Pedro e Inês – primeira parte.

Primeira parte:

Era um homem afável. Calmo, olhar sereno, gestos seguros sem gesticulações desnecessárias. O seu tom de voz era grave, sem nunca a levantar e no entanto tinha melodia e era envolvente. Corpo grande, robusto e magro. Movimentava-se de uma maneira fluída e masculina. Sem pressas, sem excitações, cruzando frequentemente os braços no peito, parecia que estava sempre disponível para ouvir quem dele se aproximasse. Tinha como que um meio-sorriso instalado permanentemente na sua expressão. Instintivamente, percebia-se que se podia confiar nele, que era um homem sério e leal. Era o género de pessoa que não passava despercebida, mesmo ao abrigo do interior de uma multidão. Quando entrava no recinto da Feira, conseguia a atenção dos presentes, mais ou menos disfarçada. Tinha carisma, aparentemente sem o saber… Pedro tinha lugar cativo na feira de Artesanato que se realizava no último Sábado de cada mês. O negócio dele era a construção de abrigos e casas em madeira. Desenho e tecnologia exclusiva dele. Tudo ecológico, sustentável e de baixo custo. Inês conhecia-o de vista desde que começara também a vender as suas esculturas, em madeira, na Feira. O seu lugar ficava em frente ao de Pedro, mas tinham pelo meio um homem que vendia espelhos com molduras trabalhadas no próprio vidro – “horríveis! – Pensava Inês… – mas fartava-se de os vender.” Os espelhos permitiam-lhe uma observação furtiva mas meticulosa de Pedro, sem nunca ser apanhada em flagrante. Gostava como ele se vestia, sempre de uma maneira prática mas sóbria. Hoje trazia umas calças de sarja cinzentas escuras, camisa de um azul muito claro com riscas brancas. Por cima tinha vestida uma Camurcine que lhe ficava a matar! Cabelo escuro, pintalgado de brancas, particularmente nas têmporas. Não usava barba e a sua pele era morena, tisnada pelo sol.
Deitado a seus pés estava o seu cão. Inês não se lembrava de ter conhecido um mais engraçado do que este: era de médio porte, raça indefinida, pêlo hirsuto, espetado, muito farto e que era, literalmente, constituído por pedaços pretos alternados com pedaços completamente brancos. Dava a impressão de ser palha-de-aço, parecia o desenho de uma zebra todo desorganizado. Porém, quando se lhe tocava, era surpreendentemente macio e muito sedoso. Os olhos eram muito pretos e vivazes, sempre atentos a qualquer movimento à sua volta. Só desviava a atenção do seu dono em alturas importantíssimas para ele, como por exemplo, sempre que Inês pegava na sua lancheira. Nessa altura aproximava-se da banca dela, sentava-se à sua frente e esperava pelo naco de comida que sabia lhe era sempre oferecido. Ajudava sempre a apressar a coisa se os seus olhos fossem suplicantes e esfomeados… Comida devorada, abanava a cauda em modo de agradecimento e lá voltava ele para o seu posto oficial, ao lado do seu dono.
Pedro afagou-o:
-“Então, Corisco? Que foste fazer? Espero que não tenhas andado na pedinchice outra vez…”
Pedro sabia bem onde ele tinha ido. Inês era relativamente nova por alí mas já tinha conquistado o seu cão. Observava-a tanto quanto ela o observava. Os espelhos afinal de contas desmascaravam quem atrás deles se refugiava. Alta, cabelos compridos escuros, muito feminina nas roupas que escolhia, apesar de serem simples. Ainda só a tinha visto com vestidos e saias. Era bonita, mas havia qualquer coisa na sua maneira de estar que desconcertava Pedro. Não conseguia perceber o que seria. Por vezes parecia mesmo assustada, triste… E as peças dela? Tinha talento, todas diferentes e muito bem esculpidas. Pedro gostava particularmente das barras grandes e toscas em talha que Inês entalhava, em madeira natural, sem qualquer verniz ou tinta. Minucioso, o trabalho dela. Bonito.
Inês aproximou-se da banca de Pedro, surpreendendo-o: já se conheciam de vista mas nunca tinham falado.
-“Olá, eu chamo-me Inês. Sou a sua vizinha da frente, por trás dos espelhos…”
-“Olá Inês, já nos conhecemos, pelo menos enquadrados naqueles espelhos estranhos. Sou o Pedro.”
