O Jardim Zoológico

A Tia Margarida tinha muitos sobrinhos. Rapazes e raparigas, filhos dos seus oito irmãos. Sempre que um deles atingia os quatro anos de idade, havia a tradição na família de ser levado por ela a passar um fim-de-semana a casa da Tia Joana que vivia em Lisboa. O mais importante e excitante de tudo era que a viagem era feita de comboio: ida e volta. Também empolgante era a já anunciada visita ao Jardim Zoológico de Lisboa. O encontro com a Tia Joana, o Tio Pedro e as duas primas acontecia sempre lá, no recinto do Jardim Zoológico. Almoçavam, visitavam os animais, comiam gelados, assistiam ao Show dos Golfinhos e, com sorte, escapavam ao beijo da foca que cheirava a peixe que tresandava! Era sempre um dia muito bem passado e cheio de emoções. Havia sempre peripécias para contar quando se voltava ao Porto. Ainda hoje, passados muitos anos, se conta aos mais novos aquela vez em que a prima Francisca fez xixi para cima de um leão!
“-Para cima de um leão? Que horror! E ela não teve medo que ele a mordesse toda???”
“-Nada disso! Ela estava muito aflita e como estava dentro do teleférico e não havia maneira de sair de lá, a Tia Joana ajudou-a a fazer xixi lá de cima, para o ar. Exactamente no momento em que iam a passar por cima do recinto dos leões! Um deles, até pareceu ter ficado muito zangado… ou então espantado: não se consegue perceber bem as expressões dos leões assim tão lá do alto…. a Francisca até jura a pés juntos que lhe pareceu ter ouvido um rugido assustador… mas não tem a certeza… a altura era grande!
“-De qualquer maneira a prima Francisca foi muito corajosa…. fazer xixi para cima de um leão?!? Que medo!…”
Numa outra vez, foi o Duarte que ficou sem os cromos preferidos dele, daqueles que vinham com os “Bolicao”…
Quando os estava a admirar, enquanto lanchava sentado num banco do Jardim Zoológico, um macaquinho muito atrevido, saiu da jaula, passando por entre as grades e arrancou-os das pequenas mãos desprevenidas do Duarte. Que berraria! Com que fúria o Duarte saiu dali, inconformado com a sua pouca sorte! Nunca mais gostou de macacos.
Também a Teresinha tinha uma história para contar, sobre dia igual: nunca mais se esqueceu quando um macaco lhe puxou os cabelos e lhe roubou o gelado “Perna de Pau” que ela estava a comer. Chorou baba e ranho, queria o gelado de volta! E o macaco, muito malandro como todos eles são, depois de comer o gelado todo, provocantemente, ainda atirou um pedaço de melancia para a cabeça da Teresinha. O macaco era muito mau! Parecia o diabo… e parecia que se estava a rir, com aquelas dentolas e beiços todos arreganhados!
Houve também aquela vez em que o Hipopótamo espirrou para cima do João, num autêntico banho mal-cheiroso! Que porcaria! Por uma sorte incrível, a Mãe dele tinha mandado uma muda de roupa, para o que desse e viesse… e foi mesmo para deixar de ficar a cheirar ao mau-hálito do Hipopótamo.
Uma outra vez tinha sido o Pedrinho que, corajosamente, ajudado pelo Tio que o segurou na descida e na subida, saltou para dentro do parque das Girafas – num momento em que elas estavam distraídas – para apanhar o seu chapéu que tinha caído lá dentro! Que aventura! Uma das Girafas ainda se dirigiu a ele, daquela maneira lenta que elas têm de se movimentar, para ver o que se estava a passar… mas o Pedrinho, já com o chapéu na mão, subiu rapidamente e ficou a salvo de uma eventual lambidela de Girafa, que têm aquelas línguas gigantescas!
Nesse ano, quem acompanhava a Tia Margarida era o Diniz. Tinha quatro anos, quase a fazer cinco, uma mão cheia de todos os dedos!
Sairam de casa muito cedo e o Pai dele levou-os aos dois à Estação. O Diniz levava a sua mochila preferida, a do Super Homem. Os manos, mais velhos e adolescentes, passavam a vida a chateá-lo, dizendo-lhe que aquela mochila era muito parola, mas o Diniz gostava muito dela. Tinha sido um presente que o seu melhor amigo lhe tinha dado há já muito tempo, quando fez quatro anos.
