Os meus Óculos novos

Logo que a decoração de Natal era inaugurada na Baixa do Porto, na primeira oportunidade, lá íamos com o nosso Pai vermos como tudo estava bonito. Nem sequer saíamos do carro, as noites já eram frias e via-se tão bem ou melhor do que se tivéssemos a pé.
Como ficávamos encantados com a profusão de luzes e cenários de Natal! Todos os anos diferentes e com mil e uma coisas para descobrirmos. Pedíamos sempre ao Pai para dar mais uma volta à Avenida para vermos tudo melhor outra vez e mais uma volta, e mais outra volta, até o Pai dizer que já chegava!
Nesse Natal, tinha eu quase 8 anos, quando acabamos de dar a última volta, e, feliz por tudo o que tinha visto, daquela maneira que só satisfaz uma criança, disse:
“- Pai, sabe o que eu mais gosto nas iluminações de Natal? É de ver aquelas espécies de rodas coloridas à volta de cada luz! Ficam tão bonitas assim com tantas cores todas espalhadas!”
“-O quê? Explica lá isso melhor – disse o meu Pai. Olha para aquela luz ali à frente e diz-me o que vês..” disse-me ele, ao mesmo tempo que apontava para um sitio específico das decorações..
“- Eu vejo um clarão verde que tem à sua volta outra luz azulada e ainda outra luz por fora da azul quase amarela. É muito bonita, Pai!”
“-Hãã? Muito bem… Segunda-feira não vais à escola, vamos a um Oftalmologista, está bem?”
“- A um ovotolmoquê? O que é isso, Pai?”
“- É um Médico especialista em olhos. Eu acho que não estás a ver muito bem. Aquilo que eu te pedi para me descreveres era uma luz verde e pequena… Vamos ver o que o Sr. Doutor vai dizer, não te preocupes, eu sei que até vais gostar de fazer as experiências giras que os Oftalmologistas fazem!”
Segunda-feira, à hora pré marcada pelo meu Pai, lá estávamos nós na Consulta. Foi na verdade uma experiência gira para a miúda de 8 anos e muito curiosa que eu era na altura. Ainda por cima o Médico era simpático e respondia a todas as minhas curiosidades. E para mim aquilo tudo era um jogo, adivinhar as letras que conseguisse… ora tapando um olho, ora tapando o outro. E se me tivesse deixado, até tentava recitar as letras de olhos fechados, pois era uma especialidade minha, decorava tudo primeiro e repetia tudo a seguir de olhos cerrados! Fazia isso na escola…
Diagnosticada a minha miopia, saímos do consultório com uma receita de óculos na mão que foi prontamente aviada no Oculista Soares, na Rua da Fábrica, casa muito tradicional Portuense.
Dias depois, lá voltamos para levantar os meus óculos novos. Por mais que viva, nunca me hei-de esquecer o que foi para mim usar os meus óculos novos pela primeira vez. Conseguia ver tudo, ao pormenor! Eu não sabia que se podia ver assim tanto… não sabia que o mundo era feito de tantos pormenores minúsculos!Mal pus os pés no passeio, fiquei aparvalhada a olhar para o cimento cinzento desenhado aos quadrados.
-“Pai! O passeio está cheio de pintinhas!” – eu sempre tinha pensado que o cimento era de uma cor una e sólida, sem nuances de cinzentos diferentes. E o meu Pai ria-se, com aquele sorriso só dele.
Descemos a Rua da Fábrica, atravessamos a Rua do Almada e chegamos à que na altura se chamava Praça de D. Pedro. E foi então que eu dei pelas árvores que lá existiam nessa época. As folhas! Eu conseguia ver as folhas nos ramos, a voarem e a caírem no chão! Que maravilha era conseguir ver todas as folhas que as árvores tinham… tantas e tantas folhas! E eu via-as todas, todinhas!
E continuando de nariz no ar, reparei nas nuvens que corriam ligeiras em direcção ao Norte. Cheirava já a chuva…
E o meu Pai continuava com aquele sorriso só dele, um sorriso que nos abraçava sem nos tocar. Um sorriso de orgulho em mim, um sorriso que me entusiasmava a tudo ver e aprender!
Lembro-me como se fosse hoje o frenesim que se apoderou de mim, nesse dia. Durante todo o caminho para casa, dentro do carro, foram descobertas atrás de descobertas…. até consegui perceber todos os sinais em forma de bailado que o Sr. Sinaleiro fazia com as suas elegantes mãos calçadas de alvas luvas: abrandar, parar e avançar! Até consegui ver que ele sorriu para mim!
O que eu não conseguia ver era que uma porta se tinha fechado na minha curta vida e outra bem maior tinha sido escancarada. Passei a ver coisas bonitas e passei a ver muito melhor coisas bem feias. Nunca fui pessoa de me esquecer nem das coisas boas nem das coisas más. Por vezes, desejava esquecer-me de um punhado delas, conseguir fingir que nunca tinham acontecido. Mas então como poderia eu saber o quanto foram boas as que me fizeram feliz? Não teria nunca possibilidade de fazer comparações.
Mas o meu Pai sabia isso tudo. O meu Pai sempre soube dessas coisas. Nunca nos deixava sem resposta…. e nunca deixou de nos mostrar tudo o que valia a pena ser visto e ser memorizado.

Como eu gostei dos meus óculos novos!

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