Rumo a Santiago. Sétimo dia

 

E já passou uma semana inteirinha! A mim parece-me que passaram apenas 2 ou 3 dias.
Hoje foram 18 quilómetros, mas quase todos por montes e vales. Saí de Porriño depois de me encontrar com a Peggy, a Canadiana. Hoje conversamos um bocadinho mais. Contou-me que tinha ficado viúva recentemente. Reformou-se e decidiu fazer o caminho de Santiago para de alguma forma marcar positivamente o início da sua nova vida sem o marido e sem o trabalho. É boa companhia, mas as duas temos “vistas” muito diferentes. A Peggy olha a Galiza, muito semelhante ao nosso Minho, com olhos de estrangeira. O que mais gosta de ver é exactamente o que eu gosto menos de ver: as casas. Não têm graça nenhuma, desordenadas, descaracterizadas e a maior parte delas de um extremo mau gosto não respeitando a natureza envolvente. É óbvio que falo na generalidade. Há muitas casas por onde passo que me encantam: currais, galinheiros, espigueiros e celeiros antigos!
Ainda durante a manhã, encontramos de novo a Kim e o Harold, o casal Americano. Caminhamos juntos por umas duas horas. Continuou a ser dia de confidências, pois contaram-nos que o Harold teve um grave acidente de Ski – saltou fora de uma pista e caiu por uma ribanceira batendo em pedras e blocos de gelo e neve. Ficou em coma uns dias, sem a família saber se sobreviria. Mas melhorou. Começou então um inferno de operações pois tinha três vértebras partidas e costelas que lhe perfuraram os pulmões, perigosamente perto da Aorta. Mesmo que sobrevivesse, nunca mais conseguiria andar, foi o diagnóstico médico. Mas aqui está ele, a fazer o Caminho de Santiago… recuperou, exercitou-se, e ainda com muitas dores combinou com a mulher baixar drásticamente o ritmo de trabalho que tinham antes do acidente e aproveitarem ao máximo a vida. E a primeira decisão que tomaram foi a de vir a Santiago, numa espécie de agradecimento. E eu, humilde pessoa ao pé desta gente fantástica, só posso agradecer tê-los conhecido. São pessoas assim que nos dão bons exemplos…
A meio do dia separámos este grupo. Eu acabo sempre por ficar para trás pois encontro mil coisas bonitas que quero ver, fotografar ou experimentar. Comi uvas Americanas doces como só elas conseguem ser, maças de casca vermelha e polpa branquinha sumarenta e saborosa e continuei a apanhar algumas castanhas. Tantos castanheiros que por aqui há! Afinal de contas são eles que justificam o meu nome de família, que tem origem aqui em Pontevedra, não é?
Passei por muitos galinheiros, vi imensos gansos e perús. Encontrei-me com um corvo que estava a tomar banho numa poça de água á frente no meu caminho. Fiquei imóvel a observá-lo na sua higiéne e lentamente tentei tirar-lhe uma fotografia: assustou-se e fugiu de mim. ….
Passei por um cavalo que estava preso por uma corda num pasto. Rebolava-se pelo chão e quando me viu levantou-se e aproximou-se de mim fazendo uma boa pose para a minha fotografia. Dei-lhe umas palmadinhas na cabeça e tive pena de não ter guardado uma maça…
Já tinha continuado por uns dez minutos o caminho quando começo a ouvir um barulho de tropel a aproximar-se rapidamente, pelas minhas costas. Quando olhei, vi o meu amigo cavalo a galope, visivelmente contente por estar livre e juro que lhe percebi um sorriso dirigido a mim!! Parecia um cão a dar pinotes e volteios de felicidade. Tinha conseguido soltar-se da corda que o prendia! Depois de me ter cumprimentado assim tão jovialmente, seguiu o seu caminho a galope com os cascos a fazerem aquele delicioso barulho. Gostei deste momento, embora tivesse apanhado um susto quando pensei que ele ía saltar para mim, para me “abraçar”….
O dia começou com muito frio e ainda tudo estava molhado mas depois do almoço a chuva passou de vez.
O que mais me custou foi fazer a descida até Redondella, que é muito acentuada e longa. Fiquei no Albergue Municipal, numa Torre Medieval muito bonita. Estava quase cheio, o Albergue. Reencontrei a Kim e o Harold.
Jantei com um rapaz Alemão e uma Nova Iorquina de origem Tailandesa. Foram duas horas de conversa muito prazenteira e interessante.
Continuo sem quaisquer problemas nos pés e pernas e assim rezo para continuar. Encontrei duas raparigas Russas que estavam em muito mau estado, amparando-se uma à outra, coitadas!
Amanhã, rumo a Pontevedra! Serão mais 25 quilómetros…

Aqui fica uma música que tem o condão de me lembrar bem quem comanda isto tudo…. ora oiçam:

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