A Torneirinha – terceira parte

O rapaz, fez uma pausa no seu choramingar, fungou forte por duas vezes e limpou o ranho à manga da sua muito encardida e enxovalhada camisa que já tinha sido branca. Os seus cabelos castanhos, quase rapados, estavam pejados de pedaços de flores e folhas secas da carqueja. Os seus olhos chorosos, de um azul da cor do céu, destacavam-se no meio da sua cara suja e sardenta. Trazia vestidas umas calças de burel, demasiado quentes para o Verão na cidade do Porto. A camisa, já toda remendada, seria sem dúvida alguma para um adulto, pois sobejava tecido por todo o seu corpo de rapaz magro e seco. Vinha descalço.
– Fui ontem pela primeira vez à Carqueja e perdi-me! Nunca mais vou conseguir encontrar a casa onde trabalho… – e recomeçou novamente numa choradeira comovente. Tinha dormido ao relento, em cima da Carqueja e estava cheio de fome, pois não comia nada desde anteontem… O pior de tudo é que já nem sabia o que seria pior: encontrar ou não encontrar a casa onde agora vivia. Os seus patrões avisaram-no logo no primeiro dia, que por qualquer trapalhada que ele fizesse o castigariam.
Torneirinha, com o seu bom coração, prontificou-se logo a ajudar. Mas o rapaz, o Dionísio, nem sequer sabia o nome da rua, nem o nome da família. Era esta a sua primeira semana no Porto. Tinha vindo de Soutelo, uma pequena aldeia do Marão. A única vez que tinha saído da sua terra foi no ano passado, quando foi em Romaria à Senhora da Serra. Tinha tido autorização dos seus pais para ir junto com os primos, vizinhos e amigos deles. Que aventura tinha sido! Até tinha bebido pela primeira vez um Picolé que a sua prima Marta lhe ofereceu… Não lhe custou subir os montes, pois no pastoreio do rebanho comunitário da aldeia o que mais fazia era subir e descer montanhas, mesmo quando o tempo já oferecia neve e gelo.
Essa sua prima Marta, a trabalhar desde há muito no Porto, foi que falou com os seus pais, pois sabia de uma casa, no Porto, que estava a precisar de um rapaz para ajudar como criado. Tinham vindo primeiro a pé pelo Marão abaixo até Amarante e ali apanharam, ele e a Marta, um comboio que os trouxe até ao Porto. Aquela sua primeira viagem tinha sido a coisa mais empolgante que tinha experimentado na vida. Nunca mais se iria esquecer desse dia que durou deliciosas longas horas… tudo era novidade para Dionísio! Tamanha quantidade de coisas novas para ver, para experimentar e para saborear, para alguém como ele, que nunca tinha saído da sua zona, era quase um paraíso. Pela primeira vez tinha uns sapatos nos seus pés. Não gostou nada, não se equilibrava, os pés doíam-lhe e estava sempre a tropeçar. Quando chegou ao Porto, já vinha descalço, com os sapatos pendurados nas costas, amarrados um ao outro pelos cordões. Os primeiros dias que passou na tal casa não foram nada fáceis. O trabalho era muito e os outros criados empurravam-no para todo o lado ora encarregando-o de serviços que ele não fazia ideia como os fazer ou então enxotando-o para que ele desaparecesse da vista deles. Dionísio sentia-se perdido, e há mais de uma semana que não abria a boca. Nem sequer se atrevia a olhar para ninguém, Dionísio estava muito infeliz. Ontem de manhã, tinham-no mandado, pela primeira vez, à Ribeira, aos molhes de Carqueja. Explicaram-lhe o caminho e, como era sempre a descer, Dionisio chegou lá abaixo ao rio muito facilmente. Mas, quando queria voltar, já não se lembrava por onde tinha vindo e andou o dia inteiro, de molhe de Carqueja à cabeça a tentar descobrir por onde devia ir. Chegou a perguntar a um Polícia se sabia onde era a casa de uma família que tinha três filhos, só rapazes, com os nomes de Bernardo, Miguel e Vasco. Que tinha uma cozinheira que se chamava Alcina, um criado de copa que era o Salvador e que tinha um Leão em cima do portão.. ou seriam dois leões? Mas o Polícia, sem paciência para ele, até pensou que ele estava a brincar e, não achando piada nenhuma à brincadeira, avisou-o que quem gozasse com a Autoridade podia ir para a prisão! Isso assustou muito o Dionísio, que não queria mesmo ir parar à prisão… que desgosto daria à Senhora sua Mãe! Pediu desculpa e afastou-se logo do Guarda! Deambulou todo o dia pela cidade, assustado, procurando sem parar pela rua da casa onde trabalhava. Tudo lhe parecia ora muito igual como logo a seguir muito diferente. Ía matando a sede nos fontanários por onde passava, mas a fome começou a apertar pois a última coisa que tinha comido era a ceia da noite anterior. Sem saber o que mais fazer e chegando a noite, Dionísio, muito cansado e fraco, deitou-se num vão de uma porta de uma casa abandonada na Rua do Almada, sítio onde a Torneirinha o foi encontrar, na manhã seguinte, tão infeliz.
