Rumo a Santiago. Primeiro dia.

Ready, steady and go!

Foi hoje de manhã a minha partida. Já passava das onze, precisava de dormir bem. Mas acabei por fazer o que tinha planeado. Por meras razões sentimentais, percorri Cedofeita, passando pela casa dos meus Bisavós, atravessei a Rua Álvares Cabral, a rua onde nasci e ainda vi a casa onde morei por mais de 45 anos, na Rua Oliveira Monteiro. Engraçado como nunca tinha reparado que para além de viver actualmente numa rua que é caminho de Santiago, também vivi a maior parte da minha vida noutra rua que o era também. Mas na verdade, para mim, todas as ruas são Caminhos de Santiago. Não me escravizo a tentar percorrer o que alguém, séculos depois dos primeiros peregrinos a Santiago de Compostela terem feito as primeiras peregrinações, decidiu qual era o Caminho de Santiago. Segui por Monte dos Burgos e fiquei triste ao ver a casa da Gabriela, minha colega de carteira no Ciclo, completamente em ruínas. Impressionante como quando passamos a pé pelas coisas, os nossos olhos tudo vêm… o que será feito dela? Tão pequenina e franzina que ela era, tímida, séria e tantas vezes chorosa… como a Matemática conseguia ser cruel para a Gabriela! Vivia com os Avós, os pais tinham morrido. Nos dias ventosos e chuvosos como o de hoje, a Gabriela vinha para a Escola com um guarda-chuva tamanho XL, todo preto. Sempre que eu sentia uma rajada de vento mais forte, ficava com medo que ela levantasse voo e desaparecesse… pelos ares, estilo Mary Poppins… nunca mais a vi, a Gabriela. Por onde andarás, minha antiga colega de carteira?
Passei pela casa do Fernando Granja, um amigo muito querido prematuramente desaparecido. E continuei a avançar em direcção a Moreira. O tempo sempre a piorar. A chuva caia continuamente e cada vez mais forte. Mas acho que o pior ainda era o vento, que soprava de sul. Deixei para trás Moreira e só parei já à entrada de Mindelo. Fiz 24 quilómetros. Esperei pelo meu “Estalajadeiro” preferido que me veio buscar para fazer o “check-in” no melhor Albergue de todos. Excelente jantar, melhor companhia e para a noite uma cama de raínha super-confortável! Obrigada, Naná e Xaneca!
Passou a primeira etapa. Embora o tempo tivesse terrível, cheguei ao fim fisicamente muito bem. Cansada, molhada, mas muito bem. Fiquei contente também por a parte mais urbana e descaracterizada ter ficado para trás. Amanhã já me aproximarei do mar.

Termino por hoje o meu relato com uma oração que eu descobri, já não me lembro onde e nunca soube quem foi o autor. Alterei algumas pequenas frases e acho que me serve como uma luva, para esta minha peregrinação a Santiago:
“Senhor Jesus Cristo,
prostro-me a teus pés
e rendo-me ao Teu imenso amor.
Sei que comigo estás e sempre guiarás os meus passos.
Apesar das minhas feridas, que ainda sangram em minha alma,
eu confio em Tua infinita misericórdia,
que derrama o amor
em minha alma tão machucada e cansada.
Sim, Jesus, contigo sou vitoriosa,
e vou superar, a cada dia,
as dificuldades neste meu caminho, pois eu confio
que estás comigo a cada passo que eu der, a cada dificuldade que encontrar e me ajudarás a realizar
os meus propósitos.
A Teu lado, Senhor,
vou atravessar desertos, chuvas e tempestades,
vales que me vão parecer intransponíveis mas que deixarei para trás com a Tua ajuda.
Conduz-me, Jesus,
às planícies da paz,
onde irei colher as mais belas flores da vitória.”

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