O Homem sem Leme

João comprou um bilhete só de ida. Não sabia quanto tempo teria de ficar… em princípio seria apenas para uma meia dúzia de dias, mas ele sabia bem como funcionavam ou, mais precisamente, não funcionavam as coisas em Portugal. A probabilidade de ter que ficar muito mais tempo era grande. Comprou qualquer coisa para comer, já passava das cinco da tarde e o jantar de ontem tinha sido a última coisa a alimentá-lo. Estranho mesmo era não sentir a mais pequena fome. Mas também, desde que recebera o telefonema, não mais tinha parado. Para conseguir ir ao enterro de seu Pai e ficar uns dias a tratar do que fosse necessário , tinha que deixar tudo bem planeado na sua empresa. Delegou o máximo que conseguiu no Peter, atualmente o seu braço direito. Tinha confiança nele, no seu carácter e na sua capacidade de decisão sempre oportuna e acertada. Por várias vezes se provou indispensável na firma. João sabia que tinha tomado a atitude certa quando há um ano o tinha convidado para ser seu sócio. Três anos tinha sido tempo mais do que suficiente para perceber que Peter foi uma mais-valia para a projeção internacional da ALBATROSS, a sua companhia construtora de barcos à vela.
Passou por um Quiosque e comprou meia-dúzia de revistas e jornais. A viagem ía ser comprida. Primeiro de Comboio e depois Avião. João não gostava de aviões, ficava sempre muito angustiado antes de uma viagem, o que, para quem ganhava a vida a viajar quase metade do ano não dava jeito nenhum.
Apanharia em Oslo um voo para Madrid e daí uma ligação para o Porto. Foi o mais rápido que arranjou.
Ainda não tinha conseguido saber como o seu Pai tinha morrido. Foi encontrado pela Tia Lúcia – irmã dele – já morto, no chão da cozinha. Mas não lhe tinham dado mais pormenores. Na verdade, João também não tinha perguntado nada à Tia, quando esta lhe ligou. Limitou-se a ouvir, e depois a informar que no dia seguinte iria para Portugal.
Já há muitos anos que não falava com o Pai. Estaria ele já doente? Cancro? Coração? Um AVC? O que teria sido? Seu Pai tinha apenas 67 anos. 67… Isso não é ser velho, hoje em dia… Ficaria a saber como tudo se tinha passado quando chegasse a Portugal.
Tentou imaginar a cara do seu Pai, mas foi-lhe muito difícil. Os olhos, sabia bem que eram castanhos, mas o formato deles, as feições e expressão da sua cara estavam embrulhadas numa névoa que não o deixava vê-lo bem. Que estranho… Como era possível não se conseguir lembrar da cara dele? E João continuou a pensar no seu Pai. Há vinte e sete anos que não o via. Tentou lembrar-se da sua voz, também não o conseguiu. Fez um esforço para visualizar um sorriso, uma gargalhada, uma fala que fosse, do seu próprio Pai e nada lhe vinha à memória.
Como tinham chegado a esse ponto? Onde tinham ultrapassado o ponto de não-retorno? João, lentamente e ainda inconscientemente, começou a interiorizar uma dúvida sobre o seu Pai que, até agora, lhe tinha sido indiferente: quereria tê-lo conhecido melhor? Poderia ter conseguido gostar dele? Alguma vez o seu Pai tinha gostado dele?
Abriu o seu Tablet e procurou a pasta onde tinha guardado todos os documentos. Os seus e os do seu Pai. Precisou disso quando teve que fazer uma procuração em nome dele para que fosse possível passar a Casa da Lage para o nome da Tia Lúcia.
João selecionou a cópia do Bilhete de Identidade do seu Pai e ampliou o mais que conseguiu a fotografia, sem ficar distorcida. Já era uma fotografia a cores. Estava com uma cara séria, fechada. Cabelo ainda farto, bem cortado, já com muitas brancas, assim como a barba, muito bem aparada. Os olhos estavam semicerrados, percebia-se que estava desconfortável a olhar para a Camara Fotográfica. Nem um esboço de um sorriso, a cara dele estava… triste? Sim, definitivamente era uma expressão triste, a dele. Curioso como nunca tinha pensado na possibilidade de ele ser triste. Por defeito, pensava sempre no Pai no estado de zangado, zangado com tudo e todos e muito particularmente com ele, com o próprio filho.
No mês passado tinha feito vinte e sete anos que João tinha chegado à Noruega, com 500 coroas no bolso e uma mala com tudo o que era importante e necessário para ele. Tinha agora 47 anos de idade. Quando tomou a decisão de sair de Portugal, logo a seguir ao acidente fatal dos seus Avós, nunca mais olhou para trás e não hesitou por um segundo que fosse. Em duas semanas preparou-se para uma nova vida que escolheu ser vivida na Noruega. O dinheiro que tinha guardado no Banco, religiosamente poupado mês após mês pela sua Mãe – expressamente para o seu filho – enquanto foi viva, ajudou-o a aguentar-se no início do seu tempo na Noruega. Os primeiros anos não foram fáceis. Teve que trabalhar para conseguir tirar o curso que escolheu, o de Ship Designer na Universidade de Àlesund, uma cidade portuária pequena mas moderna, Norueguesa. Não foram poucas as vezes que se sentiu sozinho e desapoiado num país que ainda não era o seu. Mas, devagar, foi construindo o seu círculo de amigos e a sua vida profissional foi desabrochando, determinadamente, em direcção ao sucesso que tinha hoje em dia. Quando decidiu que já era tempo de se lançar sozinho na construção de barcos de recreio, mudou-se de armas e bagagens para Kristiansand, uma cidade mais a Sul do seu país de adoção, maior e também com um Porto de Mar. O seu Gabinete de Arquitectura Naval era agora dos mais conhecidos e procurado, internacionalmente, por clientes particulares de todo o mundo. A sua assinatura fazia parte de muitos projetos de excelência: Iates e Veleiros, eram a especialidades deles, integralmente construídos pela sua empresa desde a conceção até à entrega ao cliente. Só faziam por encomenda, e nos próximos seis anos já não aceitavam mais nenhuma. Já não o podiam fazer.
Desde criança que João tinha esta paixão por barcos. As suas primeiras recordações enquanto gente, talvez com três, quatro anos… era de estar na proa de um moliceiro. Sabia que era um Moliceiro porque se lembrava bem do formato típico, dos desenhos e cores da bonita proa. Sentia o vento salgado e húmido na sua cara, a camisa esvoaçava-lhe das costas, os seus cabelos, eternamente cortados à tigela, num redemoinho só …. e sentia-se feliz! Impressionante como conseguia lembrar-se que sentia uma enorme felicidade em estar ali… com o Avô, sentia-se seguro, quase como se fosse alguma espécie de tréguas de sentir medo, o que quereria dizer?
E os barcos fizeram sempre parte de toda a sua vida, e até foram mesmo a sua vida. Durante as férias escolares, acompanhava sempre o Avô paterno na viagem diária que ele fazia para as suas Salinas pela Ria de Aveiro, na ida para trabalhar e na volta quando terminava de fazer o que era preciso. João com 9 anos já ficava a tomar conta do leme, e nunca tinham tido nenhum percalço. O canal da Ria não tinha segredos para João. Conhecia bem o seu traçado e informava-se sempre com os pescadores locais, seus grandes amigos, sobre os bancos de areia que se podiam formar de um dia para o outro, depois de alguma tempestade ou conforme as marés. João sentia-se um verdadeiro homem do Mar…
João não se lembrava da sua Mãe. Sabia apenas que tinha morrido quando ele ainda nem tinha completado os quatro anos de idade. Toda a sua infância sentiu a falta dela. Foi muito duro perceber que era o único em toda a sua Escola que não tinha Mãe. Viveu sempre com os seus Avós paternos. Quanto ao seu Pai, era mais o tempo que estava imigrado do que em casa. Era carpinteiro de profissão e, segundo o seu Avô lhe dizia, era muito competente. A sua Avó tinha sido o que mais se aproximava de uma figura materna, tão necessária na vida de qualquer criança, como futuro adulto a ser… Tinha sido também ela que lhe contou como a sua Mãe gostava dele e como ela era bonita e muito bondosa. João conhecia bem a sua Mãe, mas apenas através dos olhos e palavras da Avó Margarida. Tinha ficado muito doente, e viveu os últimos meses da sua vida, já acamada, a amar o filho e a pedir a toda a sua família para que o amassem muito! Só se deixou morrer descansada quando obteve de todos essa promessa. João, enquanto pequeno, pedia frequentemente à sua Avó Margarida para lhe contar a história de “Quanto a tua Mãe gostava de ti !” Como ele gostava de a ouvir! Era a sua favorita… depois de terminar, a sua Avó dava-lhe um beijo de boa-noite, afagava a sua cabeça, puxava os lençóis e cobertores bem para baixo do seu queixo, tapando o seu pescoço franzino e dizia:”-Dorme bem, meu amor, a tua querida e tão bonita Mãe, que te adora, está a olhar para ti lá do Céu…”
E João sentia que as estrelas lhe enviavam esse olhar carregado de amor lá de cima, e adormecia feliz e aconchegado a pensar na sua bonita Mãe que gostava tanto dele… Tinha guardado debaixo da sua cama uma caixa de folha, decorada com flores, com algumas coisas que tinham pertencido à sua Mãe: uma tesourinha de metal, uma pulseira de contas, um relógio de pulso -ainda de dar à corda – que tinha uma original e bonita bracelete de elástico castanho, um caderno de capa de cabedal com umas anotações que o coração de João sabia de cor e salteado: eram frases soltas de um registo do seu próprio desenvolvimento, desde o dia em que tinha nascido. Por esse caderno, escrito pela sua Mãe, João sabia quando tinha tido o seu primeiro dente, quando se sentou sozinho ou então como tinha detestado a primeira vez que provou uma sopa. As primeiras palavras dele também lá estavam registadas, a primeira que aprendeu foi “Mamã”, a segunda foi “Cão”. Também lá havia um pequeno necessaire com baton e outras coisas muito esquisitas que a Avó lhe dissera serem para a sua Mãe se pintar. Essas coisas tinham um cheiro desagradável, cheiravam a pó velho. A Avó tinha-lhe dito que era normal não cheirarem bem, eram já velhas! E finalmente, o objecto preferido dele: uma fotografia da sua Mãe: era a preto e branco, um pouco distante da lente fotográfica, mas João conseguia ainda assim ver bem como ela era bonita! E tão sorridente… Tal qual a sua Avó lhe assegurava. Estava num sítio que devia ser alto, talvez uma montanha… atrás dela havia uma Igreja gigante rodeada de frondosas e altas árvores e à frente da Mãe, um pouco para o lado esquerdo da fotografia, estava um homem de chapéu, com uma máquina fotográfica de tripé ao seu lado e um cavalo! João não se cansava de olhar para o cavalo. Era de madeira, grande, com arreios que deviam ser coloridos, crinas e rabo compridos e até tinha estribos de metal brilhante… deviam ser em ouro! Na sua fértil imaginação, João já tinha galopado quilómetros sem fim, sentado na sela de couro que imaginava ser vermelha, deste cavalo. Era como se fossem já amigos, e o cavalo não se cansava nunca de o ajudar a ir a galope ter com a sua querida Mãe…