-“Chama-os de estranhos? Eu costumo pensar noutro adjectivo…”
“-Háháhá, eu imagino… um adjectivo pouco simpático, claro.”
-“Pedro, precisava de falar consigo. Tenho visto algumas das casas que construiu e estou interessada em que me fizesse uma para mim. Tenho um terreno que a minha Avó me deixou, na margem de um rio. É para lá que eu quero ir viver. Está interessado?”
-“Claro, Inês. É o que eu faço, construir casas. Mas deixe-me só esclarecer uma coisa: disse-me que tinha visto algumas casas minhas, chegou a ver alguma acabada e o seu interior?”
“- O interior não, nunca consegui ver nenhum….”
“-Hááá, então não sabe como são as minhas casas por dentro… têm características das quais não prescindo, compreende, é a minha imagem de marca. O melhor era visitar a minha, para ficar a compreender como eu as construo. Está livre amanhã, da parte da tarde? Posso ir buscá-la à vila por volta das 15h00…”
E ficou combinado o encontro para o dia seguinte.
Inês preparou tudo o que tinha a fazer logo de manhã cedo e foi almoçar a casa da sua amiga de infância, a “minha Zézinha”, como gostava de a tratar.
Chegada a hora, foi ter ao local combinado com Pedro e seguiram os dois para uma visita à casa dele.
Era toda em madeira. A fachada era longa, precedida por um alpendre que dava sombra e muito charme ao local. Havia plantas trepadeiras que, singelamente, abraçavam as vigas e colunas da casa. O telhado, também em madeira, era comprido e de duas águas, mas estava coberto com o que parecia uma mistura de ervas, musgo e terra. O conjunto todo fazia lembrar um Cottage Inglês, e estava engenhosamente como que encaixado no meio da natureza, dentro de um abraço de dois esplêndidos carvalhos, parecendo fazer parte dela desde sempre.
-“Que beleza! – exclamou Inês – Acho que foi a mais bonita que eu vi sua!”
-“Nããã… a mais bonita vai ser a sua!”
Pedro, depois de darem uma volta de reconhecimento pelo exterior, visitado a horta e a Capoeira, convidou Inês a entrar.
A sobriedade e sentido minimalista que reinava em todo o interior da casa, foi quase um choque para Inês.
A única peça que se destacava, por ser maior, era uma cama num dos cantos da casa que servia de quarto de dormir. Nesse mesmo canto, começavam umas prateleiras a toda a altura da parede, recheadas de livros que cobriam a parede até ao final, contornando por completo a soleira da porta de entrada. Era como se fosse um forro feito de livros… Tantos livros! Seguramente uma das paixões de Pedro, pensou Inês. Na parede oposta, uma porta que se percebia ser do quarto-de-banho. A meio da casa, ficava o que seria a sala, com um sofá de orelhas ladeado por um candeeiro de pé e uma mini aparelhagem de som. Aos pés do cadeirão estava um puff já muito amassado e suspeitosamente coberto de pêlos pretos e brancos… devia ser o poiso do Corisco, sem dúvida! Como que a tomar posse do seu território, Corisco apareceu, depois de ter alvoraçado as galinhas e os patos como ele gostava de fazer, e num salto acomodou-se no seu ninho – depois de dar três ou quatro voltas sobre si mesmo – o puff. Uma mesa muito bonita de tampo e pernas esguias em raiz de nogueira, três cadeiras, todas diferentes, rodeavam a mesa. Um tapete muito grande e confortável completavam o resto do mobiliário. Ao fundo, no canto oposto daquele que servia de quarto, ficava a cozinha. Um fogão a lenha e uma grande bancada em madeira – onde estava inserida uma bacia rectangular em porcelana, grande, que servia de pia para lavar a loiça ao mesmo tempo que escorredor. Pendurados na parede, por cima dessa bancada, meia-dúzia de utensílios: duas panelas pequenas, uma sertã, uma espátula, um coador, tudo em ferro esmaltado e uma colher de pau. Por cima, uma pequena prateleira dividida em duas partes, numa das metades quatro pratos, duas tigelas, dois copos, guardanapos de pano e talheres. Na outra metade, havia alguns alimentos: conservas, azeite, ovos, leite e cereais. Tudo na mais impecável limpeza e arrumação. Não se via nenhum armário ou gavetas.