A sua Mãe tinha-a recheado de coisas boas, para a viagem: um sumo de laranja, um pacotinho de leite, ambos com palhinhas, um pão de leite com fiambre, dois croquetes, um Queque daqueles muito bons que sabiam a baunilha que a Mãe comprou na Padaria da esquina e uma tablete de chocolate! E era só para ele, nesse dia não tinha que dividir o chocolate com os manos… talvez só com a Tia Margarida, mas não fazia mal, ela comia sempre muito pouco…

 

Diniz ía encantado com tudo o que via. Era a primeira vez que andava de comboio. Como ele ia de força! Se encostasse o nariz ao vidro e olhasse bem de frente, Diniz sentia-se a voar… mas passado um bocado também começou a sentir-se enjoado. A Tia Margarida disse-lhe que era por estar a olhar lá para fora com o nariz todo esparramado contra o vidro. Mas Diniz desconfiava que tinha sido por ter comido o chocolate todo muito depressa. A sua Mãe dizia-lhe sempre para ele não devorar o chocolate dessa maneira, pois podia ficar mal-disposto… mas se assim não o fizesse, vinham os manos e comiam-no todo!
Já iam a meio do caminho, em Coimbra, e sentou-se ao lado deles um militar que vinha fardado. Diniz, que sempre sentiu admiração e muito respeito por polícias e bombeiros, não conseguia tirar os olhos do soldado… que bonita lhe parecia aquela farda! Pena era estar toda manchada , parecia aquela toalha da mãe que tinha ficado toda estragada, tingida de vermelho e azul. A pobre da empregada tinha apanhado um belo de um raspanete por ter feito aquela asneira tão grande… é que a Mãe do Diniz, quando se zangava até metia medo! A empregada do soldado também deve ter sofrido com a mãe dele por ter manchado a farda de verde e de preto… e Diniz, por respeito ao soldado que vinha com cara de poucos-amigos, chegou-se mais à Tia Margarida, subiu para o seu colo e não tardou muito em adormecer. Sonhou com animais, sonhou com bombeiros. Sonhou até que um crocodilo lhe perguntou se ele queria que ele comesse os macacos todos, para que não lhe roubassem nada…
o Diniz ia preocupado com os macacos. Não tinha cromos que pudessem ser roubados e já tinha decidido que não ia comer gelado nenhum enquanto tivesse perto da jaula dos Macacos. Mas estava muito apreensivo com a sua mochila predilecta: e se os macacos também gostassem, como ele gostava, do Super Homem?
“-Tia, quando chegarmos ao Jardim Zoológico, pode-me levar a minha mochila?”
E o comboio chegou finalmente a Lisboa. Na estação do Oriente, entraram no Metro em direcção a Sete Rios. Os tios e os primos já lá estavam à espera deles. Diniz estava muito entusiasmado! Sentaram-se em dois bancos, daqueles frente-a-frente e o Diniz, menino curioso e muito observador, começa a olhar para toda a gente na carruagem do Metro e a expressão dele transforma-se em espanto! Naquela carruagem, mais de metade das pessoas eram de raça negra. Diniz, no seu mundo ainda muito pequeno, só conhecia uma pessoa com a cor da pele igualzinha ao chocolate, como ele dizia. Tinha sido nas férias de Verão, na Quinta para onde a família costumava ir, que o Sr. Jacinto, um Africano que já há mais de quarenta anos fora viver lá para a aldeia, ofereceu um gelado ao Diniz, nas festas de S. Lourenço. Diniz, extasiado já com a pele cor de chocolate, ainda mais maravilhado ficou com o presente do gelado. Ficou imediatamente e para sempre amigo do Sr. Jacinto.
E começa a falar para toda a gente em geral, virando a cabeça de um lado para o outro, sorrindo e fazendo caras de charme:
“-Eu gosto muito de pretos!”
A Tia Margarida, muito atrapalhada, tenta impedi-lo de falar mais, mas nada conseguiu. Diniz estava determinado a explicar-se muito bem:
“-O meu mano é que não gosta nada de pretos, ele diz que se pudesse, encostava-os todos a uma parede e matava-os todos! Mas eu não, eu não os matava, porque eu gosto deles. O Sr. Jacinto que é meu amigo, é preto e deu-me um gelado!”