E João, já dentro do seu avião em direcção ao Porto, sorria a pensar nestas coisas que faziam parte da sua infância. Já nem se lembrava onde tinha a tal caixa. Tinha-a levado para a Noruega, devia estar no fundo de algum arrumo lá em sua casa de certeza… já com três mudanças de casa por sua conta, ainda havia algumas caixas com tralhas suas ainda por abrir…
E voltou a pensar no seu Pai. Devia sentir alguma espécie de pena, ou algum desgosto por saber que ele tinha morrido, mas nada sentia, para além de uma ligeira curiosidade… o que teria acontecido?
Nunca se tinham dado bem. João, ainda pequeno, sentia-se mais ligado ao Avó do que ao seu Pai. Quando ele voltava das suas viagens e trabalhos, vinha sempre cansado e eram-lhe dadas instruções para não o incomodar, para não fazer barulho e não entrar no quarto dele. João, ainda pequeno, não compreendia porque é que o seu Pai ficava dias seguidos, por vezes chegava a ser uma semana inteira, fechado no seu quarto, sem ruído, sem luz e só com a entrada esporádica e sempre silenciosa da sua avó com uma tigela de caldo que, normalmente, voltava ainda quase cheia na próxima vez que a sua Avó lá ia. Diziam-lhe que ele sofria de enxaquecas, mas João achava que o seu Pai era mau e não queria era vê-lo, ao seu próprio filho… quando supostamente ficava bom, era dia de voltar a viajar! João não conseguia deixar de pensar que não fosse propositado…. E cresceu a pensar assim, o seu Pai não gostava dele!
Tudo piorou quando João atingiu a adolescência. Seu Pai continuava a vir muito pouco a casa e quando vinha, invariavelmente, ficava com uma tremenda enxaqueca. E, infelizmente, habituaram-se os dois a isso. Apenas se cumprimentavam e trocavam meia-dúzia de palavras:
“- Como vai a Escola?”
“- Vai bem, obrigado. Continuo a ser o melhor aluno da turma”
“- Muito bem, João! Fico contente com isso”
Mas os seus olhos não refletiam contentamento nenhum, mostravam antes uma grande atrapalhação por falar com o filho, por enfrentar o seu olhar arrogante e cheio de desprezo pelo próprio Pai… e João já sabia o que acontecia a seguir, uma desculpa qualquer para saírem da frente um do outro. E era então que a expressão do seu Pai ficava zangada.
A vida não os tinha ensinado a serem Pai e Filho. Passou ao lado deles, provavelmente ocupada em ensinar outros que não eles.. porquê? O que tinha feito de errado? Teria o Pai dele, o seu Pai, vergonha do filho? Acharia ele insuportáveis as suas cicatrizes? João já nem reparava nelas, quando se olhava ao espelho. E os amigos e conhecidos dele afirmavam que depois de o conhecerem melhor, se abstraíam das marcas que ele tinha na cara. Por isso, João não perdoava ao seu Pai. No fundo, no fundo, era o que João sentia sempre que o Pai olhava para ele: a repulsa e negação das suas cicatrizes.
Os seus Avós tinham-lhe contado como tudo aconteceu: quando ele tinha três anos, tinha caído um aquário de vidro em cima dele cujos vidros lhe rasgaram a pele da sua cara, mãos e braços em dezenas de cortes, mais ou menos profundos. Ficou internado no Hospital de Aveiro mais de dois meses, coseram-no com muitos pontos e os Médicos tiveram que lutar com uma grande infecção generalizada que quase acabou com a sua vida. João não se lembrava absolutamente de nada! A sua Avó costumava dizer-lhe que Deus sabia fazer bem as coisas, principalmente com os meninos:
“-Se não tinha sido uma coisa boa, Deus fazia com que não se lembrassem de nada!”
Chegou finalmente ao Porto. Sem se querer chatear a pensar em transportes, entrou no primeiro táxi livre que encontrou e pediu ao motorista que o levasse para a Gafanha do Carmo… perto de Aveiro.
O taxista, depois de um par de perguntas feitas a João às quais teve outro par de respostas lacónicas, percebeu que o cliente não era de muitas falas e continuou a viagem calado, deixando João entregue aos seus pensamentos.
Porque seria que o seu Pai não gostava dele? Ou seria ele próprio que não gostava do seu Pai? Fez um esforço grande tentando recordar-se quem tinha começado primeiro a detestar o outro. Mas não conseguia lembrar-se. A única coisa que lhe vinha ao pensamento era que culpava o seu Pai pela morte da Mãe. Não sabia muito bem como, mas achava que a Mãe tinha morrido por culpa do Pai. Coitadinha da Mãe, o que ela deve ter sofrido para aturar um homem como ele… E essa convicção tinha crescido dentro dele, sem que ninguém se apercebesse, desde muito pequeno. O mal que isso lhe tinha feito … crescer a culpar o Pai de ter morto a sua própria Mãe!
Chegou à Gafanha, e deu indicações ao Taxista para se dirigir ao bairro onde ainda vivia o seu Pai, depois de reformado.
Meu Deus! 27 anos depois e tudo lhe parecia ainda igual… a venda da D. Goretti, a Padaria Moderna – que de moderna só tinha o nome, pois a fachada do prédio parecia na eminência de cair a qualquer momento, o talho do Sr. Cunha, um grande amigo de seu Pai e a Tasca da Ria, esta última onde João tinha passado muito tempo, sempre na companhia de seu Avô.
Fez as contas com o Taxista, despediu-se dele e quando ia decidir o que fazer para entrar em casa do Pai, sai da Venda da D. Goretti a sua Tia Lúcia.
“-Olá João. Estava aqui a ver se chegavas.”
“-Olá Tia Lúcia. Como está?”
“-Como estou? Estou triste, como achas que eu devia estar? A saltar e a cantar, depois de ter encontrado o teu Pai mortinho da vida, todo espalmado no meio do chão?? Oh rapaz! Ainda não ganhaste juízo, lá pelas Américas?”
“A Tia Lúcia no seu melhor: antipática e burra até dizer chega. Não tinha melhorado nem um pedaço…” – pensou ele.
“- Eu não vivo nas “Américas”, Tia…. mas também não estou interessado na conversa, queria a chave de casa para entrar, onde está ela?”
“- Toma, aqui a tens… continuas o mesmo arrogante de sempre! Arre, que raio de sobrinho me calhou na rifa! Porque nunca vieste visitar o teu Pai? Achavas que ele ía viver para sempre, era? Agora, PUFF! Lá se foi o teu Pai desta para melhor e tu nem te despediste dele… que rico filho ele tinha, não haja dúvida!”
“- Tia, não fale do que não sabe e veja lá, faça um esforço para ser mais simpática… olhe que tanta amargura lhe faz mal aos fígados! Obrigado pela chave e até amanhã..”
E João, ao mesmo tempo que dizia isto, já tinha aberto a porta e com o seu corpo, impedia a Tia de entrar em casa. Não estava mesmo com pachorra para a aturar.
Já do lado de dentro, tentou fechar a porta mas a Tia Lúcia, travou-a com a ponta do seu pé enfiado num chinelo de cabedal, dizendo, ou antes, berrando:
“-Raio do rapaz! E não achas que precisas de saber que o teu Pai vai ser autopsiado e que, por isso, o enterro só vai ser depois de amanhã às 10h00??! Afinal de contas vieste cá fazer o quê, se não foi para o enterrar? Deves achar que vais receber alguma fortuna, não é? Háháhá, olha que podes já tirar o cavalinho da chuva e esperar sentado: o teu Pai era chapa ganha, chapa gasta! Nunca percebi onde gastava ele todo o dinheiro da reforma! No banco quase não há dinheiro…”
João lá conseguiu por fim fechar a porta e com isso ficar isolado da voz esganiçada e desprezível daquela Tia insuportável..
Olhou à sua volta. Parecia-lhe tudo na mesma. Subiu as escadas e entrou no seu antigo quarto. Ficou espantado com a ordem e a limpeza que lá encontrou. A cama estava feita e sentia-se o cheirinho a detergente da máquina da roupa. Os lençóis tinham sido mudados recentemente! Não havia pó no quarto. Até as cortinas estavam primorosamente escovadas e os tapetes bem batidos e aspirados.
Que estranho, João não imaginava a chata da Tia a dar-se a esse trabalho todo.. mas só podia ter sido ela, ou pediu a alguém que o fizesse.
Poisou a sua mala e foi inspecionar o resto da casa. Tudo estava limpo e em ordem. O quarto de banho estava mesmo imaculado. O quarto do Pai já tinha alguma desordem à vista, gavetas meias abertas e livros da estante fora de sítio. A roupa de cama estava toda remexida e o colchão não estava bem encaixado no estrado, deixando à mostra algumas ripas de madeira.
Parecia que alguém tinha andado lá à procura de alguma coisa… Pois claro, só podia ter sido a Tia Lúcia! Que grande lata ela tinha… os anos que passaram por ela não lhe tinham trazido nenhum juízo!
Desceu até à cozinha e tal como no quarto, os armários e as gavetas que lá existiam tinham sido todas remexidas. Igual na sala, a mesma vistoria tinha por lá passado também.
Aquela víbora não tinha encontrado nada, por isso estava naquela fúria toda… João riu-se sozinho, bem feita para a Tia!
Foi ao frigorífico ver o que arranjava para comer, juntou mais umas coisas de um dos armários da cozinha e conseguiu preparar uma refeição ligeira e beber um chá verde de um frasco que lá encontrou.
Agarrou-se ao seu computador portátil e tratou de acabar uns e-mails que deveriam seguir hoje sem falta para uns clientes. Depois disso ficaria livre por uns dias de qualquer assunto da sua Empresa. Peter trataria de tudo o resto. Quando se preparava para encaixar a Pen para a Internet portátil que tinha comprado no Aeroporto, reparou que tinha sinal de internet… o seu Pai com Internet em casa?? Que coisa mais estranha… não o imaginava nada a usufruir dessas “modernices”… procurou o Modem, introduziu a palavra-passe que aparecia por baixo e nada: “Palavra-passe errada”….
Pois claro, o seu Pai devia tê-la mudado para uma qualquer, desde que fosse pequena, sem nexo e sem necessidade nenhuma… para que precisava o seu Pai de internet? E onde iria agora descobrir a senha? Deu uma vista de olhos por uma gaveta da cómoda da sala que estava cheia de papelada, garantias, peças de substituição e Extratos Bancários!!
“Tia Lúcia, Tia Lúcia… foi aqui que descobriste que o teu irmão não tinha dinheiro… Háháhá…”
E desistiu da senha, era como se tentasse encontrar uma agulha num palheiro…
Sentou-se de novo e, distraídamente, escreveu a senha que usava em sua casa: albatroz. E o seu computador validou a palavra…
Impossível! Não podia acreditar que era precisamente essa a palavra-passe que o seu próprio Pai tinha em casa! Mas não havia engano, lá estava o sinal a confirmar o facto, no ecrã do seu portátil… Que estranho, que grande coincidência, ou não seria? João tinha o Albatroz como o seu animal preferido, sabia tudo sobre eles, os seus costumes, o seu habitat natural, e que acasalavam para sempre… e que esse “sempre” podia ir até aos trinta ou quarenta anos! O Albatroz era um animal majestoso, digno de admiração.
Na verdade, João tinha querido usar a palavra Albatross, nome da sua empresa, mas, por uma questão de segurança decidiu traduzi-la para português. Dificilmente alguém na Noruega conseguiria perceber isso…
