A torneirinha – primeira parte

Torneirinha era uma criança vivaça, irrequieta, e muito inteligente. Era conhecida por todos na Freguesia da Vitória e nas outras que a ladeavam. Vivia numa casinha modesta, na Rua da Ponte Nova. O seu nome de Baptismo era Cecília Maria, mas era tratada por Torneirinha desde bebé, porque seu Pai era fabricante de torneiras, em madeira, para os túneis de Vinho do Porto.
De manhã bem cedo, saía de casa, descalça se fosse no tempo quente e com tamanquinhos em madeira se fosse no tempo frio. Levava a tiracolo uma sacola costurada em pano cru, com muito cuidado, para não partir a sua lousa e lapiz de grafitti. Sua Mãe já tinha dito que, se partisse mais alguma, não tinha dinheiro para lhe comprar outra. A sua merenda: azeitonas, um naco de queijo e um pedaço de broa, também ia muito bem embrulhada num trapo limpo de linho e acomodada dentro da sacola.
Torneirinha levava o seu cabelo preto muito bem preso em duas tranças atadas em baixo com um trapilho colorido, que lhe emolduravam a sua cara morena e sardenta. Seus olhos, de um castanho quase verde, sobressaíam-lhe na figura e eram o que mais chamava a atenção de quem com ela se cruzasse na rua. Era franzina e o vestido que trazia, sem mangas e com uma camisola por baixo, estava-lhe largo e comprido, fazendo-a parecer ainda mais magrinha. Era o vestido que tinha herdado da sua prima Alice, que já tinha saído da escola e andava agora a servir numa casa lá para os lados do Bonfim. Por cima do vestido, tinha ainda um bibe com folho nas alças e na baínha. Tudo muito asseado.
– Bom dia Torneirinha! Já vais para a escola?
– Bom dia D. Alzira, vou sim, minha senhora… respondeu ela, com um sorriso muito simpático.
– Então vê lá se te portas como deve ser! E estuda bem a lição para a Senhora Professora não se zangar contigo… Toma lá, são para ti…
E D. Alzira, dona da Venda na Rua de Santa Catarina das Flores, metendo a mão ao bolso, tirou de lá dois rebuçados da Régua que enfiou dentro da sacola da criança.
– Obrigada, D. Alzira! A sua benção…
– Deus te abençoe, minha filha!
E Torneirinha continuou a descer a rua, em direcção a S. Domingos. Pelo caminho, juntou-se-lhe o Zé Bento e a Aninhas, seus amigos e colegas na Escola Primária de S. Nicolau. Eram os três vizinhos e companheiros de brincadeiras e aventuras. Já todos tinham sido baptizados pelos Indios da Cordoaria, fazendo finalmente e oficialmente parte do bando de miudagem da zona. Agora, passados que estavam a expectativa e o tormento que foi a antecipação desse baptismo, que consistiu em serem mergulhados à bruta na bica da Relação por uns longos momentos, em pleno Inverno, e de seguida, terem que pisar os dois pés de um Polícia e fugir sem serem apanhados ou sequer tocados pelo Guarda, sentiam um imenso orgulho de pertencerem ao bando dos Indios da Cordoaria, que eram temidos e admirados pelos outros bandos de miudagem, os de Miragaia, do Bonfim, de S. Roque ou mais lá para o lado do mar, os do Ouro e os da Cantareira.
Ainda antes de chegarem à escola, Torneirinha tirou os rebuçados que a D. Alzira lhe tinha oferecido da sacola, desembrulhou-os do seu papel e, com a ajuda de uma pedra que procuraram pelo caminho, partiram-nos em pedaços mais pequenos que dividiram pelos três. Que bons que eram! Zé Bento acabava sempre lambuzado nos beiços, nariz e dedos. Não metia os pedaços todos na boca, preferindo lambe-los enquanto os segurava nas pontas dos dedos.
Não eram muitas as vezes que estas três crianças comiam guloseimas, na verdade, sem contar com algumas amêndoas pela altura da Páscoa, eram as únicas que comiam… E Aninhas ainda não se esquecera quando uma manhã de Natal encontraram, ela e os seus três irmãos, um guarda-chuva de chocolate dentro de cada um dos tamancos que tinham deixado junto à lareira da cozinha para se, por acaso, o Menino Jesus por ali passasse, se lembrasse deles. Mas mal o seu irmão Joaquim viu os chocolates , exclamou:
– Mas não foi o Menino Jesus!! Eu vi-a a comprar estes guarda-chuvas ontem na mercearia do Bolhão, Senhora minha Mãe!
