Santiago de Compostela. Décimo segundo dia. Conclusão do meu Caminho

Depois de uma noite bem dormida, dirigi-me à Catedral. Já lá estava a Maribel à minha espera… de lágrimas nos olhos! A minha querida amiga Maribel emocionou-se quando me viu. “Madre mía!”. É destas coisas esquisitas que o “Caminho” nos faz. É como a frase que quase todos os peregrinos trazem na ponta da língua, quando comentam algum acontecimento, encontro ou mesmo um  desencontro: “Tinha que ser assim…”
E o “ter que ser assim”, é duma fatalidade indiscutível, ninguém ainda dentro daquele espírito meio-Zen se atreve a contradizer algum “Tinha que ser assim!”
Já no Porto, quando estava a trabalhar na Voltaria, tive a agradável visita-surpresa de um Francês que conheci pelo Caminho, do Cyril. Tinha tomado nota do sítio onde eu trabalhava e foi lá jantar para experimentar os excelentes petiscos feitos pela Fátima. Vinha acompanhado de outro caminhante, também Francês mas com família Portuguesa. Este último, apesar de eu achar que nunca o tinha visto, descreveu-me duas ou três coisas que eu habitualmente fazia durante o meu Caminho. Foi o suficiente para eu ter a certeza que já nos tínhamos mesmo cruzado, embora eu não me lembrasse dele. E rematou o assunto dizendo:
“Tinha que ser assim: não falamos durante o caminho porque tínhamos que nos encontrar aqui, na cidade do Porto. Andava sempre com uma rosa comigo para oferecer a todas as mulheres com quem me cruzava. Lembro-me que, no momento em que nos encontramos, por acaso eu não tinha nenhuma comigo. Foste a única a quem eu não ofereci nenhuma rosa, tive pena…”
“Ainda bem, é que eu não gosto de rosas, daquelas das floristas” – disse eu a rir…
“Vês? É porque tinha que ser assim! ”
Tinham vindo os dois de Santiago e íam agora até Marrocos, sempre a pé….  Porquê? Porque “Tinha que ser assim”, como é evidente.
Eu e a Maribel fizemos tudo o que um Peregrino faz quando chega a Santiago. Já com a nossa Compostela  bem guardada na mochila, fomos dar uma volta pela cidade. Ou melhor dito: uma volta pelas lojas da cidade, eu me confesso! Numa dessas ruelas, conheci o José, como disse que gosta de ser tratado. Casaco de fazenda preto, que trazia vestido por cima de um fato preto às riscas brancas, laço do pescoço vermelho e fita do chapéu a condizer. Na lapela espreitava, todo aprumadinho, um lenço também vermelho. O José, contou que o único Caminho que lhe faltava fazer era o Caminho da Prata, que tem como partida a cidade de Sevilha. Está já com 85 anos e agora já são os filhos e os netos que o não deixam fazer isso. Escreveu dois roteiros para Peregrinos a Caminho de Santiago. Contou-nos muitas das suas vivências e coisas extra-ordinárias que testemunhou. A mais marcante para ele foi a de se ter encontrado no seu primeiro Caminho com um Peregrino que caminhava, como ele, em direcção a Santiago. Estava vestido com uma túnica e calças brancas que lhe pareceram de linho. Trazia o cabelo e barba comprida e teria qualquer idade entre os trinta e os trinta e cinco anos. Apresentaram-se e desejaram mutuamente “Buen Camiño”. José, como ía com um ritmo mais rápido, depressa se distanciou dele. Passados pouco mais de quinze minutos, qual não foi o seu espanto ao ver um homem exactamente igual, mas à sua frente, no caminho. Quando o alcançou, convencido que seria um homem apenas muito parecido com o outro, ficou como que pregado ao chão ao ouvi-lo dizer, com o mais bonito sorriso que ele alguma vez tinha visto: ” Olá, outra vez!”
José disse-nos ter tido, nessa altura, a convicção de estar diante de Jesus. E, antes de ter oportunidade para se recompor, súbita e misteriosamente o tal homem desapareceu… Ficou abalado e, de certa forma, todos os Caminhos que fez a seguir eram feitos com a esperança de O tornar a encontrar, o que nunca mais aconteceu, fisicamente, pois o José sentia-se sempre acompanhado por Ele. Quase todos os dias, tinha a grande preocupação de não saber onde ficaria a dormir e o que poderia comer para matar a fome, que nunca ficava muito longe de si. E de todas as vezes que ficava mais preocupado, depois de rezar, aparecía-lhe sempre alguém que lhe oferecia comida e um sítio para dormir. Mesmo nos sítios mais recônditos e solitários. José não tinha dúvidas sobre quem lhe proporcionava essa protecção especial…
No momento em que nos despedíamos, José disse que ía a caminho de uma festa de um muito querido amigo dele. Disse-lhe que isso era muito bom e desejei-lhe uma belíssima festa. Respondeu que eram sempre as melhores festas, quando o grupo dele se juntava para comemorar a vida de um dos amigos,  que tinha já morrido! “Trick way of thinking!”…

