A Torneirinha – quinta parte

 

Que tristes foram os dias que se seguiram para a Torneirinha…
De volta ao seu trabalho, andava cabisbaixa e muito calada. Fazia, como sempre o fez, o seu trabalho da melhor maneira que era capaz. Levantava-se ainda mais cedo, para deixar tudo o que podia adiantado para quando voltasse da Carqueja. Pelo meio da tarde, já não tinha o que fazer e, nessa altura, ía ajudar a Maria Cozinheira, pois lhe parecia ela sempre muito aflita para conseguir que o jantar ficasse pronto a tempo e horas. Cada dia que passava, ficavam as duas ainda mais amigas. Maria Cozinheira, bruta e azeda como sempre tinha sido, espantava quem a conhecia com esse baixar da guarda que fez com que a Torneirinha enternecesse o seu coração.
Torneirinha, ia agora com mais frequência de visita a casa dos seus pais. Logo a seguir à morte de seu irmão Bernardino, a Senhora tinha decidido que todos os quinze dias, ao Domingo, ela iria passar o dia a casa. Chegava sempre lá com o cesto recheado de coisas boas, mandadas pela Senhora e preparadas pela sua amiga Maria.
Torneirinha, revelou aos poucos todo o jeito de mãos que tinha. Começou por ajudar a costureira em pequenas coisas: fazer uma bainha, preparar um remendo, coser uns botões ou até mesmo pregar umas molas ou colchetes. Quando a Costureira deu com ela a terminar uns calções para o seu irmão, com um resto de fazenda que tinha pedido, ficou espantada com o engenho e a perfeição da obra.
– Cecília! Que bem feitos estão estes calções… Mas afinal tu sabes costurar… onde é que aprendeste a fazê-lo?
– Não aprendi não, D. Alice! Foi de tanto a observar que consegui fazer igual…
Desde então, e logo que soube do sucedido, a Senhora mandou que todas as tardes, das três às cinco horas, Torneirinha fosse ao quarto do Coração de Jesus para que, em companhia das duas meninas da casa, aprendesse também a arte de fazer Renda de Bilros. A professora era Vila Condense, e uma verdadeira especialista nesse tipo de renda. Aprendiam também a bordar em bastidores com fios de seda. Torneirinha animou-se com a distração inesperada. E como em tudo que fazia, deu o seu melhor como forma de agradecer a boa oportunidade que lhe davam.

Sempre que alguma coisa se estragava ou partia lá em casa, a Torneirinha conseguia arranjar ou substituir qualquer peça que faltasse. Um dia, o Senhor mandou que deitassem ao lixo um relógio pequeno de mesa que tinha quatro bonecos dançarinos em madeira, que giravam sobre si próprios sempre que o relógio atingia os quartos, as meias e as horas, ao mesmo tempo que se ouviam as badaladas: mais graves e espaçadas para as horas, mais estridentes e rápidas para as meias e muito curtas e fininhas para os quartos.
Tinha caído ao chão e ficou praticamente feito em pedaços. Tinha sido um presente que alguém tinha trazido de uma viagem à Áustria, e o seu sítio era na secretária do escritório do Senhor. Torneirinha, que ficava quase que hipnotizada com os dançarinos nos seus rodopios e volteios, quando lhe calhava limpar o escritório, ficou cheia de pena quando o viu partido e decidiu que o ía arranjar.
Com a cumplicidade do Aníbal, o único lá em casa que podia entrar na Oficina do Senhor, que lhe ia providenciando todas as ferramentas que ela ía precisando, conseguiu arranjar o relógio. Três dias depois de ter sido deitado ao lixo, o relógio ocupou de novo o seu lugar habitual, em cima da secretária do escritório.
Muito admirado e depois de se ter inteirado do que tinha acontecido para o relógio ter aparecido reparado e em bom funcionamento, o dono da casa, em agradecimento e num voto grande de confiança, autorizou Torneirinha a sempre que precisar, entrar na sua Oficina para procurar o que lhe fizesse falta para os seus arranjos.
Continuava a ir junto com Dionísio à Carqueja, de manhã bem cedo. A amizade deles crescia naturalmente, reforçando-se e encontrando conforto para a tristeza dela e para a solidão dele. Dionísio continuava a ser um excluído dentro da casa onde trabalhava e vivia.
Depois de mais de três meses a trabalhar seguidos, finalmente teve um dia de Domingo para passear. Foi passá-lo com a Torneirinha, em casa da família dela e com os seus dois amigos.
Estavam perto do S. Miguel, um dia que anunciava o princípio do fim do Verão. Torneirinha ainda pensava no seu mergulho há tanto planeado e desejado. Não podia deixar passar o Verão… e decidiu-se a fazê-lo nesse mesmo Domingo.
Só Dionísio, Aninhas e Zé Bento ficaram a par do plano. Depois do almoço dirigiram-se à Ribeira. O dia estava quente, muito abafado… não corria uma aragem sequer. O rio, corria preguiçoso e encantadoramente dócil em direcção ao mar. Parecia quase um espelho, se não fosse pela leve ondulação que os barcos lhe iam criando, ao passarem.
Nessa tarde de Domingo, vendiam-se à beira-rio água fresca, vinho e picolés de variados sabores. Havia também vendedores de rebuçados e pirolitos que os anunciavam a cantar.
Os quatro amigos passaram pelo rebuliço todo sem dar por ele. Estavam todos preocupados. Zé Bento e Aninhas, queriam que Torneirinha desistisse. Dionísio, estava de boca aberta quando se apercebeu da distância que ia do tabuleiro da ponte à água: era uma imensidão de altura!
– Torneirinha, ouve-me: não vais saltar… pode ser muito perigoso!
Torneirinha riu-se e continuou, com um ar determinado, a caminhar. Queria despachar aquilo rápido, e sabia que o seu irmão Bernardino estaria a vê-la lá do céu. O Senhor Padre Macário tinha-lhe dito que ele agora era um anjinho no céu, e que estava ao lado de Jesus e de Nossa Senhora. E que via tudo o que ela e o resto da família faziam, podia até conversar com ele que ele ouvia-a muito bem… só não respondia em voz alta porque os anjos falavam directamente para os nossos corações. E na verdade, Torneirinha já tinha sentido o Bernardino a falar-lhe ao coração: naquela noite em que estava a rezar ao Jesus, ajoelhada ao lado da sua cama, e lhe estava a pedir para não a deixar ficar para sempre triste, com as saudades que tinha do seu irmão. E foi então que sentiu qualquer coisa a acontecer dentro do seu peito, bem no coração! Uma onda de bem estar e uma alegria crescente apoderou-se dela… Foi o Bernardino, Torneirinha não tinha dúvida nenhuma! O Senhor Padre Macário tinha razão , o seu irmão via-a e ouvia-a!
E nessa noite, adormeceu apaziguada e aconchegada como já há muitos dias não o conseguia fazer, adormeceu na companhia do seu irmão Bernardino…

