O Susto do Diabo

 

Sameiro estugava o passo. Vinha de passar o dia no mercado de S. Lourenço e deixara passar o tempo mais do que queria. A manhã não tinha sido boa nas vendas e para não voltar com os queijos para casa, durante a tarde foi baixando os preços, numa tentativa de tudo vender. E foi tudo vendido, felizmente. Que bom seria este dinheirinho, calhava mesmo bem. Na Terça-feira tinha que comprar mais remédios e tinha vergonha de ser aviada sem ter pago a última conta na Farmácia.
Como já tinha saído tarde da feira, decidiu cortar caminho pela serra. Ganharia assim uma boa hora de caminho. Ainda por cima, a broa de três quilos, a vasilha nova para o leite, o coalho líquido e os tamancos novos para o Pedrinho pesavam-lhe na cabeça, quanto mais depressa chegasse, melhor. Tinha é que parar para ajeitar a rodilha, decerto ficara mal feita.
Sameiro fez uma pausa na pressa que levava, poisou o que levava no chão, desenrolou e voltou a enrolar a rodilha de pano que tornou para a sua cabeça. Desta vez tinha ficado bem, o que levava, já não a ía magoar – pensava ela, enquanto tentava equilibrar tudo para se meter de novo ao caminho. Já estava a anoitecer, mais meia-hora e ficava tudo escuro. Ainda tinha uns sete quilómetros para percorrer, tinha que se despachar. E foi quando ouviu um barulho estranho, como que um ramo pequeno partido ao ser pisado… Sameiro fez-se em silêncio por um instantes, mas não ouviu mais nada. Que tolice, devia ter sido algum animal, afinal estava na serra, no meio de floresta e mato! E seguiu o seu caminho. Mas, passados uns minutos, tornou a ouvir outro barulho que vinha lá de trás, e desta vez teve a certeza que tinha sido uns passos de alguém. Parou novamente e ficou à escuta… e de novo nada ouviu. Sameiro nunca tinha sido medrosa, mas não lhe agradava esta situação. Se fosse animal, qual seria? O mais normal era fugirem dela e não virem a segui-la.. se fosse gente, porque não se mostrava?
-“Quem está aí? Apareça, para que se esconde?”
Esperou mais uns instantes e como não teve nenhuma resposta, continuou o seu caminho… mas desta vez já o seu passo era mais rápido e de vez em quando olhava para trás por cima do seu ombro. Mas nada via, nem ninguém…
Voltou a ouvir passos, agora não tinha a mais pequena dúvida, eram mesmo passos e os que ouvia, conforme ela apressava os seus, também ficavam mais rápidos, e se os abrandava, também os outros ficavam mais lentos.
Sameiro começou a ter medo. A noite já tinha caído e o que lhe valia era conhecer o caminho até de olhos fechados! “Jesus, Maria e José: Protegei-me do mal que me possa acontecer! Lembrai-vos do meu Pedrinho que já é orfão de Pai e que só me tem a mim…”
E Sameiro tirou do bolso do seu avental um terço
de contas de madeira e rezou fervorosamente o rosário
a Nossa Senhora, a pedir-lhe protecção.
E o som dos passos continuavam na sua perseguição impiedosa. Pareceu-lhe até que eram os passos de duas pessoas! Credo, que medo: “Avé Maria, cheia de graça, Senhora é convosco…” não se lembrava de rezar o terço assim tão devotamente.
Por essa altura, Sameiro já quase corria! Não fora ela precisar mesmo das coisas que tinha comprado na feira, e já se tinha livrado delas e desatado a correr! Continuava a rezar o terço, cada vez mais alto e cada vez mais cheia de medo… Queriam fazer-lhe mal! Oh meu Deus! Mas porque é que não tinha vindo antes pela estrada?? O seu coração batia forte no seu peito, do esforço e da expectativa, do medo do desconhecido que vinha atrás de si.
E o que sentia passou a ser pavor. Pavor de ficar para ali morta, no meio da serra…. e a sua cabeça não parava de lhe fornecer imagens macabras do que lhe iria acontecer, quando fosse apanhada pelos seus perseguidores. Sameiro já chorava, aterrorizada, mas continuava a desfiar o terço, atabalhoadamente, repetia as Avé-Marias, já não sabia qual o mistério que rezava, e até ficou bloqueada e não conseguiu lembrar-se da Salvé-Rainha!