Ainda na mesma parede, havia uma outra porta que dava para uma espécie de coberto, fechado e protegido das intempéries, que servia a três tempos de lavandaria, despensa e armário para a roupa de casa e a que Pedro usava. E era este o único armário que a casa possuía… mas não um armário qualquer, rodava sobre si mesmo, expondo quatro lados rectangulares totalmente preenchidos de prateleiras. E era nessas prateleiras que tudo o que Pedro possuía se encontrava organizadamente guardado: roupa de cama, toalhas de banho, roupa de vestir, alguns sapatos, garrafas de vinho e alguns bens comestíveis.
“-O Pedro vive aqui há muito tempo? Tudo parece perfeito demais para ter sido usado por si…”
“-Vivo aqui há mais de dois anos. O que a Inês acha estranho são as poucas coisas que me rodeiam. Eu não preciso de muito, aprendi a despojar-me do que me é supérfluo. Os meus únicos devaneios são os meus livros e a minha música, sentir-me-ía incompleto sem eles… São a minha vida, a minha experiência, saciam a minha alma e a vontade que tenho de conhecer o mundo em que vivemos… Obrigam-me a pensar, levam-me em grandes viagens e acabam por polir a minha maneira de ser e de estar na vida… são as minhas companhias, por excelência.”
-“Nesta casa – continuou Pedro – tudo é pensado para me proteger a mim e ao ambiente que me rodeia. Em toda esta madeira, não há um prego sequer, nem um pedaço de plástico. Usei cavilhas de madeira, um método muito antigo mas também muito eficaz. A própria madeira não tem tratamento químico. Está protegida contra fungos e bichos, com produtos e métodos muito naturais. Tem mesmo um tratamento especial que retira a capacidade de a madeira se inflamar quase em 90%… quer isto dizer que a minha casa não vai arder nunca, reconfortante saber isso, uma vez que vivo em plena floresta, não acha?”
-“Isso é muito bom… ”
-“Tem energia Solar e para o aquecimento agora no inverno, o fogão a lenha faz todo o serviço. Foi totalmente desenhado por mim, para além de cumprir o seu papel de verdadeiro fogão e forno também é um recuperador de calor. Tenho um sistema simples de condutas que contornam toda a casa, no interior, e aquela parede que não tem livros, se reparar bem, está revestida com tijolos de argila refratários que emitem o calor que recebem do fogão de lenha, para ter a casa aquecida durante o tempo frio. No Verão, basta-me dirigir a saída do ar quente para o exterior e como a casa está isolada naturalmente pelas plantas que cobrem todo o telhado e uma mistura de terra e argila nas paredes exteriores, também consigo ter a minha casa fresca nos dias quentes…”
-“Resumindo, Inês: nas casas que eu construo, não há luxos, qualquer espécie de desperdício ou supérfluos…, é essa a minha imagem de marca ..”
-“Ainda não consigo decidir-me se é esse tipo de casa minimalista que eu quero para mim. Eu sei que agora está na moda. Mas, assim de repente, vem-me à cabeça uns milhares de objectos que me são indispensáveis, Pedro…”
-“Inês, viver apenas com o que nos é necessário não é uma moda, é uma oportunidade de valorizarmos apenas o que é importante. É também uma decisão que precisamos aprender a cumprir. Eu precisei de um período de adaptação , não pense que foi fácil. Não é de um dia para o outro que conseguimos por de lado quase todos os bens materiais que vamos acumulando na nossa vida… Hoje em dia, já não faz sentido para mim ter um qualquer objecto que não usufrua dele diariamente. Aprendi também que também vamos acumulando pensamentos, lixos e maus relacionamentos na nossa cabeça. Não são benéficos para a nossa paz de espírito, não acrescentam nada de bom à nossa paz interior. Tal como os bens materiais, ocupam demasiado espaço dentro de nós e não o merecem.”
-“Pedro, há muita coisa que trago dentro de mim, que me faz sofrer, mas das quais não consigo nem quero separar-me… Difícil agora explicar-lhe porquê, não nos conhecemos bem e isso impede-me de me abrir. Desculpe-me dizer-lhe isto assim, mas é o que eu penso.
-“Tranquila, Inês… não quero saber nada de pessoal sobre a sua vida. A não ser que venha a construir uma casa para si, pois nesse caso já vou precisar de a conhecer um pouco mais.. Já agora, devemos ter a mesma idade, mais ou menos, porque não nos tratamos por tu? Se a tratar uma vez mais por você, acho que nunca mais vou conseguir mudar para o tu..”
-“Há… Sim, claro! Como queira… queiras! Podemos e devemos tratar-nos por tu.”