-“Diniz, o mano não diz nada dessas coisas feias! Percebeste mal!”- tentou a Tia Margarida compor a coisa…
-“Diz, diz, Tia! Eu até lhe di um pontapé na perna porque ele disse que o meu amigo Sr. Jacinto era feio e mau!”
E a Tia Margarida, a tentar que o Diniz mudasse de assunto, infrutiferamente, lá continuava:
“-Diniz, os Tios já estão no Jardim Zoológico, vamos ver leões, Zebras, Elefantes, Golfinhos e Macacos!”
“-Macacos? Eu não gosto de macacos! E o mano também diz que os pretos parecem macacos, mas não parecem nada! Os macacos são maus e roubam gelados e cromos de futebol e o meu amigo preto deu-me um gelado só para mim!”
E sempre que Diniz falava, fazia questão de olhar à sua volta e sorria para todos os pretos, que já considerava seus amigos, que via.
A Tia Margarida, já não sabendo o que fazer, manda-o calar-se durante cinco minutos.
-“Estou de castigo? Foi por dizer mal dos macacos? Mas eles vão roubar-me a minha mochila do Super Homem!”
“-Diniz, porque estás a dizer isso?”
“-Foi o mano que disse que finalmente se ia livrar de ver a minha mochila, porque os macacos iam roubar-ma!” – respondeu Diniz, apertando com força, no meio dos seus pequenos braços a sua preciosa mochila.
Nessa altura, os sorrisos que toda a gente tentava esconder, principalmente os de raça negra, transformaram-se em algumas gargalhadas. Estavam todos encantados com o Diniz, que tinha uns olhos enormes, de um verde fora de vulgar e estavam também divertidos com a atrapalhação da Tia Margarida.
Chegados ao destino, juntaram-se aos Tios e primos e lá foram passar o dia ao Jardim Zoológico de Lisboa. Diniz, nunca perdendo a sua mochila de vista, vibrou com tudo o que viu e ouviu. Ficou muito desiludido com os Crocodilos, eram pouco maiores que o Dinossáurio Rex que ele tinha em casa! Não eram lá muito assustadores… Gostou imenso dos Lobos, eram os seus animais preferidos… viu mesmo um deles com a boca aberta a mostrar muitos dentes e com a língua a pender de um dos lados. Pareceu a Diniz que ele estava com um ar esfomeado… pensamento que fez com que recuasse dois passos e segurasse ainda melhor a mochila do Super Homem: Diniz tinha a certeza que aquele Lobo também gostava de croquetes tanto como ele gostava…
Quando passaram pelos macacos, Diniz pediu para a Tia lhe levar a sua mochila do Super Homem, recomendando-lhe para ela não a dar a nenhum macaco e pediu ao Tio Pedro para lhe dar a mão.
Só quando teve a certeza que a sua mochila estava bem guardada é que conseguiu descontrair-se e rir-se com as macacadas que o Tio Pedro fazia para os macacos! Os macacos ficaram todos com cara de palermas a olhar para o Tio!
Diniz riu-se a bandeiras despregadas, até ficou com soluços! Que engraçado era o Tio Pedro…
No final da visita, às cavalitas do Tio Pedro, Diniz declarou a toda a gente que, quando fosse grande, queria ser tratador de elefantes e de Lobos. Gostou muito de ver o Elefante a tocar uma sineta, depois de Diniz lhe ter dado um amendoim… e trazia vestida uma camisola de mangas curtas, oferecida pela Tia Margarida, com um lobo estampado na frente… Diniz até se endireitava todo, barriga para fora, para toda a gente ver muito bem o lobo da sua camisola nova.
Diniz estava muito cansado, já lhe começava a cambalear a cabeça, mas estava feliz!
Que bom foi o dia: andar pela primeira vez de comboio, encontrar tantos amigos da cor-de-chocolate, passar o dia no Jardim Zoológico, comer gelado, ver o seu animal preferido que era o Lobo e não ter ficado sem a mochila do Super Homem! Quando voltasse para casa, ia dizer aos manos que afinal os macacos não lhe roubaram a mochila… e dizia-lhes também que tinha comido um chocolate todo inteiro, sozinho.
E amanhã, ia andar outra vez de comboio!

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