João nunca tinha acreditado em coincidências, as coisas que aconteciam acabavam por ter sempre uma explicação, justificava-se o que de início podia parecer inexplicável, mais tarde ou mais cedo. E sobre este caso de as duas senhas serem iguais, mais tarde pensaria nisso, e mais tarde ficaria a saber o que o explicava.
Acabou o trabalho e forçou-se a não pensar mais na sua empresa.
Sentindo-se cansado, preparou-se para dormir no seu quarto. Teve alguma dificuldade em adormecer, estava dividido, com sentimentos opostos. Sentia-se bem na sua antiga cama, mas essa sensação, ao mesmo tempo, trazia-lhe más recordações. A sua cabeça fervilhava de pensamentos, sentia-se sozinho, queria que a Maria estivesse consigo. Precisava que ela o ouvisse como sempre o fazia: atenta, carinhosa e objectiva quando lhe pedia a sua opinião, mesmo que fosse contrária à sua, sabendo até que o ia chatear…
“Maria, Maria! Onde estás tu? Precisava que estivesses ao pé de mim, precisava de ouvir a tua voz que sempre me acalmou e sempre me trouxe paz…, precisava do teu abraço prometido para sempre, agora”
Mas João sabia bem que isso já não era possível. Maria estava longe, fisicamente e muito provavelmente já longe do seu coração. Tinham decidido que não podiam continuar, que não era assim que as coisas deviam ser. Nada era natural e saudável na pseudo-relação que mantinham desde que João se tinha mudado para Kristiansand. No princípio tudo tinha corrido bem, mas a resistência de Maria em vir também para Kristiansand acabou por estragar tudo. Nunca era a altura certa, ou seria depois disto, ou então depois daquilo, ou tinha que acabar primeiro o trabalho que tinha em mãos ou simplesmente porque não estava preparada. Preparada para quê? Se gostavam um do outro, se se identificavam em quase tudo o que pensavam, o que conversavam, o que gostariam de fazer juntos, para que era preciso tanta preparação? O ter medo de ser magoada? O não querer ficar dependente depois de tantos anos a ser ela própria a mandar na vida dela? João fartou-se de lhe garantir que nada disso iria mudar, cada um continuaria a fazer o que bem lhe apetecesse da sua vida. Simplesmente usufruiriam juntos do muito que ainda tinham para viver. Maria pedia-lhe paciência. João não percebia para que a tinha de ter… e não aceitou esse meio termo de vida adiada com Maria. Não era isso que queria. Ainda hoje, passado pouco mais de um ano, João tinha que fazer um esforço para não esquecer o egoísmo incompreensível da Maria.
Mas tinha saudades, muitas saudades das conversas que tinham juntos. Tudo parecia fluir com eles de uma maneira que João jamais tinha experimentado. Conseguia perceber que poderia existir entre eles uma entrega e uma comunhão total como uma coisa muito rara. Meu Deus, se foi para ficarmos separados, porque nos mostraste tanta cumplicidade e alegria ao estarmos juntos? Porquê? Qual foi o propósito de tudo isso?
O coração de João hoje estava a transbordar de dúvidas…. sobre o seu Pai, sobre a Maria, sobre o que poderia ter sido a sua vida com estas duas pessoas unidas a si, uma como um verdadeiro Pai e outra como uma companheira sempre presente.
Pensando nisto, a ficar triste, João acabou por se deixar adormecer.
Os dias que se seguiram correram a um ritmo alucinante. O corpo do seu Pai, depois de autopsiado, só foi libertado ao final de mais quatro dias. João conseguiu uma cópia do Relatório-preliminar da Autópsia graças à ajuda de uma antiga colega de escola que era médica no Hospital. O seu Pai tinha morrido por causa do rebentamento de um aneurisma. Mas o Médico-Legista fazia várias observações ao facto de ser extraordinário a quantidade de aneurismas que ele tinha, muitos deles já com muitos e muitos anos! A surpresa do Médico era como tinha sido possível sobreviver tanto tempo com o cérebro tão “armadilhado”. Alguns já deviam existir há mais de 40 anos…
João, pragmático como era, sentiu justificada finalmente as tais enxaquecas de que o Pai sofria… e de alguma forma as viagens de avião, com as alterações da pressão atmosférica que inevitavelmente sofria nos voos, provocavam as crises que ele tinha, sempre que vinha a casa… Mas nem o facto de saber isso o comoveu, ainda reprovou mais o seu Pai por não ter consultado nenhum Médico especialista. A falta de dinheiro nem sempre justifica tudo. O que teria sido poupado em termos afectivos se ele se tivesse tratado… Por amor de Deus: o Pai era responsável também pela manutenção da sua boa saúde! Tinha um filho pequeno para educar, amar e dar atenção. Não fez nada disso ao ter-se desleixado… e o resultado foi o desapego e a separação afectiva e física de ambos. João não conseguia sentir a indiferença que passava para fora, dentro do seu coração. Tanta e tanta mágoa contra o seu Pai. Maria um dia disse-lhe que se calhar João tinha que conhecer melhor o seu Pai, tentou convencê-lo a conversar com ele e perguntar-lhe tudo o que ficou por explicar sobre ele próprio, que talvez ficasse a saber o que realmente representava para ele… João tinha perdido as estribeiras quando Maria lhe disse isso, zangou-se e ficou mais de duas semanas amuado, sem aparecer ou responder a qualquer telefonema ou mensagem de Maria. Só ele próprio sabia como tinha sido o seu Pai e o não-relacionamento de ambos.
Mas hoje, com muitas dúvidas dentro de si, já não sabia se Maria teria razão afinal… e agora, já era tarde demais para mudar as coisas.
A Missa de corpo presente foi na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Encarnação. Estava lá a sua Tia Júlia e quase todos os vizinhos de seu Pai. A cerimónia foi simples e o corpo ficou em campa rasa no cemitério da freguesia, no mesmo talhão do cemitério onde estavam enterrados os seus Avós, juntos. Tudo foi calmo, com excepção de uns gritos histéricos da sua Tia, que condiziam na perfeição com o seu carácter. João tinha a certeza que ela até tinha treinado em frente ao espelho este papel de carpideira. Mas ninguém lhe ligou, e o Padre que presidia à Missa, lançou-lhe uns olhares e carregar de sobrancelhas na sua direcção ao mesmo tempo que fazia uma pausa, até ela perceber a mensagem e se sossegar. Que hipocrisia, pensava João! Tinha passado estes dias a evitar estar com ela. Não conseguia aturá-la mesmo.
Quando tudo acabou, depois de se despedir dos amigos e vizinhos de seu Pai, João voltou para casa.
Pronto, tudo estava terminado. E também tinha conseguido tratar de tudo nas finanças. Procurou um Advogado, passou-lhe uma procuração com plenos poderes para passar a casa para seu nome e tratar de todos os trâmites legais necessários. Fechou a conta Bancária do seu Pai e transferiu o pouco dinheiro que lá tinha para o tal Advogado e juntou mais algum seu, conforme calcularam que fosse preciso para tratar de tudo.
Contratou uma mulher da vizinhança para ir uma vez por semana arejar a casa, e mantê-la limpa e arrumada, era a D. Conceição que se ofereceu também para tratar da campa do seu Pai e da dos seus Avós, todos os Sábados.
-” Para quê? ” perguntou-lhe João..
-“Então! Para não parecer mal… olhe que o seu Paizinho tinha sempre a campa dos seus Avós muito bem arranjadinha…”
E João lá anuiu… pouco lhe importavam essas coisas, se ela se ofereceu então não seria ele que a impediria.
Voltou para casa, deixando, como de habitual, a sua Tia Lúcia a falar para o boneco e começou a arrumar as suas coisas para conseguir voltar para a Noruega amanhã ou depois de amanhã o mais tardar. Depois do almoço compraria, através da Internet, o seu bilhete de volta.
Depois de ter comido, soou a campaínha da porta.
-“Deve ser a Tia Lúcia: chata como a potassa!” Não via a hora de se ver livre dela! Abria-lhe a porta? Não, que ficasse especada à porta que ele não iria abrir…
Mas passado uns minutos, demasiados para a impaciência da sua Tia, voltou a ouvir a campaínha. Se fosse a sua Tia, não largaria o botão até que ele abrisse a porta. João foi ver quem era e encontrou o Sr. Cunha, do talho, à sua espera.
-“Sr. Cunha! Entre por favor… ía mesmo agora fazer café… Quer tomar um comigo?”
-“Obrigada, João… mas vim só trazer-te este envelope. O teu Pai, já há uns tempos que mo tinha dado pedindo-me para to entregar quando ele morresse e apenas depois do seu enterro. Aqui estou eu a cumprir a promessa que lhe fiz: toma, é teu. Até logo, vêmo-nos por aí…”
“-Acho que não, Sr. Cunha, devo ir embora amanhã…”
“- Não vais não, João… não depois de veres o que está aí nesse envelope” – e o Sr. Cunha sorriu… um sorriso ao mesmo tempo misterioso e triste.
João agradeceu e fechou a porta da agora sua casa. Sentou-se na mesa da cozinha, poisou o envelope à sua frente, adoçou o seu café, mexeu-o lentamente, muito pensativamente, e não conseguia tirar os olhos do envelope. A letra, que João reconheceu como sendo a do seu Pai, dizia:
“Para o meu filho João
(Abrir só depois da minha morte)”
O envelope era dos almofadados e pequeno. O papel pardo, e as letras estavam manuscritas em tinta castanha, pelo seu Pai. João leu e releu as palavras “Para o meu filho João…” que sensação estranha, até parecia que o seu Pai tinha assumido finalmente a sua paternidade ao escrever “o meu filho”… João sabia que era um disparate pensar nisso agora, mas a verdade é que nunca o Pai lhe tinha chamado de “meu filho”. Nem sabia se gostava ou não desse tratamento. Estava a sentir-se um bocado desconfortável, ou seria sensibilizado? Comovido?
Nããã… nada disso! Devia ser mesmo surpresa, decidiu ele.
Abriu a carta e de imediato caiu-lhe uma chave de ferro no colo. Era uma chave velha, pesada, escurecida e com muito uso. João espreitou para dentro do envelope e tirou de lá uma folha de papel que leu de imediato:
“João, meu filho,
Esta é a chave de um armazém de que sou proprietário (no momento em que estiveres a ler esta carta, já serás tu o dono).
Tudo o que lá está te pertence e tudo o que agora te pertence foi feito com sacrifício, prazer, muito tempo e principalmente com muito amor, para ti.
Nunca o soube demonstrar, mas sempre te amei e sempre senti um orgulho imenso em ti, meu filho. Não consigo imaginar nenhuma maneira de te pedir perdão pelo tanto que nós os dois perdemos em companheirismo, amizade, apoio e cumplicidades próprias entre Pai e filho. Fui incapaz de te cativar… pensar nisso foi a minha angústia diária, o meu eterno castigo, sem um único dia de descanso. Deus é testemunha do meu desgosto.
O armazém fica na Avenida José Estevão nr 107, na Costa Nova. Fala com o Cunha que ele te diz onde tenho ancorado o barquinho a motor que costumo usar para lá chegar mais rápido.
Vais dar pela falta de duas peças muito importantes. Foi de propósito, quero que sejas tu a providenciar essas peças. Onde quer que eu esteja, saberei que, ao completares tudo, me estás a enviar um sinal que me perdoas e que encontraste um rumo e estabilidade emocional para a tua vida.

