O Pirata

Passou-se o que eu vou contar, numa Terça-feira. Tenho a certeza disso porque era o meu dia de folga, o meu dia de descanso.
Logo pela manhã, bem cedo, comecei a ouvir alguém a assobiar. Era um assobio diferente dos habituais, intercalado com um berro ininteligível que me soava a qualquer coisa que terminava em  “ata”.  Primeiro pensei que fosse alguém na brincadeira, mas à medida que o tempo ía passando, percebi que devia ser algum maluquinho que subia a rua até ao final e a voltava a descer sempre a assobiar e a berrar. Os berros e assobios, por isso mesmo, afastavam-se para logo se aproximarem, sem pausas! Comecei a ficar cada vez mais irritada. Vim várias vezes à janela para tentar perceber quem o fazia, mas só no final da manhã consegui vislumbrar quem o fazia. Era um homem que mancava e com muito mau aspecto.
Quando saí de casa, para ir ao Supermercado, fi-lo a pensar em abordá-lo para lhe pedir que parasse com a assobiadeira e berraria, pois estava a ser incómodo.
Por casualidade, mal saio da porta do meu prédio, dou de caras com ele e pude ver-lhe a expressão que não tinha conseguido ver do andar de cima pela janela: e fiquei impressionada… o homem tinha um olhar desvairado, assustado mesmo. O assobio dele era aflitivo e a palavra que ele berrava a seguir era “Pirata”!
Deslocava-se tão depressa quanto a sua perna defeituosa lho permitia. E de imediato percebi que ele não estava sozinho, pois havia pessoas que se movimentavam à volta dele e o tentavam ajudar. Mas ele parecia que não via nem ouvia ninguém, continuava desesperadamente a assobiar e a chamar “Pirata!”
Alguém me explicou que ele era um sem-abrigo e o “Pirata”, um cão,  era o companheiro inseparável dele e tinha desaparecido.
E lá continuava ele na sua correria toda desnivelada, pela rua acima e pela rua abaixo, ao mesmo tempo que assobiava e gritava pelo “Pirata”.
Dava pena ver a aflição dele, fiquei com vontade de procurar o cão dele, mesmo sem fazer a mais pequena ideia de como era parecido o “Pirata”
Mas… felicidade: o “Pirata” apareceu, bem seguro pela coleira, por alguém que o encontrou, já quase lá para as Fontaínhas!
E o até aí aflito dono do “Pirata” transformou-se num homem feliz e choramingão, pois não parou de chorar, por um bom pedaço de tempo, enquanto abraçava o seu “Pirata” e se deixava lamber por ele, que gania ao mesmo tempo, de tão contente que estava também pelo reencontro.
Esta cena pregou-me ao chão, comoveu-me. Senti remorsos de ter pensado em ralhar com o homem. Só conseguia pensar que não prestei a devida atenção à aflição de alguém. Não deixei que a minha intuição tentasse perceber que alguma coisa de mal se passava. E a verdade é que desde o início me apercebi que aquilo que estava a ouvir não era nem normal nem habitual.
Depois desse dia, fiquei a tomar conta da cadela do meu irmão Pedro por uma semana. Nos passeios que fazia com ela várias vezes por dia, particularmente no da manhã, encontrava sempre esse tal homem e o “Pirata”. Dormem ou no jardim ou na paragem de autocarros do Largo dos Lóios. Como é natural, os dois, os de quatro patas, foram ficando amigos nesses encontros matinais. Fui também falando, de vez em quando, pois o homem é de poucas palavras, com o dono. Só fala do seu amigo “Pirata”, de como ele é fiel, como ele é seu amigo, do que ele mais gosta de comer e de como se sente seguro a dormir com o “Pirata” a zelar pela sua segurança.

Tirei-lhe uma fotografia, sem ele perceber, pois estava a dormir. Gostava que reparassem no excelente espírito de humor que este homem ainda tem… basta estarem atentos a alguns pormenores…

Foi, para mim, uma boa lição!

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