Pedro e Inês – segunda parte.

Segunda parte.

Finalmente Pedro ligou. Já tinha pronto o projecto e já estava preparado para falar de preços.
“-Se não te importares, reunimos aqui em minha casa. Posso ir apanhar-te, depois das três. Que achas?”
-“Já está tudo pronto?? Mal posso esperar para ver! Para mim está óptimo depois das três mas não é preciso vires buscar-me, obrigada. Já sei o caminho, vou aí ter. Então até logo, Pedro!”
Inês passou o resto do dia na maior impaciência. Ainda tentou trabalhar mas nada lhe saía bem. Estava distraída e perdia o raciocínio várias vezes. Chegou mesmo a magoar-se num dedo. Desistiu:
“-Hoje não consigo concentrar-me para trabalhar as minhas madeiras…. estou em pulgas para ver o projecto. Deus queira que não seja demasiado caro para mim! Arrumo o atelier, faço qualquer coisa para o almoço e vou ao Sr. Abílio encomendar mais daquela madeira de nogueira. É densa, dura para trabalhar, mas o resultado é fantástico… entretanto chega o tempo de ir a casa do Pedro… não vejo a hora!”
O dia estava estranho, um vento ligeiro que de vez em quando se transformava em rajadas, impiedosas para objectos mais leves no exterior. As árvores tinham os seus ramos já a pespontarem de verde, mas com o vento estavam inquietos e baloiçantes. Apesar do mês ser o de Março, a temperatura estava inesperadamente alta contando uns mornos e agradáveis 17 graus.
Pedro foi dar uma espreitadela ao seu Barómetro e confirmou o que os seus sentidos já tinham previsto: uma tempestade e das valentes, aproximava-se. A humidade relativa do ar também estava a subir… restava saber se chegaria durante a noite ou se era para amanhã. O vento era Sul e conseguia-se cheirar a electricidade no ar… estava quente quando ainda devia estar frio. Foi guardar as suas galinhas na Capoeira, ajudado pelo Corisco que saltitava à sua volta e impunha respeito à bicharada toda. Levantou um grande painel em madeira fixando-o no lado da Capoeira virado a Sul. Pelo sim pelo não, ficavam em segurança. Pedro gostava que elas se alimentassem ao ar livre, não lhes dava nada que não tivesse sido semeado, plantado ou crescido na sua Horta. A única excepção era o milho que comprava numa quinta de produção exclusivamente biológica. No primeiro ano ainda semeou milho, mas foi vez única, pois o trabalho e o espaço ocupado era muito. Não compensava.
Pedro tirou da sua casa de secagem um cesto cheio de rodelas de maças desidratadas por si no Verão passado, primeiro ao sol, depois penduradas à espera de serem usadas. Preparou uma massa quebrada com farinha, manteiga e açúcar amarelo, sal e um pouco de água. Deixou-a descansar. Reavivou o fogão a lenha, fritou as rodelas de maça directamente numa tarteira redonda, em manteiga e açúcar amarelo até ficarem doiradas e levemente caramelizadas.
Polvilhou tudo com canela e estendeu a massa por cima do preparado das maças, cobrindo a tarteira por completo. Deixou descansar por mais uma meia-hora, antes de a meter no forno, já bem aquecido. E pouco tempo depois, a casa toda respirava um cheirinho delicioso a maças e canela… Estava pronta a tarte de maça que iria oferecer a Inês, enquanto discutiam o projecto.
“-Huuum… cheira muito bem aqui hoje! Calma, Corisco, calma! Isso é tudo saudades minhas? Que cão mais maluco que tu és! Gostas de festinhas, gostas? Pronto, pronto… “- foi o que Inês disse quando finalmente chegou.
“-Isso é que foi ser conquistado, Senhor Corisco! Nunca te vi a recepcionar assim tão bem e entusiasticamente… o meu cão gosta de ti, Inês.
O cheirinho bom que sentiste é da minha tarte especial de maça, inspirada na “Tarte Tartin”. Espero que gostes…”
“-Ainda está para ser inventada a tarte a que eu consiga dizer que não… por isso, vou gostar de certeza!”