-Ai vistes? Pois não tinhas nada que ver! Acabaram-se a partir de agora os presentes do Menino Jesus! – respondeu a Mãe enquanto lhe dava dois tabefes, que era para ele aprender a ficar caladinho!
Que grande morcão: a partir daí nunca mais receberam nada…
Nesse dia, entraram na escola com o estômago reconfortado pelos rebuçados, as raparigas para o lado esquerdo e o Zé Bento, que ía todo pegajoso, para o lado dos rapazes, á direita… a meio da manhã, a Professora mandou-o ir lavar a lousa ao tanque lá de fora, depois de ter ficado com o seu dedo indicador quase colado à ardósia ao tentar apagar uma perna da letra Éme muito mal feita pelo Zé Bento…
– Que porcaria vem a ser esta, Zé Bento? Estou farta de vos avisar: as vossas lousas têm que estar sempre limpas! Pega na tua e vai lavá-la lá fora à Bica, já!
E, enquanto a Professora dizia isto, com a sua mão esquerda – a limpa – torcia com força uma das orelhas do pobre Zé Bento.. quando a soltou, a orelha, toda ela era vermelha e tinha ficado com uma inclinação estranha, de tanto ter sido apertada. Zé Bento, resistindo heroicamente ao choro, levantou-se e obedeceu à Professora. Antes de lavar a lousa, inclinou a cabeça debaixo da bica e deixou correr pela sua dorida orelha a água fresca e calmante….

Corria o mês de Junho, quase a terminar a sua última semana. Já há muito tinha chegado o Verão. Nesse ano o calor tinha vindo para ficar, logo em Maio. Torneirinha e os seus amigos antecipavam entusiasticamente as suas férias escolares, faziam planos e imaginavam já a sua concretização. Este Verão a Torneirinha tinha decidido que ía saltar da ponte para o rio, já sabia nadar bem e com 9 anos quase feitos já estava na altura de se estrear nos saltos acrobáticos desde a ponte D. Luiz. A antecipação disso fazia-a tremer de medo, mas não dava parte de fraca. O Manel e o António, lá de baixo de Miragaia, diziam-lhe que ela não ia ter coragem para o fazer! Troçavam dela quando dizia que sim, que “ia saltar este Verão!”
– Háháhá! Tu és mesmo engraçada: achas que alguma rapariga ia conseguir saltar da ponte? Háháhá… Cresce e aparece, miuda!
Mas Torneirinha estava determinada a dar o salto! Pediu à Aninhas e ao Zé Bento para a ajudarem a treinar. Como estavam na última semana de aulas, a Professora já não lhes dava trabalhos para casa, sendo assim, depois das aulas iriam ao rio, mas do lado de Gaia para ficarem longe dos olhares trocistas do Manel e do António, e Torneirinha praticaria os mergulhos no cais velho, mesmo defronte da Alfândega.
Combinaram tudo isso durante o recreio, através da rede que dividia os rapazes das raparigas, enquanto comiam a merenda. Combinaram também uma corrida de Sameiras para o dia seguinte, na pista deles. As Sameiras eram uma especialidade do Zé Bento que ganhava sempre! Tinha um truque: no fundo da Sameira encaixava muito bem um pedacinho de uma casca de batata, ou de laranja, para dar mais peso e estabilidade à peça. Na Rua da Vitória, junto ao Miradouro, tinham construído uma pista em terra batida. Tinha curvas e contra-curvas, subidas difíceis e mais de doze metros de comprimento. A meta era um pequeno barrote de madeira que Torneirinha tinha surripiado ao seu Pai, na Oficina. Ficava suspenso em cima de dois paralelepípedos encontrados na rua do Eléctrico. A D. Alzira, simpática como era, arranjava as melhores Sameiras à Torneirinha, as mais direitinhas que conseguia… até os meninos da quinta-classe lhes pediam para brincarem com eles na pista das Sameiras!
