S. Martinho

 

Sempre gostei da sua história. O meu Pai contava-a muitas vezes, por esta altura do ano.
E a minha imaginação trabalhava, alterava e adaptava a história à minha realidade de menina pequena e Maria-rapaz que era.
Cavalgava pela estrada fora em cima do meu Alazão, de cor castanha igualzinha à cor do chocolate. Por onde eu passasse – S. Martinho soldado – não havia ninguém que não admirasse a minha nobre postura, o meu valente cavalo que eram os meus patins de ferro, daqueles antigos, ainda com quatro rodas, travão à frente e que pesavam para aí uns dois quilos cada! e a minha bela e boa capa apertada no meu pescoço e que me caía pelos ombros abaixo que era, nada mais nada menos que um lençol da cama de grades da minha irmã mais nova, surripiado do estendal da roupa. Levava a minha espada em riste – um pau velho de vassoura – e enquanto seguia o meu caminho, matava de quando em vez um bandido ou homem mau que se atreviam a meterem-se no meu caminho, eram os arbustos os sacrificados que sofriam com a poda da minha espada. Eu era o S. Martinho! O Guerreiro mais valente de todo o sempre, nunca existiu nenhum mais bravo e corajoso no mundo inteiro!
O pobre pedinte é que teimava em não aparecer, deve ter sido o meu Anjo da Guarda que o afastou do meu caminho: só de imaginar o que me aconteceria se rasgasse o lençol ao meio…
Continuava eu na procura do meu pobre mendigo, espetando ferozmente a minha espada em cheio no peito dos inimigos, quando me chamaram para lanchar!
E lá voei no meu cavalo Alazão quase alado, que eram os meus patins, pescoço apertado pelo nó da capa, directamente para dentro de casa! Para o soalho em madeira… Erro crasso, Ups! Proibição total e absoluta de entrar com os patins calçados dentro de casa!
Tentei de imediato desmontar do meu cavalo, atirei a espada pela porta fora, e tentei desembaraçar-me da capa improvisada, mas…. já não foi a tempo! O berro que ouvi e o sopapo forte no cachaço que levei de imediato, atiraram-me ao chão! E eu, de sentir-me o S. Martinho forte, bom e corajoso, passei a sentir-me o pobre pedinte a precisar de caridade: finalmente tinha encontrado o pobre miserável da história! E esfomeado também, pois fiquei sem lanche de castigo!
E viva o São Martinho!

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