Rumo a Santiago. Terceiro dia

 

Hoje madruguei. O barulho do mar, as rajadas de vento e a chuva eram ensurdecedores. Comecei por ficar preocupada, mas depois pensei que venho preparada para isso: não era mais que uma excelente oportunidade para experimentar a minha maravilhosa capa de chuva que me cobre da cabeça aos pés, com espaço (tipo uma bossa de camelo) para cobrir a mochila. Tudo controlado e logo nos primeiros quilómetros ficou provada a eficácia da capa protectora.
Segui ainda pela Apúlia fora, desta vez atravessando pinhais, estufas, campos de cebolas e pocilgas! Nunca tinha reparado que a Apúlia tinha pocilgas… que cheiro! O que valia era a entrada a seguir em matas de eucalipto, que refrescavam os meus pulmões e deixavam o ar a cheirar a rebuçados para a tosse e a Vic-vapor-hug (não faço ideia se é assim que se escreve, mas era assim que soava aos meus ouvidos de criança pequena…)
Sete quilómetros e triliões de litros de água depois, desemboquei na N13, mesmo ao lado daquele cemitério de Fão pejado de enormes Capelas, quase Igrejas… numa pura ostentação de riqueza, o mesmíssimo cemitério em que tivemos encostados, transidos de medo e muito caladinhos, eu e os meus quatro irmãos, enquanto o nosso Pai mudava um pneu que tinha furado. Seria Domingo, já noite, há uns cinquenta anos e voltávamos de Viana de casa dos meus Avós. Um cemitério impõe sempre respeitinho, não é verdade?
Já em Fão, fiz uma visita ao Miguel, na Casa dos Travesseiros (muito melhores que as Clarinhas de Fão) da Rita Fangueira. E tomei lá um delicioso pequeno-almoço enquanto descansava um pouco. Por essa altura, embora continuasse a chover, tudo abrandou, mesmo o vento. A chuva ficou mais leve, quase em modo “molha-grandes-tolos”.
Até consegui ver a cor preferida da minha pequena amiga Anna, uma miúda Inglesa de 4 anos que me disse:
– “A minha cor preferida é o Arco-íris!”
Hoje deixei a primeira pedra no meu caminho. Era uma pedra redonda, um seixo de praia bem polido pelo mar. Um dos lados era perfeito, liso e com um tom de quase mármore. O outro lado era irregular, com uma espécie de saliência feia que parecia um tumor maligno. Era muito feio, esse lado. E lá abandonei a pedra, inerte, feia e fria em cima de um muro cheio de musgo. Simbolicamente ficou para trás de mim, juntamente com aquilo que eu quis que ela representasse.
Ainda tenho que abandonar mais uma meia-dúzia de pedras, de deixá-las para trás de mim, para sempre. Uma delas, vai ficar em cima da maior porcaria que encontrar, de vaca, de cão ou de cavalo. Será o sítio perfeito para essa pedra e, se tiver sorte, ainda um outro animal a vai cobrir com mais porcaria, exactamente o que essa “pedra” merece…
Decidi que ia dormir a Viana. Com o atraso que levava desde o primeiro dia, estava a ficar complicado acertar com os Albergues. Acabei por fazer 37 quilómetros e consegui assim recuperar o meu atraso. Custaram-me um bocado os últimos dez quilómetros, particularmente depois de uma grande queda de granizo e chuva forte. A estrada ficou com lençóis de água e houve momentos que tive a sensação de estar a fazer Surf, mais precisamente a cair de uma prancha de Surf, pois apanhei com ondas enormes e “bastante molhadas”… Nos últimos quilómetros, tive de usar de psicologia para conseguir aguentar. Primeiro lembrei-me de uma coisa que alguém me disse: “Chegar ao fim é quase sempre uma questão de querer” e eu quis! Depois, usei a técnica básica e simples do meu irmão Miguel, que consiste em acompanhar os passos dizendo: “Esquerda, Direita! Esquerda, Direita! Esquerda, Direita… etc… etc..” Lembro-me de termos ficado sem gasolina, lá pelas 5 ou 6 da manhã, vindos de um Arraial onde dançamos toda a noite Viras, Chulas, Rosinha, Caninha Verde e sei lá mais o quê! – Acreditem em mim: não existe exercício mais violento e aeróbico do que isso – Tivemos que vir a pé, quase desde Lanheses até Orbacem , uns 13 quilómetros. E foi a técnica imposta pelo meu irmão que nos motivou e guiou a mim, à minha irmã Rita e ao nosso querido amigo Miguel Cabral, que bufava furioso com o meu irmão!
Continuei a encontrar pessoas muito simpáticas pelo caminho. Em cafés, mini-mercados ou padarias, espantosamente parecendo combinados entre eles, ofereciam-me quase sempre metade do que eu tentava comprar. E não adiantava insistir para pagar, só sorriam e desejavam-me muito bom caminho. Os portugueses são assim, generosos na sua maior parte. Tenho comprovado isso.
Percebi que já estava perto de Viana quando uma Senhora me disse, ao
passar por mim:
– “Boua biaje, menina!” O querido sotaque minhoto!

E tenho todo o prazer de vos nformar que os meus pés continuam sem uma única bolha ou qualquer outra mazela. Estou cansada, mas nada que uma boa noite de sono que se avizinha não consiga resolver. Vou dormir, orgulhosa dos meus 37 quilómetros de hoje!

Mas não termino sem antes vos deixar outra música que ilustra bem o meu dia de hoje, ora oiçam lá esta maravilha:

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