Rumo a Santiago. Segundo dia.

 

Contra todas as previsões, acabou por ser um dia glorioso!
Retomei a minha caminhada no sítio onde tinha parado ontem. A recta do Mindelo. Lembro-me de o meu Pai nos contar que era nessa mesma recta que, durante a noite, ele e alguns amigos iam experimentar os carros para verem se conseguiam atingir os 100 Km/hora! Nessa altura era uma velocidade absolutamente vertiginosa…
Enquanto avançava para Vila do Conde, fui encontrando muitos destroços do temporal de ontem: ramos de árvores caídos, passeios cheios de areia ou terra e muito lixo que deve ter andado a voar ontem durante a noite.
Foi também hoje que comecei a dar largas aos meus dotes vocais. Quase não me cruzava com ninguém que viesse também a pé, por isso cantei e assobiei durante quase todo o caminho. Só me calei quando cheguei a Vila do Conde: e não foi com medo que me ouvissem, foi mesmo para abrir a boca de espanto: que beleza que estava o rio e o casario baixo da Vila bonita! A água era um espelho cheio de azul do céu e de casas e barcos de pernas para o ar. O céu pintalgado de algumas nuvens brancas como o algodão e Santa Clara e a Igreja Matriz a recortarem-se no contraste desse céu cristalino e tão, mas tão azul! Senti-me muito bem recebida por tamanha beleza.
Já na ponte, avistei a primeira peregrina. Fiquei contente e acelerei o passo para ver se a apanhava para conversarmos. Mas distraí-me com um bando de pássaros que voavam em círculos por cima do rio e que quis fotografar. Quando voltei a concentrar-me no caminho, nunca mais a vi. Foi pena…
Atravessei Vila do Conde e fui até à Praia da frente. O sol estava quentinho e o mar todo alvoraçado – deve ser aquela coisa do tal “evento costeiro” como agora eles dizem – bravo e perigoso, particularmente nas Caxinas. Deliciei-me com o cheirinho a maresia, apanhava mesmo salpicos de água do mar, quando vinha uma ou outra onda mais forte. Fiquei com a minha boca a saber a sal.
Tirei o casaco e andei em camisola de mangas curtas durante o resto do dia.
Atravessei a Póvoa, e apanhei em A-ver-o-mar o primeiro quilómetro do passadiço que só é interrompido depois da Apúlia por uns dois quilómetros mas que retoma logo a seguir até Fão.
Que bem que me soube caminhar assim tão perto do mar… Aos anos que eu não via Sargaço, mas nunca me esqueci do cheirinho dele…
A Aguçadora cheirava a cebola, tanta azáfama que ía dentro das estufas !
E já não se vêem carroças, agora é só tractores… que pena.
Tenho tido a sorte de me cruzar com pessoas extraordinariamente simpáticas, depois de ter deixado a Póvoa para trás , toda a gente com quem me cruzava me desejava ou Bom caminho ou as Boas tardes. Mas quase todos pensavam que eu era estrangeira. Fiquei admirada com isso, o meu ar tão pouco nórdico não os faria pensar isso, por isso tive que perceber o que se passava. O próximo que me desejou “Good afternoon”, explicou-me, a meu pedido, que era muito raro aparecer Portugueses a fazerem o caminho pela orla marítima. Praticamente só os estrangeiros o faziam. Suponho que quase todos os portugueses escolhem ir pelo caminho central…
Amanhã tenciono ficar a dormir em Viana, assim o espero.
Continuo sem nenhum problema nos pés, nem uma bolha sequer! Para além de algum cansaço, não tenho sequer dores nas pernas. Espero assim continuar!

Vou dormir, mas deixo-vos aqui uma música para, se tiverem paciência, ouvirem e ficarem a perceber como foi o meu dia:

É que “It was a beautiful day!”

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