E no Caminho também acontece o romance. São várias as histórias que se contam de encontros e desencontros. Uma delas, aconteceu entre Porriño e Caldas de Reis. Um Alemão, o Simon e a Ana, também ela  Alemã, que eu conheci já em Caldas de Reis, onde me contaram a história.
Os dois coincidiram no mesmo Albergue em Porriño, onde passaram a noite. Foi amor à primeira vista, mas sem o confessarem um ao outro. As afinidades foram imensas e no final do dia seguinte, depois de caminharem juntos até Redondela, ainda sem se confessarem, cada um deles já sentia alguma coisa muito especial pelo outro. O amor andava pelo ar, em todos os cantos e esquinas do Caminho dos dois, mas a reserva em o assumir ainda se manteve até à manhã do dia seguinte, quando a Ana, antes de iniciarem a caminhada até Pontevedra, declarou que queria andar uns dois ou três quilómetros sózinha. Partiria assim com algum avanço e esperaria pelo Simon no primeiro Café ou Bar que aparecesse pelo Caminho mais ou menos uma ou duas horas depois. Mas no final do tempo combinado e no primeiro Café que o Simon encontrou, não estava lá a Ana. Continuou, a pensar que se calhar ela estaria à espera dele no próximo. Mas quando lá chegou, a Ana continuava a não aparecer. Começou a ficar preocupado e acelerou o seu passo para o próximo possível sítio onde a Ana o esperaria. Coitado do Simon: ao final desse dia já estava desesperado. A confiança mútua tinha sido tão grande que nem se lembraram de trocar contactos. Não tinha assim maneira de a contactar. Contou que sentiu que tinha perdido a mulher da sua vida (?!?!), que pensou nunca mais encontrar alguém que o fizesse sentir daquela maneira. Pensou mesmo em desistir, tamanho era o seu desgosto. Culpava-se a ele próprio por não se ter lembrado de ficar com o telemóvel dela. E magoava-o pensar que a Ana tinha desistido daquela maneira dele, sem sequer lhe ter dado a oportunidade de ele lhe dizer o quanto a amava, sem mesmo se despedir dele…
Por seu lado, a Ana, visivelmente comovida a ouví-lo contar a história deles, disse que sentiu exactamente a mesma coisa. Quando ele não apareceu no primeiro Bar onde ela parou para esperar por ele, ficou muito triste. Procurou por ele o resto do dia, não sabendo se devia acelerar ou atrasar o passo. Ele tanto podia estar mais para a frente como mais para trás.
Estava confusa, a afinidade entre os dois tinha sido tanta que ela não compreendia como o Simon tinha assim desistido dela. Se ao menos tivesse o número dele ligava-lhe e ficaria a saber o porquê daquela inesperada rejeição. E finalmente encontraram-se na noite do dia seguinte, já em Pontevedra. Ficaram afastados um do outro:  um dia, uma noite e mais um dia inteirinho e interminável… depois de desfeito o mal-entendido, atiraram-se para os braços um do outro e juraram nunca mais se separarem, porque se amavam loucamente!!
E o que se tinha passado? No preciso momento em que o Simon estava a chegar ao Bar onde Ana o esperava, a Ana foi ao quarto-de-banho por uns escassos minutos. Foi rápida, mas não o suficiente para o Simon a conseguir descobrir… a partir daí, o ritmo desesperado e acelerado do Simon nunca mais permitiu o encontro. Fizeram, desde o reencontro, o resto do Caminho sem se largarem um ao outro, literalmente!
Reservas de hoteis alteradas, planos estudados para quando voltassem para a Alemanha os quilómetros que separavam a vida dos dois fossem suprimidos, etc.,etc.. Que belo nos parecia  este amor! Tão felizes eles estavam, naquela eternidade de cinco ou seis dias depois de se conhecerem…
No Sábado, dia 17, voltei para o Porto de Autocarro. A mesma viagem que separou finalmente o Simon da Ana. Ele não conseguiu trocar o bilhete de avião e teve mesmo que vir para o Porto apanhar o vôo que o levava de volta a casa. A Ana tinha viagem comprada de volta, a sair em Santiago. Seriam só dois dias de separação, mas as despedidas destes dois, no Terminal de Autocarros, foram comoventes. Deixaram-nos todos com a lágrima ao canto do olho, o nosso Motorista incluído…
Mas…. como nem tudo o que reluz é oiro e eu já tenho suficiente idade para saber isso, este grande amor pode já ter os dias contados ou já ter mesmo terminado. É que na viagem para o Porto, com o Autocarro quase vazio, o Simon conheceu a Ana (coincidência, o mesmo nome!) uma jovem e bonita – nada tímida – rapariga Russa, que viajava sózinha pela Europa. Não se calaram os dois durante a viagem toda… a cumplicidade entre os dois crescia a olhos vistos, talvez ainda mais rapidamente do que tinha acontecido com a primeira Ana. Pediram-me ajuda para conseguirem alterar a reserva do Simon e ficarem os dois no mesmo hotel, na Rua da Algeria (Alegria) como a rapariga pronunciava. Fui testemunha também do desvio do plano de férias da Ana – a segunda – que antes de conhecer o Simon, não tinha a Alemanha incluída… o Amor voltava a estar no ar! Respirava-se a paixão dos dois dentro daquele Autocarro…  Simon, o Pinga-amores-do-Caminho-de-Santiago tinha aprendido a lição: nunca mais largaria aquela que ele sentisse ser a mulher da sua vida, nesse instante, claro! Pobre da Ana número um…
Caso para exclamar: “Teve que ser assim!”

