A Torneirinha – quarta parte

E tinha chegado o Domingo tão esperado pela Torneirinha: o dia em que ia voltar a sua casa! Que saudades tinha dos seus pais, dos seus irmãos, da sua casinha!
Torneirinha levantou-se muito cedo, enfiou o vestido que a Senhora lhe tinha oferecido para ir à Missa aos Domingos, calçou os seus sapatos de lona pretos com bolinhas brancas, penteou os cabelos em duas tranças muito bem feitas e presas no final com trapilho colorido, e desceu até à cozinha para comer a sua habitual tigela de sopas de pão com café e leite polvilhadas com açúcar amarelo. A Maria cozinheira, apesar de ser ainda muito cedo, já lá estava à sua espera. Passou-lhe um cesto de vime coberto com um pano de linho, cheio de coisas preparadas por ela, recomendando-lhe que tivesse cuidado, pois havia coisas que se poderiam partir. Tinha sido a Senhora que lhe pediu para preparar algumas coisas boas para Torneirinha levar para sua casa. Maria, a cozinheira, também tinha juntado uma ou outra coisa que se tinha lembrado… “coisas sem importância – dizia ela – coisas que eu sei que tu gostas..”
Torneirinha foi mesmo à Missa, à Igreja de Cedofeita com o cesto nas mãos, tal era a impaciência de querer chegar a sua casa! Não podia perder nenhum minuto…
E lá foi ela, de coração pleno de alegria, depois da que lhe pareceu uma interminável Missa, em direcção à sua família, às suas origens, à sua outra vida…
Pelo caminho, ao enveredar pela rua de Santa Catarina das Flores, não parou de ser saudada pelos seus amigos e conhecidos.
– Olá Torneirinha! Tu cresceste, rapariga!
– Olha a Torneirinha! Já sentia falta de te ver por aqui…
– Torneirinha! Tu por aqui? Diz-me se estás a gostar do teu trabalho! Até pareces mais bonita!
E Torneirinha a todos sorria e a todos saudava. A D. Alzira, até lhe deu um grande beijo na cara e disse que tinha tido saudades de a ver todos os dias a caminho da escola. Enfiou-lhe também nas mãos uma meia-dúzia dos enormes rebuçados da Régua, como que a compensar os muitos que não lhe chegou a dar, nestes últimos dois meses. E fez-lhe uma festa na cara, em jeito de despedida:
– Coitadinha… tão novinha ainda que tu és e já com uma vida tão macaca!
“Vida macaca?” O que a D. Alzira queria dizer com isso? E Torneirinha apressou-se alegremente, já estava quase lá…
Mas a alegria de voltar a casa seria sol de pouca dura. Mal dobrou a esquina da Rua da Ponte Nova, percebeu que alguma coisa não estava bem. A porta de sua casa que, habitualmente, estava sempre aberta, pronta a receber quem dela se aproximasse, estava hoje bem fechada, assim como as duas únicas janelas que a casa tinha. Que estranho… sua Mãe nunca as deixava assim depois do alvorecer… Estaria ainda a dormir? E Torneirinha apressou-se a bater à porta, já a começar a sentir uma angústia que se apoderava do seu peito, uma angústia que precisava de ser apagada, com uma qualquer explicação plausível.
Foi sua Mãe que lhe abriu a porta e mal a viu agarrou-se a ela e deixou soltar-se um pranto que parecia ter sido já há muito esmagado dentro de si. Torneirinha, desconcertada e ainda com o cesto na mão, deixou-se abraçar pela Mãe e com o seu coração já todo alvoraçado não soube o que dizer. Ou melhor dizendo, ficou com muito medo do que a Mãe lhe fosse dizer, não queria saber de más notícias!
– Minha Mãe! O que aconteceu? O Senhor meu Pai está bem? Fale comigo, diga-me o que se passa, por favor!
– Minha filha, é o teu irmão Bernardino… o Sr. Doutor diz que ele não deve passar de alguns dias. Eu mais o teu Pai estamos muito tristes, já não sabemos o que fazer. No mês passado levamos o Bernardino para Espinho, para que respirasse os ares mais puros, mas de nada valeu… continuou a piorar de dia para dia. Mete dó ver como ele está magrinho e sem forças sequer para falar. A tísica apoderou-se dele e vai levar-mo, ao meu Bernardino… uma desgraça filha, uma verdadeira desgraça!
