O meu Caminho para Santiago e para tudo o que Deus queira para mim, depois de o terminar.

Porque quero fazer o Caminho de Santiago, a pé?
Não sei ao certo. Uns dias penso que será para me desafiar a mim mesma, ficar a saber do que sou capaz, outros para experimentar e desfrutar da simplicidade e do despojamento que quero impôr a mim própria, outros penso que será para lavar a minha alma e enterrar fantasmas que teimam em assombrar-me – largando-os e abandonando-os na borda do caminho na forma de pedras que se vão amontoando e se quedarão inertes, frias, mortas e insensíveis lá para trás de mim e para sempre, numa espécie de auto-reciclagem. Noutros ainda, penso que poderá ser para assinalar o já próximo fim de muitos problemas que fizeram parte da minha vida durante estes últimos três anos, de uma forma sufocante e castradora, e ainda há dias em que sinto ser compulsiva e inata em mim esta vontade que tenho em me sentir em plena comunhão com a natureza, livre de compromissos mundanos, urbanos e aborrecidos, para aproveitar com toda a naturalidade o estar bem comigo própria no meio do que me é tão grato e caro: a simplicidade de mim e da natureza a que pertenço.
Se calhar, será um bocadinho de tudo isto misturado e ainda também a preparação para outro caminho maior e mais difícil.
Ganhei o hábito de pensar no meu caminho como uma coisa boa que me irá acontecer. Algo que me deixa ansiosa e em expectativa até que se materialize. Uma aventura. Uma coisa que terei de agradecer – mais uma. Uma coisa que quase me chega em forma de presente, como tantas outras coisas na minha vida. Ultimamente, sempre que passo por algum momento mais cansativo ou de muita pressão num dos meus dois trabalhos – que me ocupam quatorze horas por dia – consigo serenar a imaginar-me já a caminho, com a mochila às costas e com quase três centenas de quilómetros para calcorrear pela frente. Livre, com tempo e com uma vontade imensa de tudo apreender, de me deixar levar pelo momento, apenas. Viver esse percurso de uma forma simples, sem qualquer luxo, conforto ou regalias. Dispensar o que me é ou foi mau e afagar mais e melhor o que foi e o que será bom para mim, pedindo a Deus que me conceda a suficiente sabedoria para distinguir bem os dois. Pensar nisso fabrica-me um sorriso na cara, daqueles sorrisos permanentes e, pelos vistos, visíveis para quem me rodeia…
Decidi que vou deixar de lado os meus hábitos e só levar comigo o absolutamente indispensável. Três mudas de roupa. Um único sabonete para cara, corpo, cabelo e roupa. Pasta e escova de dentes. Escova de cabelo. Saco cama. Um casaco para chuva ou vento e outro para o frio. O meu terço, o meu telemóvel e o carregador. E claro, a minha máquina fotográfica que me é indispensável.
Não me esqueci ainda que usei menos de um terço de tudo o que levei às costas quando fui a Fátima, também a pé.
Se é para simplificar, simplificarei mesmo.
Tenho feito a minha preparação física como a que fiz para ir a Fátima: andar diariamente o que o pouco tempo livre me permite. Saio de casa às sete ou sete e meia para fazer pelo menos dez quilómetros. Uns dias vou mesmo até aos doze, se na noite anterior não tiver saído muito tarde da Voltaria. Outros há que, para fazer os dez quilómetros diários, tenho que os completar na minha hora de almoço. Penso que irá ser suficiente, este treino.
Gosto de caminhar pelo Porto fora, a acompanhar o rio Douro pelas suas duas margens, tanto em direcção a montante como a jusante… Fantásticos momentos de céu, água, vento, nuvens e pássaros que vou observando, estes últimos muito particularmente na Reserva do Estuário do Rio Douro, na sua margem esquerda. E pessoas anónimas com quem me vou cruzando ao longo das minhas caminhadas? Já quase que nos cumprimentamos com um subtil e muito ligeiro acenar de cabeça, já quase, quase o sorriso se quer soltar: corredores, ciclistas, passeantes de cães e caminhantes como eu. Quais serão os destinos e objectivos deles todos?

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