Rumo a Santiago. Quinto dia

 

Ontem o meu telemóvel deixou de funcionar. Não conseguia sequer atender chamadas, apenas com os auriculares postos. Tem estado exposto a tamanha humidade que decidiu fazer greve… Como quase todos sabem, eu escrevo os meus resumos, normalmente à noite antes de ir dormir, no meu telemóvel. Foi por essa razão que ontem não publiquei nada…
Aposto que pensaram que eu tinha desistido! Nããã… nada disso!
Acordei ontem, Sábado, no Albergue de Caminha. Nessa altura pensava que todos os Albergues deviam ser assim como esse era: cheirava um bocado mal e a limpeza não reinava por aqueles lados. Só à noite, no outro Albergue onde pernoitei e pude fazer uma comparação é que percebi que o outro era um Albergue mau, muito mau mesmo.
Saí cedo em direcção a Seixas, onde tomei o Pequeno-almoço. Continuei para Lanhelas e Vila Nova de Cerveira. Nada de importante a assinalar, continuei sem encontrar nenhum peregrino para Santiago. A chuva e o vento só começaram a dar tréguas pouco depois de Cerveira. E felizmente, pois se tivesse continuado não teria usufruído de um maravilhoso caminho rural que apanhei durante mais de 12 quilómetros , mesmo até Valença, quase sempre paralelo ao rio Minho. Como eu gosto mesmo, encheu-me as medidas: floresta, campos, mais floresta, animais de pastoreio, cavalos, corvos, garças, milhafres, castanhas, tângeras, e tudo pintalgaldo com as mais bonitas cores outonais! Até apanhei uns cachos de uvas Americanas, já muito maduras mas ainda deliciosamente doces.
Fiquei a saber que as castanhas, quando estão encharcadas, se descascam muito bem, mesmo aquela pele toda peluda do interior.
Ontem foi também dia para depositar a minha segunda pedra. Escolhi uma também como os seixos da praia, mas desta vez era uma fina, longa e de forma oval. Uma das extremidades era muito bicuda e facetada. Se eu fosse uma mulher pré-histórica, de certeza que iria guardar aquela pedra para, por exemplo, tirar a pele a um urso, ou a um veado.. mas como não o sou, atribuí-lhe uma das coisas que eu quero resolver na minha vida e deixei-a em cima de um cruzeiro que encontrei pelo caminho. Fiz questão que ficasse deitada, sozinha e exposta a todas
a intempéries. E voltei-lhe as costas, como já tinha feito à primeira pedra!
Como nos dois dias anteriores tinha andado mais do que devia ter feito, senti o cansaço mais cedo ainda. Mas estava decidida a ficar a dormir em Valença. Caiu a noite, antes de eu lá chegar. Sinto-me insegura, quando caminho de noite. Não gosto. Perdemos um pouco o nosso sentido de orientação e as setas amarelas – que indicam o caminho para Santiago – não ficam visíveis. Nos últimos dois quilómetros tive a ajuda do meu irmão Miguel, que me enviou as indicações.
São sempre os que me custam mais, os últimos dois quilómetros… Apre! Nunca mais chegava ao meu destino!
O Albergue em Valença tinha mais quatro peregrinos: um casal Americano, um rapaz de Santarém, o Bruno e um João, de Lisboa. Todos vinham de Ponte de lima com exceção do tal João que ía começar só hoje a caminhar para Santiago e que tinha chegado a Valença de comboio.
Jantamos todos juntos e trocamos experiências, bebidas e comidas. O ponto alto da conversa era a chuva e as variadíssimas peripécias passadas nos últimos dias por causa dela.
À laia de despedida, dei a minha concha de Santiago ao Bruno e ele em troca, deu-me uma navalha. Navalha essa que lhe tinha sido dada por um Alemão que terminou no Porto o caminho Francês, pois veio a caminhar de Santiago para o Porto, porque arranjou um bilhete low cost mais barato para a Alemanha… por isso, toca a vir a pé para o Porto! Fantástico, não é? Eu só de pensar que há tantos voos que são bem mais baratos desde Lisboa…. de qualquer maneira, tenho agora entre as minhas tralhas uma navalha que já atravessou França e Espanha, é uma navalha especial e viajada…
Continuo sem ter problemas nos meus pés e pernas e assim espero continuar, se Deus quiser.
Deitei-me feliz e a pensar que tenho tido muita sorte. Tanta e tanta coisa boa que me rodeia, diariamente! Tenho que me treinar mais em conseguir desligar-me do que realmente não importa. Tenho ainda que deixar para trás de mim mais umas quantas pedras!

E agora a música, que eu adoro, escolhida para partilhar:

“And grace will lead me home…”

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