-“Ficou melhor, assim. É como deve ser… Agora o que eu queria era ver o terreno onde queres construir a tua casa. Quando o pudemos ir ver?”
“- Por mim vamos já … não é muito longe daqui, uns 10 km… mas mais de metade a subir, fica lá em cima, na Serra.”
“-Óptimo, vamos lá então! – e mal Pedro abriu a porta do carro para Inês entrar, uma bola confusa de pelo preto e branco, tão rápido que parecia ter voado, saltou e instalou-se no banco da frente.
“-Helá, Corisco: já lá para trás! Hoje não é aqui o teu lugar. Não adianta fazeres esses olhos de palerma… Zarpa já daqui!”
E o Corisco, muito lentamente, pesaroso, lá se instalou na parte de trás da carrinha.
Quando chegaram ao terreno que agora pertencia a Inês, num planalto, Pedro, extasiado, exclamou:
“- Meu Deus, isto não é um terreno… isto é O TERRENO, Inês! ”
Havia árvores de folha caduca: carvalhos, bétulas e castanheiros que, em meia-lua rodeavam uma clareira onde se via o que teria sido um casal com um curral de cabras ou ovelhas anexado e uma eira esculpida num penedo gigantesco. Tudo em ruínas, sem qualquer telhado, era um amontoado de pedras que jaziam ali em recordação de melhores dias há já muito vividos. Tudo estava verde à volta, daquele verde que só a terra boa produz. Com uns cinquenta metros de diâmetro, este pedaço de maravilha terminava à borda da água. O rio fazia ali uma represa natural que alargava o seu leito para o que parecia uma lagoa. Água cristalina e muito transparente, profunda o suficiente para enganar um incauto que pensasse apanhar um seixo do fundo do rio, surpreendendo-o com a sua profundidade inesperada. Viam-se Trutas, Carpas e outros peixes a vasculhar pedras e lodo do rio. As ervas subaquáticas faziam o seu bailado permanente, em câmara lenta, ao sabor da corrente. O barulho dos pássaros era constante e ao longe um cuco marcava o tempo com o seu canto premonitório.
“-Um cuco a cantar! A minha Avó detestava ouvi-lo, dizia que se contássemos as vezes que ele cantava, seria o número de anos que faltavam para a nossa própria morte…” – disse Inês .
“-A minha Avó devia ser bem mais optimista, ou romântica, pois dizia que era a contagem dos anos que faltavam para o nosso casamento! Pontos de vista diferentes, sem dúvida! Inês, este terreno tem um potencial incrível! Gostava muito de fazer o projecto e a construção da tua casa.”
Pedro fotografou o local enquanto a sua cabeça fervilhava já de mil ideias sobre o que fazer ali. Começou desde logo a desejar que Inês aceitasse o seu projecto, quantas possibilidades existiam para fazer ali um pequeno paraíso na terra!
-“Pedro, de quanto tempo precisas para me apresentares um orçamento?”
-“Dá-me duas semanas. Mas quero carta branca para a escolha dos materiais. Só trabalho assim. Amanhã voltarei aqui com um rapaz que me faz de porta-minas. Faço o levantamento topográfico para trabalhar com mais precisão. Se aprovares o meu orçamento, o passo seguinte será conhecer melhor os teus gostos e aspirações, perceber o que realmente são as tuas necessidades essenciais, para que a tua casa se harmonize contigo.”
-“Pedro, isso é fácil: o meu gosto é de coisas simples, serenas e que não me chateiem muito. Quanto às aspirações, há muito que desapareceram, a não ser talvez o de viver um dia de cada vez e cultivar o melhor que souber o meu relacionamento com a minha filha.”
“-A tua filha, que idade tem? ”
“- 26 anos, vive em Goa. Apesar de só nos vermos uma vez por ano, pela altura do Natal, somos muito unidas. Descobrimos o caminho certo para nos aproximarmos mesmo através dos milhares de quilómetros que nos separam.”

“-Voltamos para baixo? Já está a ficar escuro. ”
“-Sim, já é tarde. E tu, tens filhos?”
