Pedro e Inês – terceira parte.

Terceira parte.

A cumplicidade entre os dois aumentava ao mesmo ritmo que a casa ía sendo construída. De igual modo, estavam a alicerçar tanto a amizade como o futuro lar de Inês. Pedro já quase adivinhava os pensamentos de Inês. Cada vez mais a admirava. Pela sua inteligência, pela sua generosidade, pela sua capacidade de contornar as dificuldades diárias, pelo seu espírito de humor, pela tristeza que vivia dentro dela. Tudo isso fazia parte dela e tudo isso o encantava cada vez mais. Inês era uma mulher que inspirava confiança, nada tinha de futilidade e, por mais que lhe custasse, dizia sempre a verdade. Quanto melhor a conhecia, mais bonita ela se tornava aos seus olhos. Havia noites, daquelas em que os dois partilhavam as suas vidas passadas, as boas e más experiências, que trocavam confissões nunca antes sequer faladas em voz alta, que Pedro não conseguia desviar o olhar dela. Ou melhor, os seus olhos eram comandados pelos seus movimentos, por mais pequenos que fossem, por um sorriso, por um pestanejar, por uma ou outra inflexão da sua voz, pela maneira como Inês se encostava às costas da cadeira, por um gesto expressivo das suas mãos a ajudar a qualquer explicação … Tudo nela o hipnotizava, tudo o que via ficava memorizado e ao ficar só revivia assim os momentos passados com ela. Pedro sentia-se bem na sua companhia. Não passava um dia sem que falassem, pessoalmente, ou por telefone ou numa simples troca de mensagens escritas.
Tacitamente, faziam questão que o outro soubesse onde estavam ou o que tencionavam fazer nesse dia. E era com alegria que se reuniam novamente depois de dois ou três dias sem se verem. Impressionante como parecia terem sempre o que conversar! Os temas surgiam naturalmente, ou porque havia alguma coisa que estava a preocupar Inês, ou então porque Pedro não sabia como reagir perante uma determinada situação. Ajudavam-se mutuamente a encontrar soluções para os seus problemas. E nenhum dos dois tinha alguma vez tido essa experiência. Havia confiança e muita lealdade entre os dois. Havia paciência e havia sobretudo uma vontade recíproca de se valerem um ao outro. E ainda havia espaço para se divertirem, tal como daquela vez em que tinha aparecido um rato na sala, quando estavam a jantar: Inês teve que lutar com Pedro e com o Corisco para que não matassem o pobre do rato! A cena tinha sido muito caricata, estilo desenhos animados. O rato fugia espavorido em todas as direcções, Pedro empunhando a vassoura tentava apanha-lo, Corisco aos zigue-zagues quase o conseguia abocanhar e por trás de todos estava Inês a bater em Pedro e em Corisco com uma colher de pau que tinha apanhado na cozinha numa tentativa de salvar o pobre do rato. E o pobre do rato salvou-se mesmo, aproveitando uma bela oportunidade que foi no exacto momento em que todos tropeçaram em todos e se estatelaram no chão, começando a rir às gargalhadas.
“-Mas que mania que vocês homens têm de matar ratos!” – dizia Inês.
“-E eu nunca vi uma mulher a defender um rato, e tu Corisco, quando parares de nos lamber e saíres de cima de nós, podes dizer-nos se é normal uma mulher não ter medo de ratos?”

Pedro cada vez mais se interrogava se o que sentia por Inês poderia ser mais que amizade. Nunca se tinha sentido assim com nenhuma outra mulher. E, apesar do acordo que ambos tinham feito em não criarem expectativas para além de uma boa amizade, Pedro começou a pensar que, se calhar, já há muito tinha deixado de ser apenas amizade. Adormecia a pensar em Inês e acordava com ela no seu pensamento. O seu coração transbordava de alegria sempre que a via e começou a sentir uma estúpida necessidade de a tocar, de a sentir junto a si, de respirar o seu cheirinho especial.
Para Pedro, estar com Inês acalmava-o, era como se tivesse um repouso consolador ao mesmo tempo que lhe transmitia uma força motivadora para tudo o que tinha de fazer, por mais difícil que fosse.
Pedro tinha lido algures que as pessoas são amadas pelo que merecem ser amadas.
E Pedro não se lembrava de ninguém que merecesse ser tão amada como a Inês merecia. Ela já tinha passado por tanto na vida, já tinha sido tão desrespeitada, tão mal tratada até…. não havia ninguém mais merecedora de ser amada do que ela! E o coração de Pedro amava Inês… em segredo. Segredo dele e de Corisco, seu habitual confidente.
“-Então, Corisco? Dei muito nas vistas, hoje? Fiquei com o coração aos pulos quando a Inês me fez o nó da gravata! Tu não ouviste nada, amigo? É que me parecia um festival de Tambores…”
E Corisco, muito circunspecto, orelhas espetadas, inclinava o focinho ora para a esquerda, ora para a direita… atento aquelas palavras que preenchiam a sua bela vida de cão: “biscoito, osso, rua, comida, bolinha, vamos, toma, busca!” e não reconhecendo nenhuma delas, acabava por concordar com o seu dono, abanando alegremente a sua confusão preta e branca que era a sua cauda.