“-Entra, e vem ver o projecto. Tive ainda tempo para fazer uma maquete, embora seja muito rudimentar, sem grandes pormenores. Mas já dá para fazeres uma ideia, não só da casa como de todo o terreno à sua volta.”
E Pedro mostrou a Inês como imaginou a sua futura casa, explicou-lhe tudo. Nada ficou por descrever.
Depois de detalhar o exterior e o interior, também descreveu o seu plano para todo o terreno envolvente, incluindo um pequeno cais de madeira à borda de água.
“-O terreno fica a 800 metros de altitude, em plena serra. Sabes que a probabilidade de teres neve e gelo nos meses mais frios de Inverno é muito grande, não sabes? Podes até chegar a ficar isolada com a estrada intransitável por causa do frio. A pensar nisso, projectei a casa da lenha encostada a uma das paredes da casa, com uma entrada interior, caso necessites. Também no exterior, esta casinha que aqui vês ao pé da eira é a casa da fruta. Tem prateleiras de cima a baixo em três dos seus lados, fundas, onde podes guardar para além de fruta, legumes em cima de uma cama de palha para os ires gastando durante o Inverno. No meio do matagal que rodeia a clareira, descobri Macieiras, Laranjeiras, Pereiras, Nogueiras, dois Castanheiros gigantescos, vários Medronheiros e uma Cerejeira que, se não me engano muito, são daquelas cerejas grandes e carnudas, sabes, daquelas que não são temporãs, são das últimas a aparecerem, meias esbranquiçadas … mas as melhores! Não te vai faltar fruta… só precisas de plantar um Limoeiro.
Do outro lado, a outra pequena construção que vês é a casa do Fumeiro. Terá o chão e as paredes em pedra e o tecto atravessado por traves, em ferro forjado, com muitos ganchos. Será onde poderás fumar as tuas carnes e peixes sem correres nenhum risco de incêndio, nem ficares com o interior da tua casa a cheirar a fumo. Eu tenho um fumeiro assim e acredita que é das coisas melhores que podemos ter, um fumeiro só nosso!
A fechar todo o comprimento do terceiro lado da eira, como podes aqui ver, ficará um espécie de alpendre, com o pé direito alto, portas grandes e fortes, com boas janelas para ser o teu Atelier, ou então simplesmente para guardares peças de madeira grandes, ou até mesmo para servir de Garagem.”
“-O resto parece-me que já não é novidade para ti: uma Capoeira e uma Horta: indispensáveis num modo de vida saudável e auto-suficiente. E então, que me dizes? Gostas?”
-“Pedro… estou sem saber o que dizer! Eu estava à espera de uma simples casa com quatro paredes e tu projectas uma coisa extraordinária destas! Não sei se tenho dinheiro para isto tudo…”
“-Ainda bem que falas disso, pois tenho um negócio para te propor…
Desde que era estudante de Arquitectura que sempre pensei fazer, um dia, uma casa especial. Mas para isso teria que estar inserida num sítio também especial. Posso dizer-te, com toda a certeza, que o sítio por que tanto procurei é o teu terreno. Tem tudo o que eu tenho vindo a imaginar, ainda por cima à borda de um rio! Sabias que a juzante do rio que passa no teu terreno existe umas ruínas do que já foi uma Azenha? Confirmei na Conservatória que ainda te pertence. Pode-se arranjar aquilo também. Reconstruíamos o moínho, pois a mó e o engenho sob o qual ela roda ainda estão em boas condições, apenas a precisarem de um restauro das madeiras, que apodreceram com os anos e a humidade. Por sorte, o mais importante ficou protegido com parte do telhado que ao cair, se encaixou de uma boa forma e acabou por salvar tudo que era fundamental.
Sei que posso fazer planos com este projecto para me candidatar a um Prémio internacional de Arquitectura, o da Catalunha, por exemplo. A minha proposta é de cobrar-te apenas os materiais e dares-me a possibilidade de eu fazer tudo à minha maneira. Mas não é tudo, também tenciono usar o teu trabalho de entalhe em algumas vigas de madeira na casa. Gosto muito da tua talha e acho que a utilização dela neste projecto seria perfeita…não precisas de decidir já, fala com alguém teu amigo para teres outra ou outras opiniões. Não te quero pressionar. E agora, que tal uma deliciosa fatia de tarte de maça?”