“-Tenho, o Miguel. Tem 19 anos e está a estudar em Bergen, na Noruega. De vez em quando vou passar uns dias com ele, mas quando eu me separei da Mãe dele, foi com ela que o Miguel ficou a viver. Foi o que mais me custou, no processo de divórcio: passar a ser Pai de vez em quando, ao sabor dos caprichos da Mãe dele…”
-“Eu também sou divorciada, mas para dizer a verdade, não posso dizer que isso me tenha afectado muito, pelo contrário, foi um grande alívio para mim. Voltar a ser dona de mim e de tudo o que faz parte de mim. Entregar-me ao que eu me quiser entregar, sem ouvir sermões e julgamentos é para mim uma maneira de estar nova, mas já indispensável para mim.”
“-Eu tive um mau casamento, demorei muito tempo a perceber que era infeliz…” disse Pedro.
“-Eu era feliz e não o sabia. Descobri isso tarde demais…”
“-Então, não querias acabar com o teu casamento?”
“-Nada disso, o meu casamento ao fim de meia-dúzia de anos acabou. Vivíamos atrás de uma bela fachada que convencia os outros de que tínhamos um casamento feliz. O meu desgosto foi outro, foi a morte do meu filho mais novo. Já estava divorciada, quando aconteceu. Foi atropelado quando tinha 15 anos, “morte imediata”, como a Polícia não parava de repetir. O meu mundo é que teve morte imediata… parou de girar, eu só queria morrer, não suportava a dor que me preenchia por completo logo que acordava. Era – e continua a ser, só que de maneira diferente – avassalador e chegava até a perder o fôlego quando aquela angústia e desespero se apoderavam de mim! Só pedia a Deus que me levasse para ao pé dele, não conseguia suportar a ideia de nunca mais ver o meu Manel, o meu doce, alegre e optimista Manel! Durante meses a fio não mudei nada no quarto dele, nem sequer os lençóis e as fronhas das almofadas da cama dele. Acho que eu própria esgotei o cheiro do meu filho de tanto o tentar sentir… Acho que sobrevivi a esse calvário todo por causa da minha filha Rita. Acho não: tenho a certeza! A Rita, na altura tinha 19 anos e, apesar do que sofreu com a morte do seu único irmão ainda teve que me amparar na minha desgraça. Houve dias em que ela, literalmente, me levantava da cama, me dava banho, me lavava os dentes, me vestia, me enfiava comida na boca e à força de muita paciência, beijinhos e festinhas me calava as frases sinistras que eu repetia sem cessar, de que queria morrer! Nem sonhas o que me irritava e revoltava ouvir o que quase toda a gente me dizia, incluindo o Pai dos meus filhos: “Que o tempo tudo apaga…; Que se calhar foi melhor ele ter morrido porque podia ter ficado um vegetal…; Que Deus escreve direito por linhas tortas; ” etc., etc..
A minha filha Rita não dizia nada. Limitava-se a abraçar-me e deixava-me chorar o que eu precisasse. Não me deixava ficar sozinha, cheguei mesmo a chatear-me com ela, a dizer-lhe que precisava do meu espaço, queria ficar só, para mergulhar e me perder nas lembranças do meu filho, mas a Rita nunca o consentiu, sem pronunciar uma única palavra sobre o que achava. A Rita consegue ser implacável, quando quer… Uma das coisas que me feria mais, era pensar que apesar de eu conhecer o meu filho melhor do que ninguém eu não sabia o que ele REALMENTE pensava das coisas. E estou a referir-me mesmo a tudo o que fazia parte da vida dele, objectos, pessoas, animais…. o que ele pensaria quando via uma vaca, por exemplo? O que ele pensaria sobre as pessoas com quem se ia encontrando no dia-a-dia dele? O que ele pensava quando via um prado cheio de flores silvestres? Que pensamentos lhe vinham à cabeça quando via um pobre na rua? Compreendes? Eu não sabia! E nunca mais iria saber… vivia obcecada por isso. E a minha filha, a minha extraordinária filha, pressentindo o que me afligia, inventou uma espécie de jogo entre nós as duas, só nosso. Todos os dias, escrevíamos num bilhete o que mais nos tinha chamado a atenção nesse dia. E descrevíamos o que tínhamos pensado sobre isso. À noite, trocávamos os nossos bilhetes e no dia a seguir, conversávamos sobre isso. Nem te passa pela cabeça a quantidade de coisas, aparentemente sem importância, em que as duas reparávamos! Isso , para além de nos aproximar, ajudou-me muito a superar um pouco a minha dor. Chegou um dia em que eu tive consciência que estava ansiosa para que a Rita lesse o meu último bilhete ao mesmo tempo que me sentia na expectativa para ler o dela nessa noite. Foi esse o meu ponto de viragem…
Ainda hoje, passados tantos anos, fazemos isso, só que em vez de serem bilhetes diários são uns cadernos que vamos enviando uma à outra à medida que os preenchemos. Ficou-nos esse hábito. Posso assegurar que sei bem o que a minha filha pensa sobre o mundo em que se movimenta, e ela o mesmo sobre mim.