Almoçamos eu, a Maribel e o Andreas. Foi um almoço que cheirava imenso a despedidas. Voltei a dizer que não tive uma razão só que me fez fazer o Caminho. E voltei a dizer que o fiz, se calhar, porque fiquei deslumbrada pela hipótese de ficar em plena comunhão com a natureza e com vontade de me desligar momentâneamente das rotinas diárias da minha vida actual.

Quem me conhece bem, sabe que eu já há uns anos não tenho televisão em casa, nem sequer Internet. Dependo absolutamente do meu telemóvel. Nos últimos dias do Caminho, todos os que foram fazendo o favor de ler o que eu escrevia, sabem que ele deu o berro, o meu telemóvel.
Fiquei espantada ao constatar que, a não ser pela preocupação que poderia infligir aos meus irmãos, família e amigos mais próximos, eu, em dois dias apenas, me desabituei desse aparelho que nos parece alguma coisa de imprescindível. Deu-me que pensar… pois poupei horas de estar concentrada nele, em troca de boas conversas. Um dia vou ser capaz de o por de lado…. Será que “Terá que ser assim?”
Em jeito de despedida, gostava de falar de alguns elementos que me acompanharam sempre nesta minha aventura. Em primeiro lugar, o Livro pequenino que a Paula Assucena me ofereceu. Revelou-se um óptimo guia com tudo o que qualquer caminhante precisa de saber, sem ter demasiada e desnecessária informação. Foram muitos companheiros que o viam e perguntavam se sabia haver igual em Inglês ou Francês. Outros tantos pediam-me, diáriamente,  para eu lhes passar e traduzir alguma informação sobre onde ficar, como nesse livro aconselhavam. Mostro aqui o livro, em fotografia. Devo dizer que entre as suas páginas tenho agora guardadas bonitas folhas daquele vermelho fantástico, e algumas flores silvestres que fui apanhando na praia, nos montes e nos campos.
Em segundo lugar, a minha saia em tecido impermeável que a minha amiga Fátima costurou para mim. Que jeito me fez! Perfeita para o Caminho… Vou guardá-la religiosamente para o meu próximo Caminho.
Por último, mas muito especial para  mim, a vossa companhia através do Facebook ao comentarem, ou apenas lerem os meus resumos. Alguns disseram que ficavam com a impressão que caminhavam comigo. Pois eu sentia-me a caminhar com todos! Não vou nunca conseguir explicar a importância que isso teve para mim em momentos mais duros do caminho… Um enorme obrigada a todos.

E até à próxima!

Cristina

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