“-Não sou uma pessoa indecisa, Pedro. Aquela foi há já muitos e muitos anos a casa onde a minha Avó nasceu e foi criada, até se mudarem para a vila. Adoro aquele lugar. Quando lá estou, de alguma maneira, consigo serenar o meu coração. Deve ser a afinidade dos laços familiares. A minha Avó foi uma benção que tive na vida, desde que eu me lembro, sempre fomos muito unidas. Eu quero ir viver para lá. A tua proposta parece-me excelente, por isso, a minha resposta é um gigantesco sim, aceito as tuas condições, Pedro…”
“-És uma mulher decidida, já vi. Gosto disso. Mas no entanto, preferia que pensasses melhor…. e porque estás a gemer, Corisco? Estás com medo, parece-me… ou é tudo fita para mais um pedaço de tarte? Parece-me que vamos ter tempestade mais cedo do que eu pensava. O Corisco costuma pressentir as trovoadas…”
Pedro levantou-se e foi espreitar o Barómetro.
“-Bolas! Não me lembro de ver a pressão descer assim tão rápido… Esta vai ser das boas…, Inês, não te quero apressar, mas o mais sensato era ires embora agora. Repara como tudo escureceu de repente e ainda não são sequer cinco horas…”
Mal Pedro tinha dito isto e um clarão ao mesmo tempo que um estrondo enorme fizeram estremecer toda a casa… e o Corisco, que tentou aninhar-se nas pernas de Pedro, rabo encolhido e orelhas para baixo, gania aterrado. De imediato se começou a ouvir aquela chuva grossa que começa espaçada, para dois minutos depois se transformar numa torrente pesada e contínua. E os relâmpagos sucediam-se uns aos outros, intervalados por grande trovejar. Parecia que o mundo estava a explodir de luz, som, vento, granizo e água.
“-Que tempestade! O melhor é ir-me embora mesmo…”
“-Agora? Nem penses. Não te deixo desceres a estrada debaixo desta borrasca. Eu conheço bem o caminho, não ias em segurança. Estás oficialmente convidada para jantares comigo e com esta bola preta e branca de pelo que tenho grudada às minhas pernas. Então, Corisco? Não precisas de ter medo, não te envergonhes mais, seu mariquinhas!”
Mas a tempestade não passou. Muito pelo contrário, foi-se agravando pela noite fora.
Inês jantou com Pedro:
uma boa salada de legumes assados (nabos, abobrinha, pimentos, beringela, espargos e bróculos com pedaços de frango, tudo misturado com couscous e acompanhado com fatias grossas de pão torrado barrado com azeite, alho e molho picante. Pedro fez tudo rapidamente. Abriu uma garrafa de um bom vinho tinto e sentaram-se à mesa, cada um bebericando pelo seu copo enquanto comiam. Falaram sobre o projecto da casa. Pedro ouviu atentamente o que Inês lhe contou sobre o que esperava daquele seu futuro refúgio. Ela falou-lhe na necessidade que por vezes sentia de se isolar do resto do mundo e até explicou como o fazia. Descreveu o seu trabalho com as madeiras, como as começou a trabalhar e onde tinha aprendido a fazê-lo. Pediu a Pedro que fizesse o seu Atelier com janelas grandes, pois gostava sobretudo de trabalhar com luz o mais natural possível. Inês, quando se apercebeu que tinha estado a falar sobre si mais de duas horas seguidas com um quase estranho, retraíu-se e lembrou-se de que tinha decidido não se abrir tanto com ele. Mas Pedro, serenamente, apercebendo-se do súbito embaraço dela, chamou a si as honras da conversa e falou do quanto ele apreciava o seu espaço e da sua nova vida despojada de coisas inúteis e de pessoas dispensáveis, também.