Torneirinha, sensibilizada pela má sorte do Dionísio, e pensando que seria esta uma boa oportunidade para começar a sua lista de boas acções, em prol da famigerada sorte, prometeu ajudá-lo. Desceram a rua do Almada os dois e foram direitos à casa de Zé Bento. Ainda era muito cedo, ele ainda estava em casa, a dormir. Torneirinha, porque não tinha tempo de o fazer ela própria, encarregou-o de encontrar a casa de Dionísio, conforme os detalhes que ele lhe fornecia. Zé Bento conhecia muito bem a cidade e quando Dionísio lhe descreveu o leão ou os leões – não se lembrava bem – de imediato identificou três casas possíveis… Leões! O seu animal selvagem preferido! Tinha um livro de gravuras que a sua Madrinha, a Mulher do Sr. Bento da Farmácia do Padrão, lhe tinha oferecido por altura da Páscoa, com todos os animais selvagens lá representados. Era o único livro que Zé Bento possuía, e nele, os leões eram o animal que mais destaque tinha, afinal de contas, o leão era o Rei da Selva! Zé Bento sabia bem onde os podia admirar, em bronze, em barro e até um par deles esculpidos em pedra. Foi com o Dionísio inspeccionar as três casas que sabia terem leões ao portão e logo à segunda delas, Dionisio reconheceu a sua! E a rua era a de Cedofeita. Afinal de contas, as casas onde as duas crianças serviam, distavam apenas umas poucas centenas de metros uma da outra.
E o pobre Dionísio, foi muito mal recebido, pois tinha sido dado como fugitivo e o terror que o consumia era tanto que nem se conseguiu explicar… a casa onde trabalhava era uma casa má, sombria de sombras e de carácteres. Reinava a discórdia e a inveja entre os criados, e o exemplo que vinha dos donos era patético e triste, sem qualquer sentido de união e de família, as quezilas eram uma constante nesse seio familiar. O coitado do rapaz ficou a pão e água durante quinze dias…
Mas a sua desventura nem tinha sido má de toda, pois conhecer a Torneirinha foi para ele a maior benção que lhe podiam ter dado. E Dionísio, longe da sua família, dos seus amigos, dos seus montes e vales, agarrou-se àquela amizade que a sua curta vida lhe providenciou.
Passaram a encontrar-se todos os dias de manhã muito cedo, a caminho da ribeira em busca da Carqueja. Torneirinha descia a sua rua e entrando em Cedofeita encontrava logo o seu amigo, ainda em passo lento, a aguardar pela sua chegada. Umas semanas depois, já sabiam tudo um sobre o outro. Dionísio, já mais ambientado à cidade e ao seu trabalho, aprendeu que quanto menos desse nas vistas, melhor as coisas lhe corriam. Já tinha as suas tarefas mais definidas. Era dele o encargo diário de ir à Carqueja. As janelas e todos os vidros e espelhos da casa era ele que os limpava, valendo-lhe os seus dotes de alpinista quando tinha que se empoleirar nas sacadas das janelas e varandas. Os sapatos dos Senhores eram diariamente engraxados por ele e a caixa das escovas, trapos e pomadas para todo o tipo de pele era um orgulho para Dionisio, que a trazia sempre esmeradamente arrumada e pronta a ser usada a qualquer hora do dia ou mesmo da noite, como frequentemente acontecia um dos meninos o mandar chamar para uma engraxadela antes de saírem para os bailes. Ah! Como gostava do cheiro das pomadas e do sebo para as botas! Tinha também a seu cargo as inúmeras ratoeiras que existiam espalhadas pela casa. Todas as manhãs, antes mesmo de matar o bicho, fazia o que ele chamava de “o passeio da rataria” retirando os ratos e ratazanas que tivessem ficado presos, torcia o pescoço aos que ainda estivessem vivos e tornava a armar as ratoeiras. E tanto rato lá havia! Dionísio nunca tinha visto tantos em toda a sua vida lá em Soutelo…
Torneirinha também andava mais escorreita lá na casa dela. O seu natural bom feitio e boa disposição assim como a sua vivacidade e inteligência, venceram os seus temores e receios iniciais. Como tinha muito jeito de mãos, acabou por ser dela a responsabilidade de arear todas as pratas da casa, principalmente os vários faqueiros que lá se usavam. Para isso, tinha na copa uma gaveta com areia, cortiça, produto para metais, jornais, trapos velhos e flanelas para limpeza da prataria. Todos os metais amarelos passaram a ser também da sua responsabilidade. Torneirinha orgulhava-se de os ter sempre a brilhar e não descansava sempre que detectava uma mancha ou marca em algum deles, até que os visse de novo a brilhar em todo o seu esplendor! O que lhe dava mais trabalho era, sem dúvidas, o batente em formato de carranca da porta de entrada, pois tinha muitas reentrâncias difíceis de alcançar… e os que lhe davam mais prazer de limpar eram os amarelos do mobiliário do escritório do Senhor, pois existia lá uma colecção de engenhos de caixas de músicas, realejos em miniatura, que Torneirinha de vez em quando conseguia fazer soar ao dar-lhes a corda necessária. Parecia a música que ouvia na Igreja da Sé no dia de Natal e no Domingo de Páscoa!