O terror tomou conta do corpo dela, o medo estava entranhado na sua mente e as coisas que transportava à cabeça já balançavam perigosamente no meio da já quase correria desenfreada que ela levava…. e foi então que a Sameiro tropeçou, numa raiz traiçoeira que lhe apareceu no meio do caminho! A broa, a vasilha do leite e os tamancos novos do Pedrinho voaram para a frente. O frasco com o coalho líquido, por milagre, foi aterrar num tufo de alecrim que crescia ali pelo monte e não se partiu!
Sameiro, com o coração a querer sair-lhe pela garganta, ainda estendida ao comprido no chão, olha para trás de si e percebe que está ali alguém!
Não consegue ver, está muito escuro já, mas Sameiro sabe que está ali alguém a olhar para ela.
-“Quem está aí? Que me quer? Apareça ou deixe-me em paz! Deixe-me seguir o meu caminho que eu não lhe fiz nenhum mal”
A voz de Sameiro tremia-lhe ao dizer isto. Estava de tal maneira aterrada que nem levantar-se ela estava a conseguir… estava tolhida pelo medo, apavorada….
E foi então que, numa abertura de nuvens que deixou passar a luz da lua, a Sameiro conseguiu ver duas figuras que lhe pareceram meio-humanas e meio-animais! Aproximaram-se dela, lentamente, até pararem quando a Sameiro começou a berrar com todas as suas forças, goelas escancaradas e olhos desvairados de medo! E as duas figuras desconhecidas, suas implacáveis perseguidoras, também desataram a berrar sem parar, assustadas com a gritaria da Sameiro! Ouviu-se pelos arredores um burburinho, um restolhar de asas, patinhas pequenas e outras maiores a correrem dali para fora, guinchos e atropelos, de todos os animais que por ali estavam, nocturnos ou dos que apenas estavam a dormir…meu Deus! Que grande susto apanharam todos! Um Lince, com o salto que deu pelo susto, deixou fugir o coelho que tinha acabado de apanhar. Os berros estridentes e assustadores no silêncio da noite faziam eco nos montes da serra e parecia que duplicavam em número e em terror… Ainda hoje, passados já uns anos deste episódio que agora aqui se conta, nas noites mais escuras e frias de Inverno, algumas pessoas das aldeias espalhadas por esta serra fora, contam o “Mistério da noite dos berros do Diabo”. Com muitos pontos e contos acrescentados, era a história que mais empolgava os jovens… que não se atreviam a andar pela serra à noite, não fosse o Diabo encontra-los…
Mas afinal porque berravam todas as três?
Sameiro foi a primeira a calar-se e a recuperar a compostura, seguida pelas outras duas raparigas. Estavam as três sem fôlego!
-“Que susto me pregaram! Porque estavam a berrar?? – diz a Sameiro.
-“Porque você nos assustou com os seus berros, pensamos que estava a ver atrás de nós algum assassino ou algum animal horrível que nos quisesse matar às duas! Nem me atrevi a olhar para trás! ”
-“Pois eu pensei que vocês me quisessem roubar, esfaquear e me deixassem para aí morta aqui no meio do nada! E o vosso cabelo todo desgrenhado não ajudou muito… pareciam-me uns Lobisomens.!
-“Nós perdemo-nos, e tiramos os lenços da cabeça para os ombros porque estávamos com frio. Já a nossa Avó costuma dizer que temos “as duas uma autêntica juba de leão”, não há meio de a conseguir baixar! Podemos descer a Serra consigo?”

E lá foram as três juntas, pela serra abaixo. E todos os animais, nocturnos ou não, conseguiram de volta o silêncio habitual da serra durante a noite. Só o Ouriço Cacheiro, muito tímido, não conseguiu recuperar logo do susto. Só voltou a sair da sua toca, porque estava cheio de fome, já o sol estava quase a nascer…
Também houve uma raposa que sofreu danos morais, pois ficou ferida na sua vaidade por ter ficado com o seu belo pelo todo eriçado, durante dois dias seguidos, tamanho foi o susto que apanhou com a berraria.

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