Os Indignados

Anda por aí uma onda de indignação com os turistas a mais no Porto. Os indignados alegam, entre outras coisas, que não conseguem andar pela Baixa sem serem importunados com avalanches de turistas. Turistas esses que parecem que só cá veem para tornar a vida dos queixosos miserável. Não os deixam em paz, pedem-lhes informações parvas e não se cansam de repetir as mesmíssimas perguntas: “Onde ficar a Tower du Clérigos?”
“Onde se pode comer uma Francesinha?”
“Usted me dice donde esta el rio Duero?”
“S. Bento Train Station, its far away from here?”
“Ou est’ce que je peut trouver la biblioteque de Harry Potter?”
O Porto é a minha cidade, adoro-a e conheço-a muito bem.
E a esses indignados pergunto-lhes se se lembram como o nosso Porto era antes destes turistas todos. Lembram-se? A Baixa, depois do locufusco não era sitio próprio para ninguém, principalmente para o sexo feminino. Era suja, cheirava mal e as cenas estranhas passadas com prostituição e drogas, multiplicavam-se e à vontade do freguês.
As esquinas tinham “donas” muito atrevidas e “donos” que se chamavam Paulas, ou Paulinhas, aqueles do sexo indefinido, ou baralhado..sei lá!.
Fios de ouro, anéis e carteiras eram bens altamente cobiçados pelos amigos do alheio e dos passadores de droga.

Agora tudo mudou, respira-se segurança como não se respirava há muito! A cidade está em remodelação, a ficar mais bonita. Tudo se está a reconstruir respeitando ao máximo a traça original. É claro que há danos colaterais, as obras que parecem infindáveis pois mal acaba um prédio de ser restaurado começa logo o do lado com obras. Sou moradora da Baixa, há seis anos, sei bem do que estou a falar. Famílias que foram despejadas? Sim, houve algumas, mas conheço muitas histórias que não estão bem contadas… nem todos os Senhorios são os Bichos-papões que fazem crer que são. Nem todas as famílias mereciam as casas onde viviam, a pagar rendas de 40/50 euros, há dezenas de anos. E quase todos os que foram despejados foram-lhes atribuída uma boa indemnização e a alguns, casas camarárias. Não chegou para todos? Pois não deve ter chegado… Houve no meio algumas injustiças? Pois deve ter havido. As que mais me tocaram foram alguns casos de casais de velhinhos ou pessoas idosas sós que tiveram que sair da casa onde viveram desde sempre. Posso imaginar a angústia, a incerteza e a desorientação destes últimos. Sofro por eles. Sofro com eles, mas deparei-me com o facto de ser a mudança de zona o que mais os afligia. E acredito que a maioria acabou por ir viver para uma casa com melhores condições e que será uma questão de pouco tempo para se habituarem ao novo ambiente.
Mas não vejo os tais indignados indignarem-se com a indignação que é todos os dias termos que andar aos zig-zagues pela rua, tal como se participássemos num Rally Paper, para evitar pisar as cuspidelas dos indignados, sim, deles, porque não vejo os turistas a fazer nada disso. Não os vejo também preocupados em apanhar a porcaria que os seus animais de estimação deixam à mercê dos pés mais distraídos… Não os vejo a indignarem-se com os inefáveis sacos dos supermercados cheios de lixo, de preferência à porta de outras pessoas que não a deles. Não os sinto preocupados com os palavrões berrados de um lado ao outro das ruas, mesmo que sejam durante a madrugada.
Nunca vi nenhum deles a reclamar com o autêntico nojo que são as muitas pessoas que todas as noites distribuem por tudo o que é canto ou esquina a porcaria para os gatos sarnentos: “Coitadinhos dos bichinhos” dizem eles, os indignados…
E até sorriem ao verem as gaivotas a esgravatar no lixo… “Que lindo, passarinho!” Passarinho?? Passaroco do mais porco possível, ainda por cima são necrófagos! Que nojo! Mas lá aparecem uns indignados a darem comida aos “passarinhos, coitadinhas das Gaivotas e das Pombinhas!”
E, sobretudo, não os vejo a pensarem e a ficarem contentes na quantidade de postos de trabalhos que foram e continuam a serem criados, por conta dos tais turistas. Não reparam sequer em algumas lojas que, outrora em vias da amargura, quase sentenciadas com uma maldita falência, conseguiram sobreviver e vencem hoje nos seus projectos renovados.

Raios partam os Indignados… o Porto, a minha cidade, não precisa deles para nada!
E que venham muitos mais turistas, sobretudo que voltem, por terem gostado!

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