A Torneirinha – segunda parte

 

No dia seguinte, mal o sol tinha nascido, já a Torneirinha estava pronta para sair de casa mais a sua Mãe, em direcção à Rua Álvares Cabral, onde a casa da tal família ficava.
Torneirinha tinha adormecido, na noite anterior, no meio de muitas lágrimas. Estava assustada, com muito medo. Ia ter muitas saudades de todos… dos seus irmãos, dos seus pais, de toda a sua vizinhança, e sobretudo dos seus grandes amigos, a Aninhas e o Zé Bento. E fartou-se de magicar como haveria de conseguir dar o seu mergulho inaugural da ponte para o Douro… iria fazê-lo neste Verão, iria cumprir a sua palavra! A sua prima Alice tinha-lhe dito uma vez que foi preciso ter muita sorte para ter ido trabalhar com uma boa família. Gostavam lá dela e tratavam-na bem. Deixavam-na vir a casa dos pais de quinze em quinze dias, ao Domingo.
Quando uma vez ela teve uma infecção num dente muito grande, até chamaram o Doutor para a examinar, e deixaram-na descansar um dia inteirinho depois de lhe terem extraído o dente maldito. Mas Torneirinha sabia que era preciso ser sortuda, como a Alice era. Ela nunca tinha tido sorte nenhuma… Mas o Senhor Padre Macário disse uma vez na Missa que essa tal de sorte era uma invenção dos mal-agradecidos, indolentes e preguiçosos, que a boa sorte era cada um que a fazia … trabalhando, amando o próximo e praticando o bem com generosidade e verdade, sempre na fé de Deus!
Torneirinha, ingénuamente, reconhecendo a sua falta em praticar o bem, decidiu fazer todos os dias uma boa acção, para ver se chamava assim essa tal sorte… e com sorte, talvez conseguisse que a família para quem ia trabalhar fosse boa com ela e que a deixasse vir a casa para dar o tal mergulho…
Seguiu cabisbaixa ao lado de sua Mãe com uma parca trouxa às costas. Trazia calçados os seus melhores chinelos, comprados na Feira, pela altura do S. Martinho, no ano passado.
Subiram a rua de Álvares Cabral e pararam à frente do numero 110. Tinham chegado, e sua Mãe tocou a sineta do portão.