De volta a casa nesse dia, Torneirinha preparou-se para entrar o mais sorrateiramente possível. Com sorte, a Mãe não dava por ela e assim conseguia ir, logo a seguir às suas tarefas estarem concluídas, para o rio ter com os seus amigos…
E assim foi. Descascou as batatas, cebolas e os alhos, cegou as couves para o caldo verde, juntou a tudo um pedaço de carne fumada que tirou da arca dos salgados, avivou o lume e preparou a sopa para a ceia deles no pote de ferro. Varreu o chão de toda a casa, esfregou o vão de pedra da porta de entrada com o sabão amarelo, como a sua Mãe gostava e ainda foi dar de comer à bicharada toda. Tinham galinhas, e coelhos, no pequeno quintal da casa deles. Era a Torneirinha que tratava deles, sempre. Só não gostava de os matar, mas a sua Mãe não gostava dessas pieguices de “menina rica” e obrigava-a a cortar o pescoço às galinhas ou a dar a mortal paulada na cabeça dos coelhos, “que era para ela se deixar dessas esquisitices”. Torneirinha tinha mesmo que o fazer, e ainda tinha que os comer, o que era o mais difícil de tudo, até ficava agoniada…
Fez tudo rapidamente e, aliviada por a sua Mãe ainda não ter voltado do rio, onde lavava roupa para algumas freguesas, saiu rapidamente de casa, enveredando por umas vielas para lá de Mouzinho da Silveira, evitando assim o encontro com sua Mãe que devia estar a subir do rio e, se a encontrasse, seguir-se-ía a inevitável atribuição de mais tarefas…
Desceu as escadas do Codeçal e atravessou o rio pela Ponte D. Luis. Torneirinha fez o percurso numa correria desenfreada, com as tranças já quase desfeitas a saltitarem sem parar. Ia com pressa, mas ia feliz! O seu coração de menina, apesar de ser obediente e trabalhadora, estava leve, sem preocupações e sem responsabilidades daquelas que a sua Mãe, sempre de semblante carregado, dizia já não suportar mais.
E duas horas depois, molhada, extenuada mas com a certeza que já aperfeiçoara a arte de mergulhar, a Torneirinha voltou para casa, já o sol queria esconder-se no horizonte… e correu de novo ligeira, já preocupada com o que a Senhora sua Mãe lhe ía dizer pelo tardio das horas!
E mais preocupada ficou quando deu com ela de semblante fechado, à soleira da porta de casa. Os braços cruzados sob o peito farto, e o pé direito enfiado num chinelo a bater ritmadamente no chão, não enganavam: a Senhora sua Mãe estava à sua espera e estava muito zangada!
– Cecília Maria! Por onde andaste?!? Mandei os teus irmãos à tua procura e nenhum te encontrou!!! E o que aconteceu aos teus cabelos? Parece que tens um ninho de ratos em cima da tua cabeça!
– Estive com a Aninhas e com o Zé Bento. Fomos para Gaia tomar banho no rio, estava tanto calor.. mas antes eu fiz a sopa, limpei a casa e tratei dos bichos, minha Mãe!
– Sempre a mesma coisa! Por ora escapas ao chinelo. Tenho coisas para te dizer. Esteve cá hoje a tua Madrinha, teve pena de não te puder ver pois queria falar contigo e dar-te a benção.
– A Tia Cecília veio cá? E que me queria ela?
– Cecília, já tens quase nove anos, já sabes ler e escrever, eu e o teu Pai já cumprimos com a tua criação como Nossa Senhora queria que o fizéssemos. Agora chegou a altura de começares a trabalhar para ajudares aqui em casa. Os teus irmãos mais novos ainda precisam de muitos cuidados e atenções. O Bernardino, doente como ele é, só nos dá despesas. Ainda hoje o Doutor disse que ele tem que ir apanhar ares do mar, lá para Espinho, parece que são melhores… isso tudo custa muito dinheiro, e eu mais o teu Pai não ganhamos quase para o dia a dia, quanto mais para extras como este. O que a tua Tia veio cá fazer era pedir para tu ires servir para casa de uma família, conhecida dela. Parece que é gente muito rica. Vais ver que vais gostar. Já estive a preparar a tua trouxa, amanhã bem cedo eu vou levar-te à morada que a tua Tia me deixou, por isso, depois da ceia, despedes-te já do teu Pai e dos teus irmãos, que amanhã já não os vês…
E a Torneirinha, com o seu coraçãozito aos pulos, ainda atordoada com tudo o que a Senhora sua Mãe lhe tinha dito, só pensava no seu mergulho da ponte! E agora? Como ia treinar e como ia fazer para conseguir dar o mergulho? E nem sequer podia dizer isso à Senhora sua Mãe, pois já tinha sido proibida de fazer essas coisas próprias de rapazes…

(Continua)

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