Adeus filho,
do teu Pai que sempre te amou mas que nunca conseguiu descobrir o caminho para te abraçar e o dizer”

E João, atónito, não conseguia sequer pensar direito: isto tinha sido escrito pelo seu Pai? Não.. impossível! No entanto.. para ser uma partida não tinha nem piada nem fazia sentido nenhum! Que estupidez: claro que tinha sido o seu Pai a escrever, então se era a letra dele!
E João não sabia o que pensar. O seu Pai pensava nele, como filho, de vez em quando? Isso é que era uma novidade para ele. Mas pensar nele não era suficiente. Ser Pai dele, verdadeiramente, é que tinha sido o que João sempre precisou, e nunca teve. E o mal que ele tinha feito à sua Mãe? Não se podia esquecer disso, não era hora para amolecer com palavras doces…
O que estaria no tal armazém? João conhecia bem a Costa Nova. Ficava em frente à Gafanha, mas do outro lado da Ria. Iria lá amanhã inspecionar o tal armazém. Caramba! O Sr. Cunha estava mais do que certo: depois de receber o envelope não manteria a viagem de regresso à Noruega no dia seguinte. João avisou – por e-mail – Peter que ainda se ia demorar um par de dias mais em Portugal. Assuntos por resolver…
No dia seguinte, de manhã cedo, foi ao talho do Sr. Cunha e recebeu as indicações necessárias para conseguir usar o barco que o seu Pai tinha mencionado na carta. Era uma lancha pequena, mas com um bom motor e, como tudo o que pertencia a seu Pai, estava muito bem arranjada e limpa. Pegou à primeira. E João lá seguiu para a Costa Nova. O dia estava bonito, céu de um azul luminoso, límpido, apesar do vento que soprava do Norte. O percurso não foi longo, mas despoletou imensas recordações. Tantas e tantas vezes navegou por esta Ria com o seu Avô … As saudades dos seus Avós não tinham nunca um fim à vista. Que falta lhe fizeram os dois! Já tinham passado quase 30 anos e João ainda sofria a pensar nos dois, afogados na lama, presos dentro do carro, numa das Salinas que enquadravam a estrada de Aveiro para a Ponte da Barra. Foi numa noite tempestuosa que tinham sofrido um despiste, provocado por um lençol de água na estrada. Tinha sido tudo o que a Polícia lhes disse.
Atracou o barco no Clube de Vela, no lugar indicado pelo Sr. Cunha como sendo o do seu Pai.
Depois de tomar um café no Bar do Clube, saiu à procura do agora seu Armazém.
Como estava tudo mudado! Casas diferentes, estradas novas, muita gente, apesar de ser o mês de Maio… e lá estava o Palheiro José Estevão: esse estava igual: Imponente, pintado às riscas pretas e cor-de-vinho, com uma tinta que protegia a sua madeira da humidade.
Lembrava-se de o seu Avô lhe dizer que este já não era o Palheiro original, mas que tinha sido construído por cima de um outro que estava coberto por areia. Em pequeno, quando ouvia essa história, João imaginava um Palheiro equilibrado em cima de outro exactamente igual… e achava que se calhar era um desperdício terem desaproveitado o de baixo: se ele fosse o dono, agarraria numa grande pá e escavaria toda a areia à volta do Palheiro mais velho! Assim não precisaria de construir um novo.
Continuou a percorrer a Avenida José Estevão até chegar ao número 107, que já tinha memorizado. Era um grande armazém! Alto e próprio para guardar barcos e apetrechos de pescadores. Havia alguns assim na Gafanha e em Ílhavo. Foi já sem surpresa que João constatou o óptimo estado do exterior do Armazém. Já se tinha habituado à ideia de que o seu Pai gostava que tudo estivesse impecável, limpo e bem conservado.
Enfiou a chave na fechadura e depois de dar as duas voltas necessárias abriu a porta pequena inserida na grande, que era de madeira forte e segura. Entrou e sentiu o frio que vinha de dentro. Esperou que os seus olhos se habituassem um pouco à escuridão e com a ajuda da luz do seu telemóvel conseguiu descobrir onde se acendiam as luzes do Armazém. E acendeu-as…
E o que viu deixou-o sem fôlego. Pregado ao chão!
Diante de si, em cima de barrotes, estava o Veleiro mais bonito que João alguma vez tinha visto. Era como se fosse um sonho que se tivesse materializado à frente dos seus olhos, que beleza! Todo em madeira, desenho clássico, evidente construção artesanal e devia ter uns 56 pés de comprimento. Estupendo!
Aquela maravilha era do seu Pai? E agora seu? Era um sonho que João tinha arquitectado ainda apenas na sua cabeça, construir um Veleiro assim… mas nunca conseguiu sequer começar um esboço que fosse.
As suas mãos avançaram para o casco, acariciaram-no, deslizaram pela quilha, que era inclinada, e João pode sentir a qualidade da madeira utilizada, sem nós, compacta e de um castanho avermelhado do mais bonito que alguma vez tinha visto. Parecia-lhe Mogno Africano… João aproximou o nariz e sentiu o odor característico de um tratamento anti-fungos que se costuma fazer às boas madeiras para evitar a degradação do casco. Da proa à popa, as suas mãos apalparam a madeira sem sentirem nunca uma imperfeição sequer, João estava maravilhado. Levantou a cabeça e olhou para o mastro, a retranca, o spinner… nunca tinha visto tamanha harmonia de todos estes elementos com o casco! Usou as escadas que estavam encostadas à popa e subiu a bordo. O cordame todo bem enrolado, nos respectivos sítios. Adriças de trançado duplo, de óptima qualidade e resistentes. Nas velas recolhidas e bem acondicionadas, João reconheceu o melhor dos panos, de alta tenacidade modular, o mais caro também … E de novo admirou a excelente madeira, sem o mais pequeno defeito e com um acabamento de excelência! Tudo estaria na mais perfeita ordem nesse convés se não fosse a falta da peça mais importante: não existia a roda do leme! Umas das peças que o seu Pai tinha mencionado… pois claro! Qual seria a outra? Um barco sem acesso ao leme, João percebia bem a simbologia disso, podia-se ter tudo do melhor na nossa vida mas sem conseguirmos fazer escolhas do caminho a seguir, sem rumo definido, sem fé e determinação para alcançar os objectivos, de nada nos valia essas possessões, andaríamos apenas à deriva.
Desceu à cabine e de novo ficou espantado com o que viu. A madeira aqui já era de Carvalho Inglês, ligeiramente escurecido. Tudo era daquela simplicidade que transborda de elegância. Era uma cabine para seis pessoas, com quarto-de-banho fechado, chuveiro separado e cozinha de boas dimensões, totalmente equipada . Em nenhum dos seus melhores projectos tinha conseguido tão bom aproveitamento de espaço com tamanha mestria e com este resultado tão elegante. Tudo parecia ter sido feito nos anos 30, a década preferida de João no que se referia à construção de barcos, os grandes clássicos! Admirou as estantes, os candeeiros de biblioteca, os painéis forrados a tecido entre as prateleiras, as gavetas, os gavetões, os bancos, as vigias com os caixilhos em cobre, tudo tinha sido muito bem pensado e coordenado. A mesa do centro, com duas abas laterais, tinha embutido no seu tampo uma Rosa dos Ventos. Que beleza… Que trabalho minucioso! João estava maravilhado. Quem fez um entalhe destes, era o melhor artista de sempre! Tomara ele ter alguém assim a trabalhar para a Albatross… e foi então que João reparou no nome do Veleiro: Albatroz!
A palavra estava embutida a toda a largura da trave por cima das escadas de acesso ao convés, e mais uma vez o trabalho era de uma perfeição e beleza impares. A ladear o nome tinha, também em embutidos, dois albatrozes minuciosamente trabalhados. Claro… ficava assim explicada a senha da Internet de casa do seu Pai.
Mas quem teria construído este assombro de barco? Não podia ter sido o seu Pai… mas tudo fazia querer que sim. Sempre soube que ele era um bom carpinteiro, o Avô não se cansava de lhe dizer isso, mas daí a conseguir construir esta maravilha… tanta coisa que desconhecia sobre o seu Pai! Tinha de ter estado ligado à Industria Náutica, ninguém conseguiria construir esta perfeição sem ter conhecimentos profundos sobre veleiros.
Saiu do barco e entrou no que lhe pareceu um Atelier, a única divisão que o Armazém tinha.
Era todo envidraçado e de qualquer posição se via o Veleiro por completo.
As paredes do fundo estavam forradas a cortiça e totalmente cobertas de desenhos, artigos, fotografias, esboços e até de algumas aguarelas: só se via barcos, mais precisamente Iates de recreio, Veleiros de cruzeiro e de competição. João, aproximando-se mais um pouco, reconheceu todos os barcos, eram os que tinham sido construído na Albatross. Desde o primeiro, o que foi encomendado pelo Embaixador da Arábia Saudita na altura, até ao Veleiro de 30 pés que tinham entregue ao respectivo dono no mês passado.
Havia fotografias suas, particularmente nas inaugurações e lançamentos de barcos à água. Os artigos, alguns ampliados, eram todos sobre a sua Companhia. Havia mesmo, em grande destaque, a entrevista que tinha dado para a revista de barcos Inglesa, a “Classic Boat” sobre os Veleiros e Iates que construía na Albatross.
João, meio atordoado, ficou assim a saber que o seu Pai não só pensava em si como tinha orgulho em tudo o que ele fazia. Meu Deus, Meu Deus… mas porquê este desperdício em enormes mal-entendidos entre os dois? Quem nos deu este nó cego nas nossas vidas e as deitou a perder assim? João pensava na sua Mãe, na sua morte tão prematura. De alguma maneira sentia que a justificação do desencontro de si e do seu Pai vinha da Mãe, tinha que ser isso … a sua Avó, que conheceu bem a sua Mãe, contou-lhe como ela era uma mulher boa, meiga e sempre preocupada com ele, o filho. Se adoeceu, não foi propositadamente. Mas João sabia que o seu Pai nunca esteve presente a apoiar a Mãe durante a sua doença. Nunca a sua Avó o mencionou, em nenhuma parte das histórias que ela lhe contava sobre a sua maravilhosa Mãe, em alguma situação onde aparecesse ao lado dela. Não era preciso ser especialmente inteligente para se concluir que o seu Pai tinha desprezado a sua própria mulher, particularmente enquanto ela esteve tão doente e a sofrer tanto. Que tipo de homem uma atitude destas fazia dele? Um tipo desprezível…. um cretino.
E agora isto! Um Veleiro integralmente construído por ele, para si. A constatação do facto de que afinal o seu Pai gostava dele, que o admirava ao ponto de lhe seguir todo o seu percurso profissional, até mesmo antes, ainda na Faculdade, como testemunhava a fotografia da sua Universidade, do orgulho que todo este Armazém destilava por si, filho dele, entrava-lhe a rodos pelo seu coração dentro, mas não estava preparado para isso…
Porque sentia ele que alguma coisa estava muito errada na sua história?
Continuou a inspeccionar o atelier e debruçou-se no estirador. Encavalitados uns em cima dos outros, estavam os desenhos do Albatroz, com dezenas deles só de peças ou recantos da cabine ou outro qualquer pormenor em particular. O seu Pai era meticuloso, nada ficava ao improviso ou ao acaso. Nas margens das plantas e desenhos, estavam indicados os nomes dos materiais usados e até a sua proveniência e data de aquisição. João pôde verificar, com certo orgulho, que não se tinha enganado na sua primeira apreciação: a madeira do casco e do convés era mesmo Mogno Africano e a da cabine era Carvalho Inglês. Abandonou também a ideia que lhe tinha surgido de o Pai ter decidido construir este Veleiro depois de ver a sua entrevista, onde disse que o seu plano era construir o seu próprio Veleiro de sonho para si, pois foi concebido e começado a ser construído anos antes dessa sua entrevista. Tanta coisa a ter que ser processada na sua cabeça! João sentia o seu coração a querer acolher o amor de seu Pai mas, ao mesmo tempo, a sua cabeça não o deixava acreditar ainda sem restrições. Maria! Agora percebia como ela teve razão, quando lhe dizia que ele tinha muito que esclarecer com o seu Pai.
O que dava ele para a ter agora ao pé de si! Tanto para lhe contar, tanto para ela ouvir! Tanto para o confortar, tanto para a sentir…. “Maria, Maria! Por onde andas tu? Porque estás longe de mim?”
E João, deixando-se escorregar lentamente por uma parede abaixo, ficou sentado no chão, desorientado e fez o que não se lembrava de ter feito nunca: chorou! Chorou por si, chorou pelo seu Pai, chorou pela impossibilidade de nunca mais o ver, chorou pelos dois que jamais se abraçaram enquanto o podiam ter feito, chorou por ser tarde demais…
E chorou tudo o que a sua alma precisou de chorar.
Voltou, já quase à noitinha, para a Gafanha do Carmo. Tinha almoçado numa tasquinha perto do mercado da Costa Nova e ainda voltou para o Armazém. Lembrou-se que o Pai tinha mencionado a falta de duas peças no veleiro e só reparou na roda do leme. Quis ir de novo inspecionar o barco para perceber o que faltava ainda. Demorou algum tempo, mas acabou por descobrir. Apesar de a abita ter o cabo bem enrolado, não estava agarrado a nada, não existia o ferro no veleiro. Um barco sem âncora ficava incompleto, inseguro, sem possibilidade de fundear onde fosse preciso ou desejado. E de novo João percebeu a mensagem que o Pai lhe queria transmitir através desse tema da âncora e a falta dela na sua vida. João, na verdade, não tinha um porto seguro onde pudesse fundear… e muito menos a maneira de o conseguir fazer.

Não lhe saia do pensamento este novo Pai que andava a descobrir… amanhã falaria com o Sr. Cunha. Afinal de contas tinham sido os melhores amigos, alguma coisa mais ele lhe poderia contar sobre o seu Pai. E sobre a sua Mãe também. Para além do que a Avó lhe contou, João nada sabia de essencial da vida da sua Mãe, quem era a sua família, onde viviam, teria primos seus? Onde estava ela enterrada, como foi possível nunca saber isso?
“Há, Maria, minha Maria! Que incompleto sem ti me sinto, diz-me por onde te escondes tu!”