Continuava a ajudar a cozinheira, mas a pouco e pouco deixou de ser o seu saco de pancada para passar a ser a sua protegida. Aquela pessoa rude, mal disposta e torcida com a vida que era a Cozinheira, enterneceu-se por fim com um ser humano, a Torneirinha… e essa amizade entre as duas florescia e até dava frutos, na forma de doces e petiscos que Torneirinha ía recebendo às escondidas, da cozinheira. Até dava para partilhar alguns com o seu novo amigo Dionísio, sempre que podia.
Dois dias por semana, às Terças e às Sextas, recebia-se o peixe lá em casa. Era já a Torneirinha que o arranjava todo, escamando-o, estripando-o e, conforme as instruções da sua agora amiga cozinheira, o partia em postas, filetes, pedaços ou os deixava inteiros como àqueles que se destinavam para assar. Com a carne ainda não fazia o mesmo, mas no dia em que a recebiam, passou a ficar na despensa com a Senhora, a única pessoa que cortava, dividia e destinava a carne, tanto a que era para os Senhores comerem como a de mais fraca qualidade que ficava para os criados. A Senhora tinha-lhe dito que se estivesse sempre atenta ao que ela fazia, um dia mais tarde passaria a ser ela a fazer o mesmo… e antes de a mandar embora, oferecia-lhe sempre um quadrado de açúcar que tirava de uma lata onde eles eram guardados. Que boa era a sua Senhora…
Mas Torneirinha, apesar de toda a sua nova vida, não se esquecia das suas raízes. Tinha muitas saudades dos seus pais, irmãos e amigos. Como ainda estavam no mês de Agosto e por isso em férias escolares, os seus amigos Aninhas e Zé Bento vinham ter com ela à esquina da Ordem do Carmo todas as manhãs e só se separavam quando ela e o Dionísio entravam cada um nas suas casas, na volta.
Torneirinha não se tinha esquecido do seu mergulho. Resolveu que o iria fazer, mesmo sem o treinar, pois não o podia fazer agora que trabalhava. Tinham-lhe dito que se ela se portasse bem, iria passar o último Domingo de Agosto a casa, para ver a sua família, depois da Missa. E Torneirinha sabia que se tinha portado bem… se não contasse com aquela vez em que foi surpreendida pelo seu patrão a ouvir uma música de um dos realejos que tinha accionado, pensando que ninguém o ouviria. Que susto tinha apanhado quando abriu os olhos e tinha diante de si o seu patrão! Com a atrapalhação, deixou cair o aparelho no chão. Ficou petrificada, a pensar que era o seu fim, que tinha ultrapassado todos os limites e que iria ser duramente castigada por isso… mas, para seu espanto, o Senhor sorriu e perguntou-lhe se ela gostava de música. Torneirinha, nem conseguiu responder para além de abanar ligeiramente a cabeça, em sinal afirmativo, de olhos postos no chão. Fez rapidamente uma vénia ao mesmo tempo que pediu licença para sair dali. Nos dias que se seguiram, ficou ansiosamente à espera que alguém lhe ralhasse pelo feito, mas passado quase uma semana, percebeu que o seu patrão não tinha dito a ninguém o que se tinha passado. Nunca mais
tocou em nenhuma das caixas de música….

E finalmente a promessa de passar um Domingo em casa dos seus pais se concretizou!

(continua)

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