Mas Pedro, não sei o que me deu para te contar isto tudo… Detesto portar-me assim, na verdade, nunca tinha contado nada disto a ninguém, nem com a minha melhor amiga eu falo sobre o meu filho… desculpa-me.”
-“Inês, não peças desculpa. Podes falar comigo sobre o que tu quiseres e quando quiseres. Eu já tinha percebido qualquer tristeza em ti. Sempre que pensas que ninguém está a reparar, tu ficas com uma expressão triste. Eu vejo isso, lá na Feira”…”
“-Não me sabia assim tão transparente. E tu, porque é que estás sozinho, neste planeta onde meio mundo de mulherio anda à procura de um homem livre e bem parecido como tu?”
“-Tu também andas à procura de “um homem livre e bem parecido”? É que definitivamente ainda não o encontraste… nem me acho bem parecido nem estou livre… hehehe, estava a brincar contigo! ”
-“Não, não ando à procura de ninguém, não preciso de estar acompanhada para me afirmar em sociedade. Quero paz, quero fazer o que eu gosto de fazer, trabalhar as minhas madeiras e tenho o sonho de querer ir viver para o sítio de onde viemos agora. Não gosto de complicações e as relações são sempre muito complicadas, pelo menos a que eu tive. Sou uma pessoa estragada, não quero contaminar ninguém com o meu coração descrente. O meu coração está fechado para sempre”
Pedro ficou calado, sentiu que não valia a pena responder, nem Inês esperava isso.
Estavam já em frente da casa onde ela morava.
Despediram-se, imediatamente depois de terem combinado que Pedro telefonaria quando tivesse o levantamento feito e o projecto já adiantado.

Corisco, depois de Pedro arrancar com o carro, começou a gemer baixinho. Já há muito estava ultrapassada a hora do seu jantar…
“-Calma, Corisco… já vais comer, tem só mais um pouco de paciência …”
“-Que mulher bonita, não achaste, Corisco?”
E Corisco inclinou o focinho ao mesmo tempo que espetava as orelhas, ficando atento ao que o seu dono lhe dizia.
“-Mas ambos sabemos onde isto iria dar, não é, meu amigo? Não quero nada nem com ela nem com ninguém. Quero trabalhar e é isso que irei fazer. Aquele lugar era incrível, não achaste Corisco? E tu, gostaste de correr atrás daqueles pobres coelhos, não foi? Um dia pego na minha caçadeira e voltamos lá para apanhar alguns, queres? Já tens saudades de caçar? Eu já!”
Passaram uns dias e Pedro ía ficando cada vez mais entusiasmado com o projecto da casa nova da Inês. Subiu uma meia dúzia de vezes à serra para tirar dúvidas, voltar a fotografar e para acabar o levantamento. Chegou mesmo a ir lá à noite, para perceber bem como era o local e verificar se a exposição que tinha escolhido para a casa seria a mais apropriada. Pedro não deixava nada ao acaso.
Inês continuava a entalhar as suas madeiras. Encontrou-se dois dias seguidos com a sua grande amiga para almoçarem juntas. Um dia em casa da Inês, outro em casa da Zézinha. Zézinha queria saber coisas sobre Pedro, o novo conhecido da sua amiga, mas Inês chateava-se com tanta curiosidade:
“-Que queres que te diga? É um homem como os outros… pára de imaginares coisas parvas, por favor. Não tenho nada nem terei nunca nada com ele, excepto uma relação de trabalho. Ele vai construir-me uma casa. E ponto final no assunto que já me estás a irritar, sua chata!”
Zézinha riu-se e decidiu fazer tréguas. Conhecia bem Inês, sabia que, quanto mais desconfortável ela se sentisse com algum assunto, menos se abria.
E a verdade é que Inês se sentia mesmo atrapalhada. Não sabia o que lhe tinha passado pela cabeça para ter contado a Pedro tanta coisa que nunca falava a ninguém. Teria que por as coisas no devido lugar. Faria isso na próxima vez que se encontrassem. Discrição era o que era preciso, nada de confiança a mais….

(Continua…)

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