E Torneirinha entrou finalmente em sua casa, mas entrou triste. Foi ver o seu irmão, beijou-o e abraçou-se a ele a chorar.
Quase não o reconheceu… todo ele lhe parecia mais pequenino, tal era a sua magreza. Apenas os olhos continuavam grandes, e expressivos: Torneirinha viu neles a alegria em a ver de novo! Que bonitos e brilhantes estavam os seus olhos! Bernardino aconchegou-se à sua irmã e assim ficaram por longos momentos, a sentirem-se um ao outro.
“-Jesus, toma conta do meu irmão, eu faço tudo o que tu quiseres, todos os sacrifícios que me enviares, todas as coisas difíceis de conseguir, mas ajuda o meu irmão Bernardino!” – rezou silenciosamente a criança que, sem o saber ainda, já não sabia como ser criança…
E o tão ansiosamente esperado Domingo, passou-o Torneirinha a arrumar a casa dos seus pais. Limpou, varreu, cozinhou e ainda foi ao rio lavar uma trouxa de roupa. Sua Mãe, sempre à cabeceira de seu irmão, não conseguia fazer tudo.
O almoço desse dia foi substancialmente melhorado, graças ao que vinha dentro do cesto preparado pela Maria Cozinheira. Organizou ainda tudo para que, durante a semana, houvesse comida suficiente e já preparada para a sua família, sem que sua Mãe se tivesse que preocupar.
E assim passou esse dia de Domingo, esse dia que nunca mais ia esquecer para o resto da sua vida.
Antes de se ir embora, ao final da tarde, Torneirinha, já com tudo pronto, enfiou-se dentro da cama de seu irmão e abraçou-o carinhosamente. Queria puder passar-lhe todo o calor do seu corpo. Bernardino parecia estar sempre com frio, mas nada conseguia aquecê-lo.
– Bernardino, eu gosto muito de ti. Tantas saudades que eu tive tuas… Faz um esforço para comeres tudo o que a nossa Mãe te dá, toma o xarope para a tua tosse sem o cuspir, para ver se ficas bom… Eu quero que tu venhas comigo ao rio para me veres saltar da ponte meu irmão, mas para isso tens que ficar bom! Ouviste, Bernardino? Tu tens que ficar bom! Deixo-te aqui as minhas melhores Sameiras, são agora tuas e quando melhorares vou levar-te para a nossa pista da Vitória, para tu ganhares uma corrida ao Zé Bento, queres, mano?
E Bernardino, cansado e com muitas dores no seu pequenino peito, agarrou nas Sameiras que a sua irmã lhe deu, admirando-lhes as suas bonitas cores e serrilhas perfeitinhas.
E assim chegou a hora de Torneirinha voltar para a Rua Álvares Cabral. Zé Bento apareceu para a acompanhar e lá seguiram os dois, tristes e calados, com o cesto que voltava vazio…
Dois dias depois, a Tia Cecília veio buscar a sua afilhada. Falou com a Senhora e conseguiu que a deixasse levá-la por uns dias para casa. O seu irmão Bernardino tinha morrido nessa noite e o lugar da Torneirinha era agora junto da sua família.
Que triste foi esse dia.. o seu irmão foi velado pela família, vizinhos e amigos. Sua Mãe estava inconsolável, não parando de chorar. Seu Pai, acabrunhado e muito infeliz não proferia uma palavra que fosse, parecendo que tinha aos seus ombros todo o peso do mundo.
Torneirinha, no meio da sua infelicidade, fazia o que tinha de ser feito. Tratou do seu irmão mais novo e arrumou de novo a casa. O Bernardino iria passar ainda a noite lá em casa, o enterro era no dia seguinte logo de manhã. Torneirinha teve a companhia e ajuda dos seus dois amigos, o Zé bento, que lhe trouxe o seu livro de gravuras de animais para ver se ela se distraía e a Aninhas que veio com uma panela à cabeça de arroz de frango feito pela sua Mãe, para não terem que cozinhar, como era costume os amigos fazerem.
E o pobre Bernardino, que não conheceu outra vida para além da doença, foi enterrado no cemitério do Prado do Repouso, virado para o rio Douro, com duas Sameiras em cada uma das suas pequenas e esqueléticas mãos. Foi assim que a sua Mãe o viu dar o último suspiro e foi assim que a sua Mãe quis que ele fosse enterrado, com as suas preciosas Sameiras, as que a sua irmã lhe tinha oferecido.

(continua)

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