Foi uma noite de decisões para João. Queria a vida dos seus Pais esclarecida, tinha que planear o acabamento do Albatroz, e não via a hora de o velejar…
Já há três anos que não tirava férias, com excepção de uns poucos fins-de-semana mais prolongados. Iria fazê-lo agora.
A sua cabeça estava em modo turbilhão, tinha que desfazer muitos nós, dar uns laçadas novas e cortar os nós cegos que existiam na sua vida, de vez, para sempre.
Amanhã, logo de manhã, falaria em Video Conferência com Peter, resolveria com ele esta sua próxima ausência da Albatross. Tinha a certeza que com ele à frente da empresa, tudo correria bem.
Falaria também com o Sr. Cunha.
E com a cabeça mais descansada, com planos já traçados, adormeceu de cansaço. O dia tinha sido longo e com a descoberta do Albatroz, a emoção preencheu-lhe o seu coração, nunca dando tréguas… o seu estado de sonolência levou-o para dentro do Albatroz e mais uma vez João rejubilou ao pensar que era o dono de uma maravilha daquelas, mais: que ela tinha sido construída para si e a pensar em si. Sonhou que velejava, com o seu Pai, o seu Avô, o Sr. Cunha e a Tia Lúcia como tripulação. A Tia Lúcia não parava nunca de resmungar e, de repente, o Albatroz passou a ser um avião bi-motor e com excesso de peso a bordo. João, no meio de uma algarviada de queixumes da sua Tia, atirou-a pela borda fora, para equilibrar o peso do avião. Ficaram todos muito preocupados quando viram um tubarão com asas de águia, gigantescas, a apanhar a Tia Lúcia em pleno voo… e a preocupação era toda com o tubarão que se tinha engasgado quando tentou engolir a Tia… ainda se via os pés dela, calçados com chinelos, a espernear por entre os dentes do animal que tossia aflitivamente! Tiveram que o puxar para o avião e dar-lhe umas valentes pancadas no lombo, para ele não sufocar..
E de novo o Albatroz se modificou, passando a ser um comboio veloz que, com a mesma tripulação, atravessava montes, vales e até mesmo rios com o objectivo de chegarem rápidamente à Noruega e apanharem a Maria. Fazia muita falta, na tripulação, sem ela o barco (ou o comboio, ou o avião) não conseguia ir para onde João queria levar toda a gente. Mas esse lugar estava cada vez mais longe, cada vez mais inacessível … cada vez tinham que ultrapassar mais montes e montanhas, mas tinham que ir buscar a Maria rápido! A solução estava na Maria…
E de repente começaram a ouvir-se uns tambores, uns trombones, uns oboés estridentes… tudo ao mesmo tempo, sem ritmo nenhum, de ensurdecer!
E João acordou, assustado e estremunhado. E o barulho continuava, não era do sonho. Olhou para o relógio: oito da manhã! Quem seria assim tão cedo?
E então reconheceu o que lhe parecia um Oboé totalmente desafinado: a Tia Lúcia, afinal quem mais poderia atirar-se à sua porta aos berros e aos pontapés? A sua Tia querida, claro…
“-Já vai, já vai… aguente aí os cavalos!”
Quando abriu a porta, não conseguiu evitar um sorriso ao ver os pés dela enfiados nos seus eternos chinelos… e imaginou-os a saírem pela bocarra e por entre os dentes do tubarão…
“-Estás-te a rir de quê? Qual foi a gracinha?”
“-E a Tia Lúcia veio aqui esmurrar-me a porta, porque…?!?!”
“-Quero saber quando te vais embora e uma vez que não tencionas cá voltar, se me deixas tratar do aluguer desta casa. Acho que era muito justo, eu estive sempre cá a tomar conta e a tratar do teu Pai e nunca recebi um tostão por isso!”
“-Tia Lúcia, em primeiro lugar o meu Pai nunca precisou que tratassem dele. A Tia nunca o fez, pelo contrário, tanto quanto sei até o vinha aqui chatear a pedir-lhe dinheiro. Se houve alguém a tratar de alguém foi o meu Pai a tratar de si. Até lhe ofereceu a nossa parte da Casa da Lage, ou já não se lembra?
Em segundo lugar, quem lhe disse a si que eu não quero cá voltar? Esta é a minha casa. Não me separarei dela nunca.
Mais alguma dúvida?”
E João despachou assim a interesseira da sua Tia Lúcia.
Tratou de tudo com o seu Sócio, o Peter, transferiu-lhe todos os assuntos que estavam a ser tratados por si até agora. Mais tarde enviaria um e-mail aos clientes que estavam directamente a trabalhar consigo para os informar das alterações temporárias, causadas pelas suas férias. Ficou a par das novidades da empresa e percebeu que poderia ficar descansado mais umas semanas em Portugal. Tudo estava bem entregue.
Foi finalmente falar com o Sr. Cunha.
“-Olá, Sr. Cunha. Precisava de falar consigo, é sobre o meu Pai. Sei que era o melhor amigo dele, desde muito pequenos, pois eram vizinhos e fizeram a escola juntos, lembro-me do meu Avô me contar isso. Que se defendiam um ao outro e não deixavam ninguém meter-se entre os dois… verdade?”
“-Sim, João. O teu Pai era o melhor amigo que alguém podia desejar. Vai-me fazer muita falta a sua companhia, a sua inteligência, a sua bondade e aquele sorriso que só ele conseguia fazer, para quem para ele fosse importante.”
“-Esse sorriso eu nunca o vi, nunca lhe surpreendi nada parecido com um sorriso quando ele olhava para mim…”
“-Vi-o eu, João…. milhares de vezes, sempre que ele falava ou ouvia falar de ti, sempre que lia alguma coisa sobre ti ou sobre a tua empresa, sempre que via uma fotografia tua e sempre que te mencionava e se orgulhava com o que tinhas conseguido fazer. Só não sorria quando pensava que tu lhe parecias um solitário, um “homem sem leme na vida” como ele costumava dizer. Não queria que tu passasses pela solidão como ele passou. Andava atento a tudo o que fazias e sempre na esperança que tu encontrasses uma mulher merecedora de ser amada por ti.”
“-Sr. Cunha, tem sido uma surpresa, o carácter totalmente novo para mim que tenho estado a descobrir do meu Pai. Cresci a pensar que o meu próprio Pai não gostava de mim, cheguei mesmo a pensar que não devia ser filho dele, só da minha Mãe … Depois de ver o Veleiro que ele me construiu, a constância e o amor que é preciso para criar uma obra prima daquelas, tirou-me qualquer dúvida sobre o meu Pai gostar ou não gostar de mim. Mas não consigo compreender porque não se desfez este mal entendido! Sr. Cunha, o meu Pai é que era o adulto, tinha obrigação de esclarecer tudo, no entanto optou por me deixar a pensar o que eu pensei durante toda a minha vida sobre ele: muito mal! E continuo a não conseguir perceber… No dia em que cá cheguei, encontrei o meu quarto escrupulosamente limpo e arranjado, até a roupa da minha cama estava mudada de fresco. Nesse dia pensei que tivesse sido a minha Tia a fazer isso, mas com o tempo a passar, percebi que tinha sido ele, o meu Pai… como se estivesse à minha espera a qualquer momento, e isso comoveu-me muito…”
“-E estava, João: o teu Pai estava sempre à tua espera… por vezes dizia:
“-Podia ser que ele viesse no Natal”,
“-Estamos quase na Páscoa, quando ele era pequeno gostava muito dos festejos, se calhar ainda aparece por aí…”
Ou então:
“-O João vai fazer 30 anos depois de amanhã, encomendei um bolo na D. Goretti, não quero ser apanhado sem um bolo se por acaso ele cá aparecer!
””