A conversa deles fluía, prazerosa e plena de descobertas um sobre o outro. Partilhavam o mesmo sentido de humor, e naturalmente o riso, de vez em quando, tomava conta deles. Inês era expressiva, e tirava partido disso ao contar alguma das peripécias que tinha vivido na Feira de Artesanato. Pedro ria-se e puxava por ela fazendo uma ou outra pergunta estratégica, para que Inês continuasse a falar e a contar as suas vivências.
E lá fora, a tempestade continuava e não dava sinais de abrandar…
Chegou a meia-noite. Corisco continuava engalfinhado nas pernas de Pedro, aterrado.
“-Isto não é bom presságio, parece que vai continuar pela noite dentro. Os animais têm um sentido qualquer que adivinha estas coisas e normalmente este mariquinhas não se engana… Não tens vergonha, tu que és um cão de caça do melhor que há, nunca te assustas nem com o tiro de uma Caçadeira e com uns trovoezitos ficas assim?? Pronto, pronto… há-de passar. Queres a tua comida?”
Mas a borrasca não passou. Inês acabou por ter que ficar lá a dormir. Ficou na cama, enquanto Pedro se deitou noutra, improvisada, no tapete da sala e com o Corisco encostado a ele, eternamente agradecido pelo apoio que estava a receber do dono que até veio dormir com ele…
Já a noite ía avançada quando Pedro acordou com um grito lancinante e perturbador. Corisco, com o susto, começou a ladrar. Demorou umas fracções de segundos até Pedro perceber que era Inês que gritava aflitivamente, ainda de olhos fechados. Estava a ter um pesadelo…. Levantou-se de um salto e foi ter com ela. Inês esbracejava e pontapeava alguém que imaginava estar a ver. Pedro, antes de a conseguir segurar, ainda apanhou uns pontapés. A angústia e o desespero eram evidentes na expressão corporal e na voz de Inês.
“-Não, não! Não podem fazer isso! Por favor… parem, parem!!” – gritava Inês, contorcendo-se dentro do abraço cada vez mais apertado de Pedro, para a acalmar.
“-Inês, estás a sonhar! É só um sonho, tem calma… pronto, pronto… já passou… “- dizia Pedro enquanto a segurava.
Inês acordou e, desatando a chorar contou a Pedro o sonho que tinha tido:
“-Estavam uns homens a cortar o meu filho aos pedaços, pernas e braços, enquanto eu lhes arrancava das mãos o que eles iam tirando e desesperadamente voltava a colar tudo no sítio. Mas eles eram dois, e eu não estava a conseguir impedi-los de lhe fazerem mal ao mesmo tempo que tentava colar tudo de volta… E a vida do meu filho dependia da minha rapidez, e eu não estava a conseguir… não fui suficientemente rápida e o Manel estava a desaparecer! E os olhos dele que não paravam de me pedir ajuda.. Meu Deus, que aflição! ” – e continuava a chorar e a tremer “-Foi horrível, foi horrível!” mas, gradualmente, começou a serenar, ainda dentro dos braços de Pedro que nada dizia para além de quase cantarolar algumas palavras de conforto enquanto a embalava suavemente. Passaram uns minutos e Inês, tomando consciência da realidade, daquela situação estranha entre os dois, soltou-se rapidamente dos braços dele, limpou o melhor que conseguiu as lágrimas que ainda lhe corriam pela cara e, atabalhoadamente, procurou as suas coisas para se ir embora, enquanto dizia:
“-Desculpa-me, desculpa esta cena ridícula, por favor! De vez em quando tenho este sonho, só nunca o tinha tido à frente de ninguém… que triste espetáculo devo ter dado! Desculpa, Pedro! Esquece o que se passou, preciso que te esqueças disto.
Agora já posso ir para casa, já passou a tempestade e o dia está prestes a nascer. Obrigada por tudo, depois falamos melhor, sim?”
“-Nem tens que pedir desculpa, nem sequer tens que te ir embora assim. Porque não dormes mais um bocado?”
“-Obrigada, mas tenho mesmo que ir embora, a Zézinha, a minha melhor amiga, ficou de lá ir ter a minha casa durante a manhã. Vamos almoçar juntas. Ela costuma sempre vir cedo, e eu ainda tenho que ir fazer umas compras.”
“- Às cinco da manhã?!?”