E nesse instante, sem a Torneirinha o perceber, começou o resto de toda a sua vida que nunca mais ia ser a mesma…
Calhou-lhe uma boa família. Respeitavam os criados que gravitavam pela casa toda. A casa tinha quatro pisos. A cave, era onde ficava a caldeira, a carvoaria e os quartos dos criados homens. No rés-do-chão ficavam as duas salas de estar, o escritório, casa de jantar, cozinha, copa e despensa. No primeiro andar ficavam os quartos dos Senhores, quartos-de-banho, a casinha e o quarto do Coração de Jesus, que era afinal uma sala e tinha esse nome porque havia permanentemente uma lamparina acesa que velava o Sagrado Coração de Jesus. Essa sala servia para os estudos dos meninos e para os trabalhos de costura ou rendas das meninas e da Senhora. No primeiro patamar da escada de acesso aos outros andares, ficava a oficina do Senhor da casa. A entrada lá, estava restrita, para além do Senhor, a um dos criados de confiança dele. Mais ninguém podia atravessar aquela porta…
No ultimo andar, as águas furtadas, era onde as criadas ficavam a dormir, duas em cada quarto. Havia ainda o quarto de brunir e o quarto da costura, onde todos os dias estava uma costureira a fazer os arranjos de roupa de casa e de vestir. Era lá também que havia uma sala de brinquedos, para os meninos brincarem ao mesmo tempo que eram bem vigiados pelas suas amas.
O quarto para onde levaram a Torneirinha ficava paredes meias com esse quarto dos brinquedos.
Torneirinha estava muito assustada, nunca tinha visto uma casa tão grande e tão perturbadora. Enquanto subiam, um relógio ao fundo das escadas começou a soar as 9 horas, sobressaltando a Torneirinha que nunca tinha ouvido um relógio assim tão perto.. Que medo! Parecia-lhe o relógio da Vitória mas dentro de casa! Tudo era escuro, tudo estava silencioso.
Mandaram-na arrumar as suas coisas num gavetão de uma cómoda de madeira que passaria a partilhar com outra criada, a Clarisse. Tinha já preparado em cima da sua cama o vestido preto, o avental de folhos branco e peitilho, a touca para prender bem os seus cabelos – conforme a instruíram – um par de meias compridas com uns elásticos para as segurar e os sapatinhos de lona que eram pretos às bolinhas brancas. Torneirinha ficou encantada com estes últimos: tinham uma presilha que passava por cima do peito do pé e apertava de lado com um botão. Só tinha visto sapatinhos assim às meninas ricas que iam passear para o Jardim do Carregal aos Domingos!
Mandaram-na preparar-se para depois a levarem ao quarto da Senhora que estava à sua espera.
Quando finalmente a levaram a conhecer, à Senhora, Torneirinha, durante todo o tempo que esteve na presença dela não tirou uma única vez os olhos do chão – ou dos sapatos novos, melhor dizendo… a Senhora perguntou-lhe o nome, que idade tinha e se estava ali de livre vontade. Quis também saber se ela tinha aprendido a ler e a escrever e se tinha feito a Primeira Comunhão e a Comunhão Solene e quando se confessou pela última vez.
– Cecília, espero que te dês bem cá em casa. Sê boazinha, obediente e humilde para que possas aprender tudo o que deverás fazer, com os outros criados. Nestes primeiros tempos vais ficar na cozinha, a ajudar a nossa Cozinheira, a Maria. Farás tudo o que ela te pedir. Depois logo se verá para o que tu servires melhor…
Foram dias extenuantes para a Torneirinha. Levantava-se ainda não nascera o sol e deitava-se depois das nove da noite.
A Maria Cozinheira tinha muito mau feitio, ralhando por tudo e por nada à Torneirinha.
– Isto são maneiras de cortar as batatas, rapariga? O que queres tu que eu faça com estes tocos?!? Oh Valha-me Deus! Quem me havia de sair na rifa! Tem tento ao que eu te digo, Cecília!
E a Torneirinha lá começava tudo de novo, com medo que a Cozinheira se zangasse com ela outra vez…
E o seu dia era preenchido por ordens e mais ordens, dadas rispidamente pela Maria, a Cozinheira muito mal disposta:
– Vai-me buscar aquela gamela! Rápido! Pareces que estás aluada…; Corta-me estas cebolas muito finamente; cega-me estas couves; lava-me estas duas panelas; Não pares de mexer o creme, senão vai encaroçar!; Acorda, rapariga! Rápido, preciso que me vás apanhar um ramo de salsa à horta!
Quando finalmente se deitava na sua cama, que tinha um colchão de folhelho de trigo e poisava a sua cabeça no travesseiro, Torneirinha chorava silenciosamente de saudades da sua antiga vida. Ainda não tinha passado sequer uma semana e parecia-lhe que estava fora de sua casa há mais de uns dois meses… e todas as noites ela pensava no seu mergulho que tinha que acontecer ainda este Verão. Como o ía conseguir fazer ainda não sabia, mas que ía mergulhar, ai isso é que ía! Não se chamasse ela Torneirinha! E habituou-se a fantasiar o dia em que daria o seu mergulho: imaginava a expectativa da Aninhas e do Zé Bento, as caras, primeiro trocistas e depois de admiração, do António e do Manel e os aplausos de toda a gente que assistia… depois do seu mergulho sair perfeito e gracioso, como dantes nunca visto! – murmurariam as pessoas lá da Ribeira… ainda por cima uma rapariga!
E antecipar esse dia, ajudava-a a ficar menos triste… a criada que dormia no mesmo quarto era gaga e por isso, gostava pouco de falar. Torneirinha habituada a andar pela rua, falando com tanta e tanta gente que a conhecia, sentia-se muito só….
No dia seguinte, a Maria Cozinheira mandou-a à Carqueja. Que a fosse comprar ao cais novo da Ribeira. Torneirinha conhecia bem onde tinha que ir. Quantas vezes ficou a ver o Barco Rabelo que descia o Douro desde lá de cima de Caldas de Aregos, carregadinho de Carqueja para vender às pessoas da cidade… e Torneirinha lá desandou, toda contente, em direcção à Ribeira em busca da ignição para o fogão e para a caldeira lá de casa.
Era muito cedo ainda, talvez o barco ainda não tivesse ainda atracado, por isso mesmo Torneirinha achou muito estranho quando se cruzou com um rapaz com mais ou menos a sua idade, já com um grande molhe de carqueja! Ainda por cima o rapaz estava a chorar… que estranho, pensou Torneirinha, e abrandou o seu passo, chegando-se mais para o lado do passeio onde estava sentado o rapaz.
– Porque estás triste? E onde arranjaste tão cedo essa Carqueja?

(continua)

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