ernesto informa-me que não sabe onde fica o Bairro onde o Pedro vive.
– Pero usted me dice que si, que conocia el Barrio de Santa Bárbara del Tigre no Aeroporto!
-Señora, que si, no hay problema, el Tigre lo sé, pero Santa Barbara llamaré a un amigo para ensinarlo!
Agarra no telemóvel e uma vez que me achava desconfiada, a conversa que teve com o tal amigo foi toda em Alta Voz: Quando era ele falar, encostava a boca ao microfone do telemóvel, quando era o amigo a responder, levantava o telemóvel e virava-o para mim. E isto sempre com a música de Folclore como fundo: não percebi patavina! Mas fingi que sim e lá seguimos por onde o amigo tinha dito. Quilómetros depois, de Folclore, de conversa, de opiniões sobre a crise Mundial, sobre a odiada “Presidenta”, sobre a falta de valores no Mundo (Caramba, o homem falava sobre tudo!!) lá conseguimos encontrar a entrada do Bairro de Santa Bárbara, mas um obstáculo inesperado surgiu-nos: a Segurança privada do Bairro não podia deixar entrar ninguém sem autorização do proprietário! Como eu ia fazer uma surpresa ao meu irmão e à minha cunhada, isso iria estragar tudo! Só o Sebastião sabia que eu vinha. Como fazer agora? Era o mesmo que morrer na praia… E o Ernesto começa a irritar-se com o Segurança:
– Porque no? La Señora no és ninguna assasina!!? Y io tan poco! És una sorpresa, su hermano no sabe de nada, hace 20 años qui no se veem!!! (20 anos? A lata dele até me assustou, principalmente quando acrescenta que só o meu sobrinho sabia de tudo…)
Mas a verdade é que essa dos 20 anos acabou por comover o Segurança que, abrindo uma excepção propôs telefonar para casa do Pedro e perguntar pelo Sebastião. Assim o disse e assim o fez. Em menos de um minuto teve uma conversa telefónica, com o Sebastião e lá nos deixou entrar. Soube mais tarde que o Sebas, já a prever uma situação destas, esteve sempre atento ao telefone.
Já com um Mapa do Bairro (que é descomunalmente grande) nas mãos do Ernesto, andamos às voltas para a frente e para trás e lá acabamos por encontrar a casa! Paguei-lhe o preço anteriormente acordado por nós, tirou-me as malas do carro mas não aceitou despedir-se!
– Señora! Tiengo que certificar-me se su hermano está en su casa!
Lá fomos os dois para a porta e o Ernesto, todo entusiasmado toca à campaínha. Atende o Pedro:
– Si?
E o Ernesto começa a esbracejar loucamente para mim sussurrando:
– Que digo, Señora? Que nombre digo? No puede ser lo verdadero para la sorpresa.
Diga-lhe que é a Margarida, inventei eu!
– És Margarida!
Lá vem o Pedro desconfiadíssimo à porta e fez a cara mais espantada que eu lhe conheci alguma vez, ele e a minha cunhada. Juntou-se-nos o Sebastião e parecíamos os cinco todos da mesma família. O Ernesto era o que de nós mais vibrava e começou a contar como conseguimos entrar, e que eu era muito desconfiada no princípio, e que também gostava muito de Folclore e de Bimarães. Tudo ao mesmo tempo e tudo a baralhar o meu irmão Pedro que até nem falava!!
Quando caiu em si, resolveu despedir-se, estende a mão ao Pedro e ao Sebastião e a mim pede-me “Permisso” para me dar um beijo na cara e dizer-me que teve muito prazer em ajudar-me a fazer esta surpresa!

E foi esta. a história do meu amigo Ernesto…

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