Pelo seu lado, Inês andava francamente mais alegre. Sentia-se bem consigo própria, de uma maneira inusitada para si. De vez em quando assomava em si aquela tristeza imensa pela morte de Manel, mas agora, sabia que podia contar com alguém para a ajudar a destilar essa sua angústia. Não hesitava em ir ter com Pedro sempre que se sentia mais em baixo. Sabia que ele a ajudaria a por-se de novo em pé, como uma verdadeira sobrevivente, que era como ele a fazia sentir-se.
Mas também era em quem pensava em primeiro lugar quando algo lhe acontecia de bom. Quando recebeu a notícia que Rita estava à espera de bebé, no meio da sua felicidade, tornou-se imperativo para ela ir ter com Pedro para lhe contar isso, que ía ser Avó!
Que bom era ter um amigo assim! Zézinha, curiosa por natureza, estava sempre a insinuar que Inês não lhe estava a contar tudo. Achava que o que eles tinham era tudo menos amizade. Não acreditava em Inês quando esta lhe dizia que não havia nada entre eles nem haveria nunca, para além de serem muito amigos.
“-Eu já te disse que nenhum de nós está interessado em sermos mais do que bons amigos!” dizia Inês a Zézinha.
“-Mas tu pensas que me enganas? Eu conheço-te muito bem: achas que esse sorriso que está ultimamente permanentemente estampado na tua cara não é de uma pessoa que está completamente apaixonada?”
“-Eu, apaixonada? Pelo Pedro? Estás maluca! Eu acho que nem pelo meu ex-marido me apaixonei… nós somos dois solitários que, de repente, descobriram que é bom termos uma boa companhia, só isso, apenas isso…”
“-Sim… sim, claro que é apenas isso. Fora o resto!”

E os trabalhos na casa nova de Inês avançavam. O edifício principal já estava concluído. As traves talhadas pela Inês, pareciam fazer parte integrante da casa. Era, sem dúvida alguma, o que mais charme dava ao local. Tinha sido uma boa aposta de Pedro. Uma delas marcava o cimo da porta de entrada – porta essa que tinha sido pintada de azul turquesa – trabalhada tanto no lado exterior como no lado interior. A talha era de flores – as camélias – embutidas num entrelaçado de grinaldas de folhas de hera e loureiro. Tudo coberto por uma finíssima camada de cera que dava alguma patine à madeira. Que bonito ficava o contraste da trave com a cor da porta! Nas grandes janelas de toda a fachada, eram as portadas que tinham nos seus contornos as mesmas grinaldas de folhas e flores. Tudo isso, encaixado entre o chão do alpendre e o telhado coberto de vegetação, formava um todo muito harmonioso.
Pedro e Inês, andavam agora concentrados na decoração do interior. Pedro sempre a reduzir objectos inúteis, Inês sempre a achar que iria precisar de mais coisas…
Mas acabavam sempre por chegar a um acordo aceitável para os dois. Pedro era minucioso, Inês era muito clássica. Tinham que ter sempre em conta o facto de a casa ser uma futura candidata a um bom prémio de Arquitectura.
E os arranjos no exterior também avançavam a bom ritmo. Existia agora um pequeno cais, perpendicular à margem, que terminava num ângulo recto á direita. Do lado esquerdo, Pedro tinha construído um terraço elevado, numa estrutura em ferro forjado e madeira. Era quase uma “casa na árvore”, só que aqui não se tinha usado nenhuma árvore para apoio. Uma espécie de pérgula fazia de cobertura. Apesar de seguro, todo o conjunto aparentava ser frágil e leve, tal era a simplicidade com que tinha sido feito. Um lugar especial para se usufruir da beleza que era o rio e tudo à sua volta naquela espécie de lago. Virado a Poente, as previsões eram de belíssimos momentos a apreciar o pôr-do-sol…
Agora os trabalhos concentravam-se no exterior, nos anexos, no jardim, na Horta e no Pomar. A Azenha, mais afastada, também estava a ser alvo de restauro.
A casa do Fumeiro e a casa da Fruta estavam prontas e acabadas, à espera de carne, peixe e enchidos assim como de fruta para ocuparem os seus lugares. Pedro fez algumas experiências na casa do Fumeiro, e verificou pessoalmente se havia alguma parte mais frágil das estruturas que pudessem ser usadas como entradas para animais roedores ou rastejantes. Tudo estava em ordem.
O Galinheiro estava dividido em três partes: o abrigo nocturno, todo fechado e com uma das paredes forrada a divisórias para as poedeiras lá porem os ovos, com uma prática abertura pelo lado de fora para se apanharem os ovos. Seguia-se um corredor largo, em terra batida, ideal para os banhos de sol e de pó que as galinhas tanto gostavam e necessitavam de fazer, para se livrarem da praga de insectos. A terceira secção era um Caramanchão, de ferro forjado e com trepadeiras que cobririam mais tarde toda a rede que o fechava. Servia para fornecer sombra e de excelente sítio para as galinhas procurarem insectos e minhocas . O Pomar, já tinha plantados Limoeiros, tangerineiras e duas variedades de Pereiras e Pessegueiros. Tudo simétrico e tudo bem planeado a pensar na justa medida de sombra e sol que cada uma das árvores precisariam.
E finalmente a horta! Os canteiros eram elevados, demarcados com madeiras e pedra de xisto originária da região. O sistema de rega, uma imposição de Pedro, era feito através de canais construídos em madeira com saídas de água estrategicamente colocadas de forma a que todos os canteiros fossem regados por igual. A Primavera já ía adiantada, por isso eram poucos os legumes e vegetais plantados. Ainda se conseguiram Tomateiros, Alfaces, Pimentos, feijão e Abobrinhas. Para o ano, mais cedo, plantar-se-ía mais variedade!
O processo da candidatura ao prémio que Pedro sonhava já tinha sido aprovado. Tinham apenas duas semanas antes de receberem uma Comissão, vinda directamente de Espanha, para fazer a avaliação do projecto.
Mas duas semanas podiam ser uma eternidade de tempo para se estragar muita coisa boa… e estas que faltavam, não foram nada boas para Pedro e para Inês…

(continua)

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