Rumo a Santiago. Quarto dia

 

Foi o dia mais difícil de todos.
Tinha,  na camarata onde fiquei a dormir, mais dois peregrinos, ambos Italianos. Um ressonou toda a noite, o outro nem se ouvia a respirar. O silencioso conversou comigo ainda ontem à noite, antes de dormirmos. Só falava Francês. Não sabia Inglês. Vinha a pé desde Sines, em direcção a Santiago. Contou-me algumas peripécias do seu caminho, sem se abrir demasiado. Pediu-me antecipadamente desculpa pelo barulho que iria fazer a preparar-se para sair – e fez – à quatro da manhã, porque gostava de caminhar de madrugada, ainda de noite. O outro, pelo contrário, só falava Inglês. Conversamos de manhã quando ele me acordou, pedindo desculpa, mas que queria despedir-se de mim. Uma pessoa muito interessante. Médico, mas que já há uns anos se dedicava quase exclusivamente a dar aulas de Medicina – especialidade de coração – se bem o percebi. Disse que tinha muitas turmas de Erasmus, de que gostava muito. Gosta de pensar nele próprio como um homem do mundo. A peregrinação dele já ía pelos dois meses, pois começou em Itália em direcção a Lourdes/Santiago/Fátima, para onde se dirigia agora. Estava em sentido contrário ao nosso. O mais extraordinário era que, para além da mochila, carregava nas mãos, desde Lourdes, um daqueles sacos reciclados/áveis que se vendem nos Hipermercados por 0,50€, com dois garrafões cheios de água benta de Lourdes! Respondeu ao meu espanto dizendo que por vezes ficava com as mãos inchadas obrigando-o a estar sempre a passar o dito saco de uma mão para a outra para evitar as dores. Disse-me também que ainda tinha espaço para um terceiro garrafão de água benta que traria de Fátima. De Lisboa apanharia um avião para Itália, terminando assim a licença sabática da Faculdade onde era Professor de quase três meses.
Estão a imaginar carregar assim dois garrafões por mais de mil quilómetros??!?
O nome dele não consegui percebe-lo. Era qualquer coisa entre Salvatore e Solero (?) perguntei por duas vezes e tive vergonha de perguntar uma terceira vez. Disse-me que o que ele mais tinha gostado tinha sido do Caminho Francês. Conheceu e fez muitos amigos das mais variadas nacionalidades. Não gostou dos Espanhóis. Fartou-se de cozinhar, partilhando tudo o que fazia com os outros peregrinos e vice-versa. A partir de Santiago, na Galiza e depois no Minho, disse que tudo era mais complicado. As pessoas não são tão abertas como em França o são (?) e que a partir das 5 da tarde toda a gente desaparece e os restaurantes e cafés fecham. Ao Sábado e Domingo, teve muitas dificuldades para comprar comida. Expliquei-lhe que nestes últimos dias, com chuva e tempestades era natural que isso acontecesse. Consegui demovê-lo da decisão que tinha tomado de passar ao largo do Porto. Imaginem que alguém lhe tinha dito que no Porto ainda era pior, que as pessoas eram tristes e viviam enfiadas dentro das suas casas, que não valia a pena ficar sequer a dormir no Porto! Que raio de anormal teria conhecido ele com tamanha informação tão ignorante? Era português e já não sabia dizer de onde ele era. Tenho um palpite sobre a naturalidade dessa pessoa… fiz-lhe também uma sugestão de roteiro até ao Porto, do que eu mais gosto, claro. Toda esta conversa de mais de uma hora, decorreu comigo deitada ainda no meu beliche, dentro do meu saco-cama e ele de pé à minha frente. E eu cheínha de vontade de fazer xixi e o homem nunca mais se calava! Quando nos despedimos, com um forte aperto de mão, e mal ele saíu da camarata, levantei-me disparada para o quarto-de-banho que os meus pés descalços e doridos quase fizeram faíscas nas curvas!
Mas gostei imenso de o conhecer e ouvir as suas histórias …
Saí de Viana, conseguindo ignorar uma voz diabólica dentro de mim que me dizia para ir ao Natário comer uma maravilhosa Bola de Berlim, um delicioso Mangerico e um esplendoroso Barquinho de Ovos Moles! Mandei-a calar-se, cantarolei para não a ouvir e lá consegui não virar em direcção da Praça da Republica! Virei em rumo à Areosa, pelo sopé do Monte de Santa Luzia. Arrependi-me bem de não ter ido pela N13. O caminho era bonito, mas demasiado sinuoso e com muitos troços a passar por Eucaliptais, Matas e Pinheirais com caminhos feitos de pedregulhos alternados com verdadeiras piscinas, quase Olímpicas. A chuva e vento não parou nem um pedaço e houve momentos que, para não atravessar “a nado” uma ou outra dessas piscinas de água e lama tive que me suspender e agarrar a alguns ramos de árvores caminhando, toda torta, pelas bermas altas dos caminhos de cabras e penedos. O bastão que o Miguel me trouxe, foi uma grande ajuda, diria mesmo crucial!
Foi em Cabanas, onde me maravilhei com a casa do Pedro Homem de Melo, que decidi não caminhar mais pelo monte e descer para a N13. Já eram quase 15h30, ainda não tinha almoçado e ainda tinha mais de 15 quilómetros para andar. Não me apeteceu estar no meio do monte quando caísse a noite.
Continuei sem encontrar ninguém em peregrinação e continuaram a cumprimentar-me em Inglês ou em Françês, os habitantes locais que ia encontrando. A razão era a mesma: “Por aqui quase não passam Portugueses, só mesmo estrangeiros!”
A chuva e o vento não abrandaram até que finalmente cheguei ao Albergue em Caminha. A caminhada forte de ontem e o caminho puxado de hoje fizeram-se sentir. Cheguei rebentada! Um bom banho, umas massagens e um jantar frugal depois, já me senti mais animada.
Desta vez só está cá a passar a noite uma Americana, a Brey, que fez o caminho Francês e está agora a caminhar para o Porto, pois tem o avião de regresso a partir do Porto na próxima Quarta-feira. Jantamos juntas, conversamos muito e juntou-se a nós a recepcionista do Albergue, a Hilária, uma Luso-Venezuelana com uns incríveis olhos azuis e que nos contou ser já uma veterana em todos os Caminhos de Santiago. Uma noite muito agradável, à volta de uma garrafa de vinho tinto que a Hilária fez questão de abrir para nós as três.

E agora deixo-vos aqui a música que exemplifica bem o meu dia de hoje:
“Wind and rain, what else could it be?”

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