“- Pedro, vê como o céu está todo estrelado e tão límpido! Vamos ter um dia excelente, cheio de sol, aposto! Então até logo, Pedro! Adeus Corisco bonito!”
Ele não insistiu, percebeu bem que Inês estava a fugir. Ficou a vê-la meter-se apressadamente no carro, arrancando dali para fora o mais rápido que conseguiu…
“- Que vergonha! Porque tinha logo que sonhar aquela coisa horrível em casa dele? E ficamos uma eternidade de tempo abraçados! Inacreditável… que raiva! Com que cara vou conseguir enfrenta-lo de novo?”
E passou-se mais de uma semana sem voltarem a falar. Inês evitava o encontro com Pedro a todo o custo. Tinha-se instalado o embaraço entre eles. Trocaram e-mails para tratarem dos contratos de construção redigidos por Pedro e supervisionados pelo Advogado de Inês.
Chegou mais um dia de Feira do Artesanato.
Cumprimentaram-se, sorrisos constrangidos, e ajudados pelo Corisco que saltitava feliz da vida por ver a sua nova amiga outra vez.
-“Olá Inês, tenho andado ocupado a preparar um curso que vou ter que dar no próximo mês na Suécia, por uma semana. Ficarei mais outra fora, porque vou aproveitar para visitar o meu filho Miguel a Bergen.
Mas não te preocupes, assim que o teu contrato de construção ficar pronto, tenho já alguém que tratará de todas as licenças necessárias.”
-“Também eu tenho tido muito pouco tempo, tenho trabalhado muito. Já te devia ter ligado, mas sempre que parava um bocado para descansar e me lembrava de o fazer, as horas eram já muito incompatíveis com as tuas de deitar… desculpa, sim? Sinto-me em falta contigo, nem te agradeci pelo jantar que me ofereceste no outro dia… hã… e pelo resto, também…”
“-Tranquila… estou a ver que tens muita obra.
Gosto muito desta talha aqui, é nova não é?”
“-Sim, foi a última que fiz, por acaso.”
“-Gosto destas flores, são rosas?”
“-Não, são Camélias, uma das minhas flores preferidas.”
“-Hááá… então foi por isso que reparei nelas. A minha Mãe gostava muito delas. Este motivo era o ideal nas traves a entalhar para usar na tua casa, que achas?”
“- Adoro. Quando tiveres a madeira, posso começar a trabalhar nelas. Já a encomendaste? Sempre vais usar a de pinho de Riga? Eu gosto dela para trabalhar…”
“-Já está encomendada. Mando-te entregar na tua oficina as traves e tábuas que são para decorar por ti. Bem, vou ter que ir atender aqueles clientes que chegaram agora à minha banca, até logo!”
-“Até logo, Pedro”
E foi com um certo alívio que Inês viu Pedro a afastar-se. Mas não podiam continuar assim, daqui para a frente teriam muito que discutir e decidir sobre a obra e por isso mesmo, para tudo correr bem, as coisas entre eles tinham que ficar o mais claras possíveis.
“-Amanhã penso nisso…”
E o amanhã chegou e Inês foi falar com Pedro. Ambos confessaram não estarem preparados nem interessados em novas relações. Falaram durante um bom bocado e esclareceram muito bem que não queriam ter nenhuma espécie de expectativa para além de uma boa amizade. Daqui para a frente, teriam que estar muitas vezes juntos, decisões, planos e muito mais que seria preciso para definirem em conjunto o melhor para a construção da casa da Inês.
O tempo foi passando, a casa passou do projecto para a fase da construção, pouco a pouco, assim como ía crescendo a amizade entre os dois, sem constrangimentos.
As suas conversas pareciam intermináveis, tinham mesmo que se imporem a eles próprios a necessária disciplina para não ficarem pela noite dentro a falarem. Inês sempre que descobria um artigo ou texto interessante, trazia-o para os dois o discutirem. Nem sempre coincidiam nas opiniões mas até isso era estimulante para esgrimirem os seus argumentos com os do outro. Partilhavam também de um sentido de humor muito particular. Inês era muito observadora e apanhava coisas que passavam ao lado de Pedro, sem as ver. Pedro ria-se perdidamente com a descrição feita por Inês das conversas que ela tinha com os trabalhadores das obras:
“-Háháhá, como é possível eu nunca ter reparado nesse tique nojento do Sr. António Carpinteiro? Háháhá!”