Á medida que iam avançando para a ponte, iam sendo reconhecidos pela miudagem da Ribeira e depressa se espalhou a notícia que a Torneirinha ía finalmente dar o grande salto!
Torneirinha tinha cautelosamente trocado de vestido. Trazia agora o velho, que já quase não usava. Já estava posicionada na parte de fora do tabuleiro. Arregaçou as mangas, subiu o vestido acima dos joelhos dando-lhe um nó para não a atrapalhar e endireitou-se para olhar a pequena multidão de miúdos que a observava em expectativa. Conseguiu ver a cara do Manel e do António, trocistas e a fazerem-lhe caretas.
Torneirinha respirou fundo umas três vezes, benzeu-se e, para não perder a coragem, atirou-se logo para o vazio saltando o mais alto que conseguiu, toda ela preenchida pelo medo!
E uma eternidade para chegar à água, para lhe sentir o impacto frio e duro, um tempo infinito para se arrepender, para se lembrar das mãozinhas do seu irmão a apertar as Sameiras enquanto respirava com muita dificuldade, do seu corpo tão magrinho, mas ao mesmo tempo tão sorridente… da sua vontade em que ele estivesse ali agora a vê-la… mas que digo? Ele estava a vê-la! Então não era agora um anjinho??
E Torneirinha mergulhou no rio, desaparecendo nas suas águas… O silencio espalhou-se pela miudagem, todos com os olhos postos no rio, tentando perceber por onde ela apareceria. Manel e António, já não riam. Esperavam que ela aparecesse. Caneco! Era rapariga mas tinha coragem – murmuravam eles. Tinha sido a primeira vez que uma rapariga tinha dado o mergulho! Mas onde é que ela estava? Não tinha já passado tempo demais? A água nessa tarde estava baça. Tinha chovido muito na semana anterior e isso fazia sempre o rio Douro ficar turvo, da cor do ouro.
E foi quando todos ouviram uma gargalhada, vinda de trás. Ao mesmo tempo todos se viraram para trás para verem a Torneirinha sentada nas escadas do cais, toda encharcada e muito sorridente a perguntar:
– Consegui ou não consegui?? E ria-se, já descontraída e muito feliz…
E foi no meio de gritos e berros das crianças que Torneirinha se dirigiu para casa da Aninhas para mudar de vestido. Que bem lhe soubera ter conseguido!
-“Bernardino, tu viste-me a saltar?” – perguntou ela silenciosamente, enquanto olhava para o céu.

(continua)

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