“-Não fazia a mais pequena ideia disso, Sr. Cunha, nem sei o que dizer…”
“-João, não te martirizes por isso, eu até acho que não tiveste culpa nenhuma. Chegou agora a altura de fazeres justiça ao teu Pai. Aproveita esta oportunidade que Deus te está a dar e recebe esta Graça de te puderes finalmente entender com ele, mesmo depois de morto. Acredita que pode ser uma chance única de te recompores da vida tão difícil que viveste.”
“-Sr. Cunha, e sobre a minha Mãe, de onde era ela, ainda terá família viva? Não sei nada sobre ela, nunca me falaram de nada para além do tempo a seguir a eu ter nascido. O Senhor conheceu-a, não conheceu? Sabe quem é a sua família?”
“-João… sobre a tua Mãe… Pouco ou nada te sei dizer, e de qualquer maneira, acho que de nada te servirá saberes mais do que sabes sobre ela, acredita em mim, que sou teu amigo…”
e o Sr. Cunha, tentando mudar rapidamente de assunto, pergunta-lhe:
“- E que me dizes ao teu Veleiro? Era a menina-dos-olhos do teu Pai! Há anos que ele andava a construí-lo, para ti. Todos os materiais que usou são do melhor que há, não poupava dinheiro ou esforços para conseguir que tudo fosse excelente. Uma vez chegou mesmo a fazer uma viagem a Torquay, no Sul de Inglaterra, para ir comprar os candeeiros de braços articulados que estão na Cabine, sabes, aqueles que têm um abaut-jour forrado com um tecido esverdeado de Mapa-mundi… Foi para Londres num voo quase de madrugada, lá chegado apanhou um comboio para Torquay, comprou os candeeiros e fazendo o caminho inverso, passou a noite no aeroporto de Heathrow e ainda o fui buscar ao Aeroporto do Porto às 11 da manhã do dia seguinte….quando se lhe metia uma ideia na cabeça, ele não a deixava morrer, ai não deixava não! Uma outra vez, cismou que o sino de bronze tinha que ser preso à trave de onde está suspenso, por uma fita de couro. E essa fita de couro tinha que ser Alentejana, pois tinham-lhe dito que era onde curtiam melhor o couro, tornando-o mais bonito e mais resistente às intempéries marítimas. E lá fomos nós, num Sábado de manhãzinha a Estremoz, à procura de uma fita de couro… de meio metro de comprimento! Diacho do Homem…. ”
“-Realmente, parece que o meu Pai não deixava nada ao acaso…! Aos poucos começo a achar que essa sua maneira de ser, condizia com ele próprio, e apenas pelo pouco que vou conhecendo e no que tenho visto pela casa dele e pelo armazém…
O Albatroz, Sr. Cunha… posso afirmar-lhe que é a coisa mais bonita que eu alguma vez tive. Descobri-lo e ao mesmo tempo saber que foi construído para mim, pelo meu Pai, perturbou-me na mesma medida que me deixou feliz. Mas o que eu mais apreciei, do que eu mais gostei mesmo, foi saber que afinal o coração do meu Pai e o meu tinham um elemento comum, só nosso: o nosso amor aos barcos. E foi isso que acabou por me abrir os olhos e perceber que tinha que acolher o meu Pai dentro de mim, para o conhecer finalmente.”
“-É assim mesmo, João..”
“-Mas desculpe insistir consigo, há pouco percebi que não quer falar sobre a minha Mãe…. diga-me só, há alguma coisa importante que eu deva saber sobre ela e que não saiba?”
“-João, deixa estar as coisas como estão, ainda agora me pareceste tão contente por teres finalmente descoberto o teu Pai…, porque te vais chatear a procurar coisas do passado? Eu nada sei sobre a tua Mãe!”
João, não quis pressionar o amigo de seu Pai, mas era por demais evidente que o Sr. Cunha sabia muito sobre a sua Mãe, só não queria era contar. Mas João iria ser paciente, esperaria pela altura certa. Mais tarde ou mais cedo ficaria a saber a história verdadeira da sua Mãe.
Foi uma vez mais ao armazém, à Costa Nova. Quando entrou, sentiu-se de novo comovido ao olhar para o seu Veleiro: era seu! Esta maravilha era sua e tinha sido feita para si, pelo seu Pai! Que pena tinha de já não puder partilhar isto com o seu Pai, mas existia alguém com quem João podia e queria muito que comungasse com ele esta beleza e esta reviravolta do seu coração em relação ao seu Pai… a sua Maria!
“-Maria, minha Maria, porque não estás tu aqui ao pé de mim?”
João tentou perceber se o seu Pai teria já planeada a roda do leme. Procurou no meio de todos os desenhos e esboços. Nada encontrou. Mas também, se ele queria que fosse ele a fazê-la, com certeza que não a ía deixar já desenhada, claro. A autoria teria que ser sua, do princípio ao fim. João pegou no lápis, papel de desenho, sentou-se no estirador e começou a desenhar. Fez vários esboços de rodas de leme, mas acabou por optar por uma em madeira e metal. Era um modelo clássico, combinava bem com a traça do Albatroz. João desenhou-a grande, de dois arcos. 70cm de diâmetro no arco exterior, 55cm no arco interior. Tinha também seis manípulos em madeira com cerca de 25cm cada um de altura, que uniam os dois arcos, na parte de baixo. O aro interior era em madeira e ficaria com metal embutido em toda a sua circunferência. O exterior era ao contrário: em metal com madeira embutida a toda a volta. Tudo liso, como João gostava e achava mais bonito. O Diâmetro total da roda do leme ficaria com 95cm. Acabou por ficar satisfeito com a roda que desenhou. Agora era pôr as mãos ao trabalho e começar a fazê-la.
Tinha tudo o que precisava no Armazém. Seu Pai tinha os materiais e toda a maquinaria necessários, espantosa a organização dele!
João sentiu-se bem a trabalhar com as suas mãos. Sentia-se no seu verdadeiro elemento. Já há uns anos que não fazia trabalho de mãos na Albatross, não se tinha ainda apercebido a falta que isso lhe fazia. Já uma vez Maria lhe tinha dito alguma coisa no género:
“-Começaste por fazer o que mais gostas: barcos e acabaste só a tratar de papelada, de passar de reunião para reunião, fato e gravata, bancos, seguros e a viajar de avião quase continuamente, consegues perceber a ironia, João?”
E João nesse dia não a tinha compreendido, argumentou que a Albatross era ele, era una, e tudo o que ele fizesse era para completar essa unidade perfeita com o seu sonho e que tinha de o fazer para ele se tornar cada vez maior e melhor, mesmo que fossem coisas chatas…
e continuando a pensar em Maria, João passou a tarde toda a trabalhar na sua roda do leme. Chegou já de noite a casa, cansado mas com uma sensação de dever cumprido, como se já há muito alguém lhe tivesse pedido para ele se entregar por completo a um trabalho e só agora ele o tivesse feito. Era estranha, esta sensação, mas fazia-o sentir-se mesmo bem. Amanhã continuaria a sua roda… e … tinha tantas saudades da Maria… e deitou a cabeça na almofada, cansado e de coração tolhido de saudades dela…
“-Maria, Maria! Ainda és a minha Maria? Ainda o queres ser, tanto como eu quero que o sejas?”
Não sabia como a encontrar, Maria tinha mudado de casa, de emprego e o seu número de telemóvel já estava desligado há muito. Quando pensava nisso, tinha terror ao imaginar que ela pudesse já estar com outro homem. E até seria o mais provável. Maria, ostensivamente, tinha querido esquecê-lo. Tinham combinado continuarem amigos, mas nunca mais se viram, falaram ou encontraram. João, mesmo querendo o afastamento de Maria, na altura, não conseguiu deixar de se sentir rejeitado por ela. Caramba! Quem é que se esquece de um dia para o outro de tudo o que eles viveram juntos? Para onde foram todas as palavras inventadas só para ele? Também não a tinha procurado mais, depois daquela vez que lhe tentou telefonar nos anos dela e se confrontou com um número já não existente… Na altura tinha ficado uma fera, como era possível mudar de número e não o avisar? Mas aos poucos foi percebendo, tristemente, que a culpa tinha sido sua. Foi o primeiro a deixar de atender os seus telefonemas, com a desculpa que estava muito ocupado e que lhe ligaria mais tarde. E nunca lhe devolveu uma única chamada. As respostas às mensagens que ela lhe enviava, durante algum tempo ainda, eram lacónicas e propositadamente ambíguas: “Não sei”; “Talvez sim, talvez não”; “Agora não posso falar, beijo”; Que idiota tinha sido, que infantilidade! Ainda se lembrava de ter ficado contente quando não lhe abriu a porta – fingindo estar ausente ou a dormir – quando ela foi uma noite a sua casa procurá-lo. Deixou-lhe um bilhete na caixa de correio dizendo-lhe que precisava muito de falar com ele. E ele nunca chegou a falar com ela… Achava que se não lhe cedesse ela cairia em si mais depressa e acabaria por concordar com o que ele lhe tinha proposto, vir viver para Kristiansand com ele. E isso nunca aconteceu… agora, colocando-se no lugar dela, percebia o mal que lhe tinha feito, o que ela devia ter sofrido com isso, que criança fora ao pensar assim! Que grande cretino foi ao julgar que ela esperaria por si… Que anormal ela deve pensar que eu sou! Meu Deus, o que eu fui fazer, a minha vida ficou sem leme, ando agora à deriva, sem a minha Maria. E até isso o meu Pai percebeu…
Mas João, tal como o seu Pai, não era homem de desistir facilmente. Amanhã, acabaria a sua roda do leme e começaria a procurar a Maria. Alugaria um carro em Aveiro, para ficar independente. Sabia que a Mãe da Maria vivia em Penedono, uma vila lá para os lados de Viseu e da Guarda. Maria tinha falado sobre a sua vila muitas vezes, até se lembrava que havia lá um Castelo. E sabia também que a Vila não era grande, conseguiria descobrir a casa de alguém que vivia na Noruega num instantinho, com certeza.
Podia tê-la perdida para sempre, mas assim ficaria com a certeza absoluta…
E João, com uma determinação que lhe estava nos genes, fez o que se tinha proposto fazer: acabou a sua roda do leme, montou-a e só descansou quando viu que tudo estava bem encaixado e a funcionar bem. A primeira coisa que o seu Pai queria que ele fizesse, estava feita, assim como a decisão de encontrar Maria desse por onde desse. Seria esse o seu rumo, a partir de agora… ficava a faltar-lhe a âncora, mas isso ficaria para depois. A sua urgência era outra e tinha nome de Rainha de Portugal: Maria, a sua rainha…
Apanhou cedo o Moliceiro que fazia a carreira para Aveiro e ainda não eram 10 horas da manhã e já estava na auto-estrada a caminho de Penedono.
Chegou lá por volta da hora do almoço e, para refrear um pouco a sua ansiedade, foi almoçar a um pequeno Restaurante bem perto do Castelo de Penedono. O Castelo era bonito, muito simples, uma Torre de Menagem muito alta e a precisar urgentemente de ser restaurada. Havia mesmo paredes quase a ruírem, uma pena não se cuidarem destas coisas que transbordavam de história, se pudessem falar…
A empregada que o estava a servir, cara redonda e vermelhusca cabelo preto todo controlado numa grossa trança, de sorriso aberto e muito faladora, era muito simpática. João aproveitou a sua boa vontade para lhe perguntar se conhecia uma Maria, que vivia na Noruega e se lhe podia dizer qual era a casa da Mãe dela…
A rapariga, disse-lhe que estava cá só há uma semana, ainda não conhecia quase ninguém, mas que ía perguntar à sua Tia, que era a cozinheira, se ela sabia quem era. E desapareceu por detrás das portas que davam acesso à cozinha.
Quando voltou, o seu sorriso ainda era maior:
“-Já tenho a informação que o Senhor precisa: a casa que procura fica no terreiro da Igreja e é fácil de perceber qual é pois o portão e a porta principal da Igreja estão ligados por um caminho de seixos muito antigos. Não tem por que se enganar!”
João encontrou a casa facilmente e quando ia fazer soar a sineta do portão, uma velhinha que estava sentada num dos bancos que ladeavam a porta da Igreja perguntou-lhe:
“-O que quer o Senhor dessa casa?”
“-Boa tarde, disseram-me que esta era a casa da D. Leonor. Precisava de falar com ela…”
“-Pois já vem tarde, tarde demais! A D. Leonor morreu fez ontem dois meses. Deu-lhe de repente uma coisa ruim, foi muito rápido… dizem que tinha o sangue grosso…. Foi um funeral muito bonito, até vieram gentes de Vila Real, do Porto e de Ponte de Lima! A Igreja estava cheia que nem um ovo, parecia dia de Páscoa de antigamente. Nunca tinha visto tanta flor junta, algumas chegaram até do estrangeiro…”
“- E a filha…?”
“-A Maria? Portou-se muito bem, nada de histerismos e quando tudo acabou, recebeu toda a gente aí em casa e mandou que se servisse chá e bolos para todos, se calhar o Senhor não sabe, mas é costume cá da nossa terra…”
“-Mas então a Maria está cá?” perguntou João esperançado.
“-Não, não estão. Saíram os dois hoje de manhã cedo para Viseu, acho eu.”
“-Os dois? – e o coração do João começou a acelerar…”
“-Sim, ela e mais o Leonardo, nunca se separam, esses dois!”
E João teve que ir buscar forças sabe Deus onde para não sucumbir ali mesmo, no meio da rua. A sua Maria já não era a sua Maria… nunca mais a ia ter só para si. Não mais se iam perder os dois nas suas conversas sem fim, as suas risadas não soariam felizes juntas nunca mais.
“- Meu Deus, meu Pai… e a culpa foi toda minha!”
E João, angustiado e de cabeça perdida, meteu-se de novo no carro e voltou para casa, para a Gafanha do Carmo. Maria tinha-o esquecido, Maria pertencia agora a outro. E João voltou a chorar, triste e desesperado. Permitiu a si próprio este deslize, deixou que o seu pobre coração soluçasse e assumisse que tinha perdido a sua Maria para sempre, pois em breve teria que se recompor e andar com a sua vida para a frente.

“-Maria, Maria! Como eu gostava de ter feito tudo diferente! Maria, tu que foste a minha Maria em tempos, poderás um dia perdoar-me? Poderei eu perdoar-me a mim próprio?”

E João, chegado a sua casa, cansado e muito triste, preparou-se para se deitar. Amanhã era um novo dia, pensaria no que fazer. Agora o que queria era esquecer tudo enquanto dormisse…
Mas o dia ainda não tinha terminado, alguém estava a tocar à campaínha.
João ainda considerou se abriria ou não a porta, mas decidiu-se a fazê-lo, descansaria logo a seguir.
Desceu as escadas e abriu a porta da rua. E pela segunda vez nesse dia, o seu pobre coração tornou a sofrer um tremendo choque: Maria estava à sua porta! “Maria, Maria! O meu Anjo e o meu Carrasco… ” João não conseguiu dizer uma palavra por largos instantes. Maria estava diferente, muito bonita, com um ar sério e uma expressão de quem está muito atrapalhada mas se esforça por disfarçar. João, no meio da sua aflição, ainda conseguiu reparar no tique da sua sobrancelha esquerda que dava sempre sinal quando Maria estava nervosa.
“-Olá João… posso entrar? Eu prometo que não demoro muito”
“-Olá Maria, desculpa: entra, entra! Não fazia a mais pequena ideia que sabias onde era a minha casa, aqui em Portugal… Não me lembro de termos falado sobre isso…”
“-Há muita coisa que não sabes sobre mim, João. E eu ainda nem sei se mereces saber..”
“-Pelo menos uma já sei, e confesso que depois de a saber fiquei sem vontade de saber mais, sei do Leonardo…” – disse João, com demasiada amargura na sua voz.
Maria arregalou os olhos de espanto e perguntou:
“-Tu sabes do Leonardo? Como? Quem te falou dele, foi o teu Pai?”
“-O meu Pai?? A que propósito ele me ía falar dele? Fui hoje a Penedono à procura da tua Mãe. Como fiquei sem maneira de te contactar – mudaste de casa, de trabalho e de número de telefone – pensei que a tua Mãe me daria o teu contacto actual. Mas quando fui a tua casa, fiquei a saber que a tua Mãe tinha morrido já há dois meses. Fiquei também a saber que tinhas saído, com o tal Leonardo, e segundo as palavras da velhinha que me deu as informações:
“-Esses dois nunca se separam!”
“-Haaaaa… exclamou Maria, nitidamente aliviada. – deve ter sido a D. Rosa… está sempre sentada à porta da Igreja… e não te disse mais nada, sobre o Leonardo?”
“-Até podia fazer o discurso da sua vida, por acaso não o fez, que eu não o ouviria nunca, achas que quereria ouvir pormenores sobre o teu… o teu…. sei lá: namorado ou marido? Casaste com ele, Maria?”
“-Casar com o Leonardo, eu?? ” E Maria deu uma gargalhada bem divertida-
João, eu não mudei de casa nem de emprego, nem troquei o número de telemóvel na Noruega, eu voltei de vez para Portugal. Tentei falar contigo vezes sem conta, nunca me permitiste contar-te os meus planos. Deves lembrar-te disso.
De qualquer maneira, eu vim aqui procurar o teu Pai. Estava preocupada por ele nunca mais me ter ligado só que, com a morte da minha Mãe, só hoje consegui vir ver o que se passava. Já soube tudo o que aconteceu, estive durante quase toda a tarde a conversar com o Sr. Cunha. E fiquei feliz por perceber que finalmente abriste o teu coração ao teu Pai. O teu Pai era um bom homem e sempre gostou muito de ti.”
“-Maria, Maria! Espera aí, já estou todo confuso: mas tu conhecias o meu Pai, o Sr. Cunha, a minha casa, o meu Pai “ligava-te”? O meu Pai “gostava muito” de mim, como o sabias? Explica-me isso, se fazes o favor!”
“-João, tem calma. Contar-te-ei tudo, mas a seu tempo. Primeiro quero entregar-te esta carta que o teu Pai me confiou. A carta foi escrita pelo teu Avô e é para ti. Mas o teu Pai, sabendo como o teu Avô pensava, escondeu-a de ti. Foi por acaso que eu a descobri um dia, quando estava a ajudar o teu Pai numas arrumações. Deixou-me lê-la e decidiu que eu ficaria com ela. Deu-me também liberdade para escolher se ta daria a ler ou não, depois da sua morte. E já há muito que eu decidi que a devias ler, e já acho que é muito tarde! Toma, lê-a!”
E João leu a carta, escrita pelo seu Avô:

“Meu querido neto João,

Não sei escrever com floreados, por isso vou direito ao assunto.
A tua Mãe nunca foi exemplar como toda a gente te fez crer que foi. E ela foi a desgraça do teu Pai, o meu querido filho. Foi por pouco que não morreste nas mãos dela. A história sobre o aquário ter caído em cima de ti não é verdadeira. O que se passou foi teres sido atirado com toda a força contra uma porta de vidro, pela tua própria Mãe. Isso aconteceu depois do teu Pai te ter levado a um Pediatra em Aveiro. E foi esse médico que descobriu que tu estavas a ser maltratado por ela. Mostrou ao teu Pai que todas as nódoas negras e alguns cortes que tu tinhas no teu corpo, tão franzino, não eram compatíveis com quedas e cabeçadas acidentais como a tua Mãe alegava, dizendo que tu eras muito trapalhão. Apresentavas também mazelas provocadas pela subnutrição e mesmo desidratação.
Nesse tempo, o teu Pai trabalhava no Sul de Espanha e com muito sacrifício, conseguia vir a casa de três em três semanas. Ninguém se tinha apercebido como a tua Mãe te tratava mal, só o teu Pai andava preocupado com o teu ar tristonho e cabisbaixo, achava que tu estava demasiado magro, para a tua idade. Nesse dia, quando ele voltou de Aveiro contigo, confrontou a tua Mãe com tudo o que o Médico lhe tinha dito. Disse-lhe para ela agarrar nas suas coisas ainda nessa noite e desaparecer para sempre da vossa vida. No meio da discussão, a tua Mãe aproveitou um momento de distração do teu Pai, pegou em ti e com toda a fúria atirou-te contra a porta de vidro da varanda da vossa antiga casa. Foi assim que quase perdeste a vida e ganhastes as cicatrizes que tens ainda hoje. Tinhas três anos de idade. Foi também a partir desse dia que o teu Pai não mais se perdoou a ele próprio pelo tal momento de distração e por não se ter apercebido mais cedo pelo que tu tinhas passado nas mãos dela. Sempre que olhava para ti, dificilmente suportava a dor que sentia. Soubemos, anos mais tarde, que a tua Mãe tinha morrido em Espanha, na mais completa podridão. Com más companhias o destino dela foram as drogas e a prostituição.
O teu Pai decidiu que tu tinhas que ter uma boa memória da tua Mãe. Não queria que tu soubesses nunca o que ela tinha sido para ti. Foi ele que construiu todas as histórias que te contaram sobre ela. Foi ele que arranjou a tua “Caixa do Tesouro” com as coisas que supostamente pertenceram à tua Mãe. Foi ele que inventou a doença da tua Mãe e a sua morte a pensar só em ti. Foi ele que criou o pé-de-meia no Banco para ti, dizendo que tinha sido ela.
João, o teu Pai sabe que eu sempre fui contra esta mentira, sempre insisti para que ele repusesse a verdade. Mas ele quer que tu tenhas uma boa recordação da tua Mãe, mesmo que fosse inventada.
Não sou capaz de deixar o teu Pai ser julgado tão injustamente, por ti.

Foste o meu melhor companheiro, querido João. O meu Lobo do Mar preferido!
Um beijo do teu Avô João Leonardo, que sempre te adorou.”

E João, depois de ler a carta do seu Avô ficou com as suas suspeitas dos últimos dias confirmadas: muita coisa não batia certo na história dos seus Pais. Agora sabia como tudo tinha sido. Pouco veio modificar o que pensava agora sobre o seu Pai, pois o seu coração já o tinha adivinhado e reconhecido como um Pai que o amava.
Mas havia um pormenor que não tinha escapado a João, e isso também tinha sido uma novidade para ele: nunca soube que o segundo nome do seu Avô fosse Leonardo… e João, que nunca tinha acreditado em coincidências, ficou a pensar nisso…

“-Uma vida inteira a pensar bem de uma pessoa má e a pensar mal de uma pessoa boa! Isso não faz de mim uma inteligência por aí além, não faz não… lembro-me de me sentir seguro, sem medos, sempre que estava com o meu Avô, devia ter uns três anos, agora percebo porquê…”

“-João, lamento ter sido eu a dar-te isto a conhecer, mas em nome da justiça para com o teu Pai, tu tinhas que ficar a saber disto.”
Mas João, o que na verdade lamentava era ter perdido a Maria para sempre. Só conseguia pensar nisso, agora que a tinha à sua frente. Nem sabia bem como lhe devia falar, este novo estatuto deles estava a deixa-lo muito confuso. Apetecia-lhe abraça-la, meu Deus! Como queria tanto abraça-la agora! O seu coração ansiava por a envolver, por lhe falar ao ouvido, por lhe pedir perdão… mas já era tarde demais. Iria ter que aprender a viver, sem ela no seu horizonte.
“-Maria, conta-me como conhecias o meu Pai, como ficaste amiga dele, contas?”
“-Conto, mas não hoje. Tenho o Leonardo à minha espera, já deve estar impaciente.”
“-Pois claro, o Leonardo deve estar impaciente… o melhor é não te demorares mais… ” – e a voz do João, para além de irónica, soava também muito triste.
“- Se quiseres podemos conversar amanhã – respondeu-lhe ela, sorrindo – tencionava passar cá o dia. Podemos encontrar-nos de manhã.”
“-Nós os três, eu tu e o Leonardo? Talvez não seja muito boa ideia…”
“- Não, seu tolo. Estava a referir-me a nós os dois. Temos mesmo muito para falar. O Leonardo fica entretido por aqui pela vila, ele gosta! Podias mostrar-me o Albatroz… morro de curiosidade de o conhecer!”
“-Combinado então. Consegues ir ter comigo ao Cais Velho às sete da manhã? O Albatroz ainda não tem Âncora, mas mesmo sem ela queria deitá-lo á água e dar uma volta pela Ria. Vou arranjar um ferro qualquer só para desenrascar em caso de necessidade. Queres ajudar-me nisso?”
“-Yes, my Captain! Amanhã lá estarei às sete em ponto!”

No dia seguinte, ainda nem eram sete horas e já estavam os dois dentro do barco a motor em direção à Costa Nova. Estava um dia bastante nublado, frio e com vento que vinha de Sudoeste.

Trocaram palavras de circunstância, “Que o dia estava frio…” “Também estava muito húmido….” “Que este barquito até que era bom, andava bem”, etc. etc..
Era quase palpável o constrangimento entre eles os dois. Maria, dos dois a mais reservada, procurava preencher os silêncios que teimavam em instalar-se entre eles. João, não conseguia deixar de pensar nesse outro, o tal que “nunca se separa dela” que estaria à espera quando voltassem… de vez em quando, uma fúria interior enchia as suas entranhas de maus pensamentos e apetecia-lhe então dar meia volta e deixar de novo a Maria no Cais Velho, que fosse ter com o outro! Mas continha-se a tempo e tentava controlar os seus ciúmes, da melhor maneira que sabia: falando pouco. Muita coisa havia para esclarecer entre eles, tentou concentrar-se nesse pensamento. Não conseguia perceber como de repente Maria e o seu Pai se tinham tornado amigos, sem ele o saber. E a conversa continuava, aos soluços e gaguejos, promovida pela Maria:
“-Mal posso esperar para ver o Albatroz, o teu Pai só me mostrou o seu desenho… dizia que os primeiros olhos a verem o Albatroz ao vivo, teriam que ser os teus…”
“-Ele disse isso?”
“-Sim, e que eu saiba só o Sr. Cunha o viu, pois foram muitas as vezes que o teu Pai precisou da ajuda dele.”

Chegados à Costa Nova, atracaram o barquinho e foram directos para o Armazém.

Maria, ficou encantada com o Albatroz, reconheceu-lhe a elegância e até via muita feminilidade nas suas formas. Depois de o inspeccionar, de fio a pavio, Maria disse:
“-João, que maravilha! E tu achas que já está pronto para ser lançado à água? Como o vais tirar daqui?”
“-Está mais que pronto, a única coisa que lhe falta é a âncora, mas como vamos só dar uma volta na Ria, para o testarmos, não vai fazer falta. O meu Pai deixou-me essa tarefa, de descobrir um ferro para o Albatroz assim como a roda do leme, que já fiz. Foi a maneira que ele encontrou de me deixar uma mensagem sobre a minha vida se estar a tornar demasiado desenfreada e impessoal, sem rumo e sem um porto de abrigo para onde eu possa voltar e ficar ancorado, em segurança.
Quanto a levar o Albatroz daqui até á Marina da Ria, contratei o Clube de Vela para isso, olha: devem ser eles que estão a bater à porta!”
E três horas depois, estava o Albatroz a deslizar suavemente para dentro das águas da Ria de Aveiro, pela primeira vez…
Estava uma pequena multidão a assistir às manobras, gentes locais. Tinha-se espalhado a notícia, com aquela velocidade relâmpago própria de terras pequenas, que um Veleiro novo, muito bonito e integralmente construído na Costa Nova ía ser lançado à Ria. As exclamações de espanto sobre a sua beleza, a sua perfeição ou a sua perfeita harmonia não paravam de se ouvir… Parecia estar lá toda a gente: os Hermanos, os Baiões, os Barreira e muito mais famílias ligadas à Costa Nova, desde sempre. Pescadores, armadores e proprietários de barcos, ninguém queria perder a oportunidade de ver o Veleiro novo.
Quando a primeira vela foi içada, alguém começou a bater palmas e contagiou os demais o que acabou em dar numa grande salva de palmas.
João e Maria em equipe, puseram o veleiro a mexer, aproveitando o vento que soprava agora do quadrante Oeste, era um bom sinal esse vento que vinha do mar…
Tudo funcionava na perfeição, o trabalho de seu Pai tinha chegado ao mais ínfimo pormenor. João não se lembrava de nenhum dos seus barcos ter feito a sua viagem experimental sem que nenhum problema tenha surgido, era normal que isso acontecesse e era exactamente para isso que essa viagem era feita antes do cliente ver o barco. Servia para detectar falhas e irregularidades. Grande parte deles nem sequer chegava a velejar…
Mas o Albatroz, velas desbravadas, parecia que conhecia desde sempre a Ria e deslizava, elegante e orgulhoso, a parecer consciente de todos que o admiravam, nas margens, e tiravam até fotografias. João, com uma vontade louca de abraçar Maria, estava feliz, ou quase feliz…
“-Pai! Como eu gostava que estivesses aqui comigo!” – pensou João, enquanto observava a Maria que estava agarrada à roda do leme. A sua expressão era calma, de uma serenidade que sempre o tinha impressionado. Que mulher! Havia alguma coisa diferente nela, ainda não tinha conseguido perceber o que era. Estava um bocadinho mais roliça, mais feminina. Tinha a cara contra o vento, a apreciar a brisa salgada, com os seus olhos fechados. De repente, suspirou profundamente ao mesmo tempo que sorria, que bonito era o sorriso da sua Maria! Sua?? Não…. a Maria já não era a sua Maria, era a Maria do palermóide do tal Leonardo! E o seu coração ao pensar nesse outro endureceu de imediato. Concentrou-se de novo no cordame que estava a enrolar.
Estava no seu elemento, mas o seu elemento não estava em pleno, faltava-lhe uma parte muito importante, a metade de si, perdida talvez para sempre. Tinha que conseguir sacudir a angústia que o estava a assolar…
Percorreram a Ria até à Barra e voltaram para trás até à Vagueira. Fizeram muitas milhas e nada de errado detectaram no Albatroz. O teste estava feito e foi passado com distinção!
Tinham velejado da Costa Nova até Mira e de lá, voltaram para trás até ao canal de Ovar.
Quando estavam a voltar para a Costa Nova, ao Largo de S. Jacinto, caiu por completo o vento e um manto cerrado de nevoeiro como que os abraçou e os envolveu na sua humidade, assim como toda a Ria, que parecia um espelho de água, tal maneira estava chão…
João gostava desses bancos de nevoeiro, adorava ouvir o silêncio que se instalava ao seu redor, o grito da ronca do nevoeiro, ritmado, era para ele um som confortável. Lembrava-se de gostar de adormecer, quentinho e bem entalado nos cobertores da sua cama, ao som da ronca do Farol da Barra em noites de nevoeiro, que eram frequentes na sua infância. Havia como que um eco abafado em todos os sons produzidos na água ou à sua volta: o piar de aves, um cão a ladrar desde a margem, o som de martelos de uma qualquer obra tardia, o motor de um barco, uma criança a cantar… todos sons que o embalavam e ajudavam a adormecer.

