O Herói

Café do Jardim Botânico. Algures em meados da década de 80. Estávamos a tomar um café enquanto esperávamos por uma amiga, naturalmente e exageradamente atrasada…
Aproximou-se da nossa mesa um miúdo, que teria talvez uns 7, 8 anos. Timidamente e respeitosamente afastado da nossa mesa, ficou em silêncio a olhar para nós. Vestia calças de ganga e uma camisola de mangas curtas que, apesar de já terem visto melhores dias, na verdade estavam limpas e em ordem. As calças, demasiado curtas, deixavam ver uns tornozelos magros desnudos de meias, a saírem de dentro de uns sapatos castanhos, esses sim, já a precisarem há muito de serem substituídos.
-“Então? Queres alguma coisa? ”
E o rapaz, com as mãos entrelaçadas uma na outra, murmura uma frase num tom de voz tão baixo e mastigado que nenhuma de nós percebeu alguma coisa.
-“Tens que falar mais alto um bocadinho, assim não te conseguimos perceber…”
Ele suspirou e, para além de fazer um esforço para falar mais alto, também levantou a cabeça e olhou-nos as duas enquanto pedia:
-“Eu queria um copo de leite e três pães com manteiga, se faz favor…”
-“Há! Claro que sim, mas não preferes leite com chocolate e um bolo, ou um lanche, ou um queque?”
-“Não, muito obrigado, só queria um copo de leite e três pães com manteiga.”
-“Olha, podes pedir o que tu quiseres, repara nas Bolas de Berlim: parecem muito boas, não achas?Podes pedir as que quiseres!”
-“Mas eu só queria mesmo era um copo de leite e três pães com manteiga…”
-“Está bem… e nem sequer queres queijo e fiambre nos teus pães com manteiga?”
-“Não obrigado, só manteiga..”
E lá fizemos o pedido ao empregado do Café: um copo de leite frio, e três pães com manteiga.
O rapaz, por mais que o convidássemos a sentar-se na nossa mesa, agradecia mas permanecia no mesmo sítio, à espera.
Minutos depois, poisam na mesa o pedido do rapaz.
E nós, no conforto da nossa vidinha onde nada de essencial jamais nos faltou, ficamos incomodadas, tristes, abaladas e até mesmo chocadas ao vermos como um copo de leite e um pão com manteiga podem ser, literalmente, devorados com olhos e boca de fome…
Quando terminou, pegou nos dois pães que restavam e enfiou-os cuidadosamente nos bolsos das calças, dizendo, como quem se desculpa por não os comer:
-“São para os meus irmãos…! Obrigado!”
E sem dar tempo para nós recuperarmos a fala, partiu a correr da Cafetaria e desapareceu-nos da vista. Deixou-nos com lágrimas nos olhos e corações muito espremidos. Quando me recompus, olhei para a minha irmã que estava ainda com os olhos meio desacreditados e perguntei-lhe:
-“Tu viste-me este miúdo? Inacreditável…”
-“Meu Deus, como é possível, daquela idade e viver com fome… e os irmãos, que idade eles terão?”
Ficamos como que mudas e caladas durante um bom bocado. Perguntamos depois aos empregados do Café se aquele rapaz ía lá muitas vezes. Disseram-nos que não, nunca o tinham visto por lá.
Nunca mais o vimos nem sequer ouvimos falar dele. Mas, mais de trinta anos passados sobre este episódio, ainda continuo a pensar, de vez em quando, neste rapaz. Nunca lhe soube o nome, mas baptizei-o de “Herói “, pois deve ter sido o que ele foi para os seus irmãos.
Quanto eu não daria hoje, para ter tido então, a presença de espírito de não o ter deixado ir embora assim…

 

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