“-O quê? Mas o Ferreira disse mesmo isso da mulher dele?!? Que tinha medo dela que se pelava?!? Háháhá, mas arma-se em forte com os trolhas que por lá andam… Um mariconço, é o que ele é afinal de contas!”
Jantavam juntos, experimentavam as especialidades culinárias um do outro e Pedro ensinou Inês a apreciar vinho de uma maneira que Inês nunca tinha feito. Trocavam livros, ouviam música que lhes era comum no gosto e género: música de câmara na sua generalidade. Piano, Violoncelo e Violino, um trio mais que perfeito para ambos.
Pedro também tinha como uma das suas preferidas a música Celta. Com a sua colecção de discos e repertório muito variado, conseguiu fazer Inês perceber a beleza dessas músicas tocadas e cantadas por trovadores.
Em dias mais nostálgicos, confidenciavam-se mutuamente o que lhes afligia os corações. Inês falava-lhe do Manel, contava-lhe tudo sobre ele. Descrevia-lhe pormenorizadamente a sua doçura, o seu espírito sempre optimista e a sua beleza:
“-O meu filho era o rapaz mais bonito que eu alguma vez conheci! Sabes, mesmo recém-nascido ele era muito bonito… e que bem que ele cheirava, era como se tivesse nascido já perfumado. Parece que ainda lhe sinto o cheirinho, tenho tantas, mas tantas saudades de tocar na pele dele, de o abraçar, de apenas olhar para ele…, não imaginas o tamanho do buraco que a partida do Manel me fez no meu coração, Pedro…”
E inês chorava, deixava as suas lágrimas escoarem do tal buraco que tinha dentro de si e que se chamava Manel. Mas já sem qualquer constrangimento, pois sabia agora que Pedro a amparava no seu desgosto. Que bom era puder falar do seu filho sem os paternalismos habituais!
Pedro também lhe confidenciava episódios da sua infância que em nada lhe tinha sido facilitada. A morte prematura de seu Pai, quando ele tinha apenas 8 anos, obrigou-o a crescer depressa demais, chamando a si a responsabilidade pelas suas irmãs mais novas uma vez que a Mãe tinha que trabalhar o dobro para conseguir sustentar a sua família, sozinha.  Tinham sido tempos muito difíceis, atenuados apenas depois da sua Mãe ter casado com um bom homem, seu Padrasto, mas que para ele e para as suas irmãs se tinha tornado afinal num verdadeiro Pai.  Brincadeiras e jogos próprios de rapazinhos não existiram para Pedro… e para conseguir tirar o seu Curso de Arquitectura, durante mais de cinco anos trabalhara o mais que conseguia, assistia às aulas e ainda ocupava metade da sua noite a queimar as pestanas a estudar ou a fazer os trabalhos exigidos pelos seus Professores.
Falavam do casamento falhado dos dois. Identificavam o que lhes parecia que tinha falhado. E falando sobre isso, apercebiam-se que os erros tinham vindo já desde o início das suas relações afectivas. Um ponto comum era a inexistência de uma verdadeira amizade que se sobrepusesse ao amor, à paixão. Pedro e Inês sabiam agora, talvez tarde de mais, que paixão sem amizade de pouco vale, desmorona qualquer relação supostamente duradoira. Estavam os dois de acordo quando afirmavam que tinha sido pelos filhos que aguentaram mais tempo os seus casamentos.
E o tempo continuava a passar, faltava pouco para a casa estar terminada. Pedro, sempre empenhado e perfeccionista, não deixava nada ao acaso. Por mais de uma vez tinha mandado desfazer trabalho já feito por ter descoberto uma pequena falha algures lá para trás.
Estava determinado a passar tudo por um crivo contra imperfeições, só a excelência lhe servia. Só assim teria hipótese em ganhar algum prémio ou distinção de Arquitectura e Paisagismo.

(Continua…)

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