“-Maria, estamos sem vento, presos no meio da Ria. Ainda não são seis horas, vamos aproveitar esta calmaria e conversar agora? Quero muito saber como conheceste o meu Pai…”
“-Está bem, mas estou cheia de frio… Não tens aqui nenhum casaco que me emprestes?”
“-Casaco acho que não tenho, mas espera que vou ver o que consigo arranjar.” – e passado uns instantes, João voltou com uma manta grande e quente. Parecia um cobertor.
“-Toma, enrola-te nisso, foi o melhor que encontrei, parece-me quente..”
“-Obrigada, assim está muito melhor! Então queres saber como eu e o teu Pai nos conhecemos… depois de ter tentado falar contigo dezenas de vezes, e como nunca recebi resposta alguma tua, fui de comboio a Kristiansand directamente a tua casa.
Estava decidida, na altura, a falar contigo, tinha mesmo que falar contigo!”
“-E eu estava decidido a ser um grande cretino contigo…”
“-Pois estavas, mas nesse dia também não te encontrei em casa, devias ter saído. Era um Sábado e não estavas na tua empresa também.”
“-Estava sim, Maria: estava em casa, vi que eras tu e não te abri a porta de propósito. Eu disse-te, estava armado em cretino idiota contigo, nessa altura…”
“-Estavas em casa? Bem, agora também já não interessa isso, até porque o facto de não me teres aberto a porta não foi mau de todo, pude por isso conhecer o teu Pai. Nesse dia tinha nevado durante a noite e os degraus do teu prédio estavam cobertos por uma camada de gelo. Escorreguei ao sair apressada e desci as escadas aos trambolhões. Parti o tornozelo esquerdo, nem queiras saber a dor lancinante que eu tive. Foi quando o teu Pai me veio ajudar, falando-me em português, coisa que nem sequer achei estranho. Mais tarde, o teu Pai contou-me que foi pelo que eu disse, entre lágrimas, que se apercebeu que eu era portuguesa. A partir dai, nunca mais me largou. Foi ele que chamou uma ambulância, foi ele que me acompanhou todo o tempo que fiquei no Hospital e foi ele que três dias depois me ajudou a sair de lá. Veio comigo no comboio até Àlesund e só se foi embora quando confirmou que eu ficava bem instalada em minha casa e que tinha alguém que me ajudava. Voltou no dia a seguir para Portugal e desde esse dia, falávamos, pelo telefone primeiro, mais tarde pessoalmente, todas as semanas. O teu Pai era muito organizado nas suas ideias, muito meticuloso e um homem de bom coração. Para mim, foi a resposta às minhas orações que Nossa Senhora me enviou, pois foi isso que lhe pedi: apoio para o momento difícil que eu estava a passar.
Só ao final da primeira noite que passei no Hospital, ainda nas Urgências, é que de repente percebemos que ambos te conhecíamos. Fiquei muito abalada ao perceber que quem me tinha ajudado tinha sido precisamente o teu Pai! Tu já imaginaste a coincidência, João? Consegues perceber o raríssimo nisto? O teu Pai, que nunca te foi visitar à Noruega, quando o fez, encontrou-se comigo e passou a ser a partir daí o meu Anjo da Guarda! As probabilidades de este acaso acontecer eram tão, mas tão ínfimas! Mas aconteceu, e eu ainda hoje dou graças a Deus por ter acontecido.”
“-Mas o meu Pai nunca me veio ver, na Noruega…”
“-O teu Pai foi ver-te algumas vezes, sempre que tinhas um evento, ligado aos barcos que construías, desde que fosse público, o teu Pai ia ver-te… mas nunca ganhou coragem para te abordar. Até essa vez, que decidiu ir bater à tua porta. Só não o fez porque ficou do meu lado para me ajudar… João, o teu Pai tinha muito orgulho em ti, mas não sabia como lidar contigo… vocês nunca criaram qualquer cumplicidade entre os dois, e ele não sabia como haveria de chegar a ti.. Mas nunca deixou de te acompanhar, só que o fazia na tua retaguarda, discretamente… ”
“-Maria, tive tantas saudades tuas! – João não conseguiu conter-se mais – nem imaginas o quanto eu tenho sentido a tua falta, por vezes dou por mim a falar contigo como se tivesses a meu lado. Até pergunto a tua opinião sobre algumas coisas que me preocupam… Nestes últimos dias, desde que cá cheguei, que me sinto sozinho sem ti. Desculpa eu estar a dizer-te isto agora, mas foi mais forte do que eu…”
Maria manteve-se em silêncio, já tinha entretanto escurecido e João não conseguiu perceber a expressão que ela tinha. E o silêncio, aflitivo para os dois, manteve-se por mais uns minutos. Até que Maria se levantou e disse que ía buscar o cesto com o que tinha sobrado do almoço.
“-Estou com fome…”
E trouxe também dois copos de vinho tinto, ofereceu um a João e começou a bebericar no dela.
“-Tu não tens frio? Só tens essa camisa vestida…”
“-Tenho frio de ti, Maria….”
“-João… Não vale a pena ires por aí, não quero recomeçar tudo de novo. Não posso passar por tudo outra vez, não iria aguentar. Chama-me covarde, o que quiseres, mas o nosso tempo já passou.”
“-Dizes isso porque estás a pensar nesse tal Leonardo, não é?”
“-Por acaso até estou a pensar nele. Tal como tu um dia foste importante para mim, o Leonardo agora é a minha vida.”
E o coitado do coração do João apertou-se com tanta força, até o fazer sentir a dor, quando a ouviu dizer isso…
“-O que achas que correu mal entre nós os dois, Maria?”
Mais um grande silêncio, até Maria acabar por dizer:
“-João, eu acho que o amor não pode ser demonstrado e formatizado de maneira adaptada ou necessária às circunstâncias ou ao serviço de alguém. Foi o que tu tentaste fazer com o que eu sentia por ti. E ninguém tem o direito de decidir como há-de ser expresso esse amor no lugar de outra pessoa. Foste egoísta, e foste muito infantil quando não nos deste a nós próprios uma chance de resolvermos as nossas diferenças de timmings. Eu sabia que te queria, mas também sabia que a minha altura não tinha chegado ainda. Precisava de pensar sobre isso, e para o fazer, precisava de afastar de mim alguns medos e inseguranças minhas. Não quiseste ou não soubeste esperar, até acredito que não foste mal intencionado, a princípio, mas nada justificaria o corte abrupto e insensível que fizeste comigo. Isso magoou-me muito. Sentia-me a ser castigada sem ter dado sequer pelo erro. Disseste há pouco que eu não imaginava a falta que eu te faço, agora sou eu que te digo que tu nem imaginas a falta que me fizeste… durante este último ano, não passou um único dia que não acordasse a pensar em ti ou que não adormecesse contigo no meu pensamento… um único dia, João! Nas minhas orações, pedia sempre – e ainda peço – a Nossa Senhora que, se Ela achar que eu te mereço e que tu me mereces, nos guie nas nossas vidas para nos encontrarmos e ficarmos juntos, como um verdadeiro casal, que se ama, se respeita, se une em cumplicidade e na fé em Deus e com espírito de humor para vivermos felizes e contagiarmos com essa felicidade as pessoas que fizerem parte da nossa vida.”
“-Maria, Maria… isso quer dizer que ainda posso ter esperanças? Mas não percebo… e o Leonardo, onde fica ele no meio disto tudo?”
“-João, está-me a meter impressão tu só estares com essa camisa! Vem para aqui para ao pé de mim que a manta é grande e dá para os dois… e assim explico-te em que lugar fica o Leonardo.”
João, ˜cautelosamente, atreveu-se a pensar que a atitude que Maria estava a ter não era apenas imaginação sua mas, transtornado e na maior das expectativas lá bem no seu interior, levantou-se do convés, onde tinha estado estendido, e foi por uma música a tocar na aparelhagem que o seu Pai lá tinha deixado.
“-Nestes últimos dias, ouvi esta música vezes sem fim, quando estava a trabalhar no Armazém… fazia-me pensar em ti. Era tudo o que eu te gostava de dizer. Ouve-a, Maria…” e João enfiou-se debaixo da manta que Maria partilhou consigo.

E ouviram os dois a música, em silêncio…
Quando terminou, Maria, dizendo que ainda tinha frio, encostou as suas costas ao peito de João. E ele, num gesto acolhedor e carinhoso, rodeou-a com os seus braços e ambos se sentiram como se tivessem chegado finalmente a casa, depois de uma longa e cansativa viagem….
“- Sabes, João … Tenho pensado muito numa coisa: o amor é um sentimento ilógico, imprevisível e pode até ser mortal. Todas as relações amorosas são potenciais agressões de parte a parte. Quanto mais me aproximei de ti, mais perigoso ficou para mim ser magoada por ti. Aceitei esse risco quanto nos conhecemos, estou disposta a arriscar outra vez… João, abraça-me com mais força!
“-Que saudades tinha deste teu cheirinho, minha Maria! Agora quero que me contes tudo sobre o Leonardo… quem é ele?”
“- Eu disse-te há pouco que o teu Pai tinha percebido que eu era portuguesa pelo que eu tinha dito, depois de cair das escadas, lembraste?”
“-Sim, lembro -me…”
“-Pois o que eu disse, a chorar de dor e aflição, foi que estava com muitas dores de barriga, depois de cair, e a chorar disse que não podia perder o meu bebé… que estava grávida já de cinco meses e que estava com muito medo. Sentia também uma hemorragia a começar. A partir desse momento, como já te disse, o teu Pai tomou conta de tudo e ao mesmo tempo tentando sempre acalmar-me. Nenhum de nós lhe passou, nem remotamente, pela cabeça que quem estava em perigo era o neto dele.”
Maria sentiu João a apertar ainda mais o abraço e abandonou-se ainda mais nos seus braços. Pediu-lhe para a deixar contar tudo sem a interromper. João anuiu.
“-Os dias que passei no Hospital não foram para tratar o meu tornozelo partido, mas sim para tentar salvar o nosso filho, João. Nem imaginas a nossa aflição, minha e do teu Pai. Ele não saiu de ao pé de mim nunca, comia o que conseguia tirar de umas máquinas automáticas que lá havia e dormia sentado em cadeiras de uma sala de espera que pertencia aos serviços de obstetrícia. Transmitia-me calma e segurança. Saber que ele estava lá, fazia-me sentir melhor. Não sei se teria corrido tudo bem como correu se não o tivesse lá comigo… Quando o perigo passou e os médicos me deram alta, o teu Pai insistiu em acompanhar-me na viagem de volta para minha casa. Tão cuidadoso que ele foi comigo! Quando voltou para Portugal, já foi com a data do meu voo de volta e horário de chegada, com a promessa de me ir buscar ao Aeroporto do Porto e levar-me para minha casa, em Penedono. Até ao Bebé nascer, era ele que todas as semanas me vinha visitar. Depois do nascimento, passei a ir eu, de vez em quando, visitá-lo a casa dele. Ficávamos a dormir no teu quarto, eu e o bebé…”
“-Minha Maria! Mãe do nosso filho, que anseio por conhecer, acalma o meu coração que parece ter endoidecido e diz-me se o meu filho se chama Leonardo…”
“-Pois…. gostei do nome e sabia que tu foste muito ligado ao teu Avô… ele, o teu Pai e tu têm o mesmo nome, achei que seria demais um outro João na família, por isso aceitei a ideia do teu Pai de usar o segundo nome do teu Avô João Leonardo…” e Maria, dizendo isto, voltou-se de frente para João e sorriu agarrando-se com força a ele, num abraço já há muito merecido.
João e Maria não podiam estar mais felizes, e como que por magia, levantou-se uma brisa que fez dissipar-se o nevoeiro. Voltaram o mais rápido possível para a Gafanha do Carmo. Chegados lá, correram para casa do Sr. Cunha e foram encontrar um Leonardo todo bem disposto, ao colo da mulher do Sr. Cunha, a brincar com uns gatos que por lá havia… E João, comovido como nunca na sua vida se tinha sentido, com o filho ao colo, prometeu-lhe que nunca iriam deixar de serem os melhores amigos!
“-Sabes, filho: é que se nos distrairmos e nos desligarmos, corremos o risco de nos perdermos um ao outro. E isso connosco nunca vai acontecer, o Pai promete-te!”

E pela terceira vez na sua vida, João desfez-se em lágrimas, mas desta vez com companhia, pois tinha a sua Maria a chorar consigo, de tão felizes que estavam.

“Minha Maria, Maria que afinal sempre foi minha, tenho agora o meu Porto Seguro, a minha família, tu e o Leonardo e esta que será a partir de agora a nossa casa. Já estou pronto para colocar a âncora no Albatroz, como o meu Pai queria…”

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