A Torneirinha – sexta parte

 

Torneirinha estava cada vez mais integrada na família para quem trabalhava. Eram exigentes, mas ao mesmo tempo respeitadores de todo o pessoal doméstico e com um sentido de justiça cristão, caridoso e altruísta. Os seus filhos, contrariamente ao que estava instituído na altura, eram educados na convicção que todos os criados à sua volta estavam ali para os ajudarem, pois quem precisava deles eram os membros de toda a família, por isso, a atitude certa de abordagem era a de agradecimento pela ajuda prestada. Tanto o Senhor como a Senhora, falavam respeitosamente com o pessoal doméstico e não dispensavam o tratamento correcto de volta, assim como não admitiam qualquer falta de respeito dos filhos para com algum deles. E tudo assim era harmonioso naquela casa. Torneirinha, já tinha o seu papel na família e na casa bem enraizado. Já fazia parte da engrenagem. Para além de todo o serviço doméstico que lhe atribuíam, fazia renda, bordava, cosia e remendava. Continuou também a compor tudo o que lhe pediam. Loiça partida, ela restaurava; madeiras quebradas, ela substituía; mecanismos avariados, ela compunha; Sempre que alguma coisa se estragava, alguém dizia:
– A Cecília arranja isso!
E a Torneirinha tratava do assunto. Até os vizinhos, a par do jeito que ela tinha para arranjos, lhe pediam a sua ajuda. E a todos a Torneirinha ajudava. Sempre bem disposta, sorridente e com muita energia. Pouco a pouco a Torneirinha voltava a ser a mesma menina alegre e despreocupada, cheia de genica, própria da sua idade.
Chegou o dia em que Dionísio não apareceu para irem juntos à Carqueja. Torneirinha ainda foi espreitar por cima do portão da casa onde ele vivia, o que tinha os dois leões em jeito de guarda. Mas não viu nada nem ninguém. Se calhar tinha sobrado muita carqueja dos dias anteriores e não devia ser preciso mais…. e seguiu o seu caminho, pois já começava a ficar atrasada. Logo hoje, que trazia uma rodilha de pano, feita por ela, para oferecer a Dionísio que estava sempre a esfregar a cabeça por causa do peso do molhe da Carqueja. Com esta rodilha já não lhe ía doer nada…
No dia seguinte, Dionísio voltou a não aparecer e Torneirinha começou a preocupar-se. Será que tinha acontecido alguma coisa? Voltou à casa dele mas desta vez ganhou coragem e fez soar a sineta do portão. Disseram-lhe que Dionísio não queria falar com ninguém, que estava muito ocupado…
Torneirinha sabia que Dionísio não era feliz naquela casa, que não era bem tratado e que seria pouco provável ele não conseguir escapar-se por uns minutos para a avisar da sua ausência. Cada vez mais ralada com o seu amigo, esperou ansiosa pelo dia seguinte, para ver se ele aparecia. E o dia seguinte amanheceu e Dionísio continuava desaparecido.
– Amanhã é Domingo, dia de ir a minha casa, vou pedir ao Zé Bento que me ajude a conseguir falar com ele…- pensou Torneirinha.
Quando explicou as suas preocupações sobre Dionísio a Zé Bento e a Aninhas, não perderam mais tempo e rumaram os três em direcção a casa do amigo deles.
Mas nenhum dos estratagemas por eles imaginados conseguiram fazer com que chegassem à fala com Dionísio. Respondiam-lhes sempre que ele estava muito ocupado e que mandava dizer que não queria falar com eles, que o não aborrecessem! E a preocupação de Torneirinha já não parava de crescer. O que fazer agora? Tinha que pensar em alguma coisa! Ela sabia que alguma coisa estava mal, muito mal! Dionísio estava a precisar da ajuda dela, tinha a certeza… mas como ajudá-lo? Pensa, pensa Torneirinha! E de repente teve uma ideia: sabia muito bem onde ficava o quarto do Dionísio lá naquela casa, era ao lado do quarto da caldeira e tinha uma janela que dava para uma espécie de saguão que permitia assim que entrasse um pouco de luz no quarto. Dionísio já lhe tinha descrito isso muitas vezes, pois havia no jardim um cágado que passava a vida a cair nesse fosso, quase todos os dias Dionísio tinha que resgata-lo lá do fundo do buraco para o levar de volta para o jardim. Agora, o problema era decidir quando lá ir, pois durante o dia a probabilidade de serem apanhados dentro do jardim era muito grande. E Torneirinha temia que não fosse nada agradável qualquer encontro com aquela gente má… ficava então decidido: iriam quando já fosse muito escuro e, sem demoras, ficou combinado para essa mesma noite. Era um segredo só deles.
Quando soaram as duas horas da madrugada, na Torre sineira da Igreja de Cedofeita, já Torneirinha saía sorrateiramente de casa, descalça, com os sapatos na mão para não fazer barulho, deixando a porta da cozinha que dava para o jardim encostada, para puder voltar a entrar quando voltasse da sua missão. Desceu Álvares Cabral e virou à esquerda para Cedofeita. Na esquina já estavam à sua espera Zé Bento e Aninhas que trazia uma cara de muito assustada. Nunca tinha fugido de casa à noite, esperava que a sua Mãe não percebesse que em vez dela era um cobertor que estava debaixo dos lençóis da sua cama… Ai se ela descobria! Ía ficar de castigo para o resto da vida dela, até ser velhinha… Zé Bento, era já o mais especialista em fugidas à noite e nunca tinha sido apanhado. Nas noites de S. João, Santo António ou de qualquer outra festa que metesse bailarico, deixava adormecer bem os pais e escapulia-se de casa para as Fontaínhas. Era lá que ele se divertia, e só tinha que ter cuidado para não ser visto por nenhum dos seus vizinhos, não fossem eles dizer aos seus pais que o tinham visto. Por isso, enterrava o seu boné até ás orelhas, para não ser reconhecido.
Enquanto Aninhas ficou de vigia ficando de assobiar se visse alguém a aproximar-se, os outros dois escalaram o portão e entraram no jardim o mais silenciosamente que conseguiram. Assustaram-se com um restolhar das folhas de um arbusto, mas logo perceberam que era um gato que andava à caça de alguma presa. Contornaram a casa, verificando que estava tudo silencioso e de luzes apagadas. Perfeito! Tudo estava a correr como tinham imaginado. Descobriram o saguão que dava para a janela do quarto do Dionísio. Saltaram um a um lá para dentro, muito cautelosamente e puseram-se à espreita pelo vidro. Por sorte a janela não tinha nem portadas nem cortinas. Deixaram os seus olhos habituarem-se à escuridão interior e tal como se gatos fossem, começaram a perceber pouco a pouco para o que estavam a olhar. Afinal aquilo não lhes parecia um quarto. Não tinha cama, nem cadeiras nem nada das coisas que existem nos quartos de dormir. Era apenas uma despensa, com prateleiras de cima a baixo, preenchidas com latas e muitas garrafas e garrafões na maior desordem e sujidade possível. Mas afinal aquele não era o quarto do Dionísio! Era apenas um quarto de arrumos. E agora, o que faziam?
Mas aos poucos foram percebendo que, o monte que viam no chão era nada mais nada menos que o seu amigo… e o que de repente se aperceberam apertou-lhes o coração, deixou-os sem fala e com vontade de chorar. O seu amigo Dionísio estava enrolado sobre ele próprio, com as mão atadas por duas cordas. A sua cara estava inchada, suja de sangue e disforme. Tinha as duas pálpebras de tal maneira inchadas e pretas que não devia sequer conseguir abrir os olhos. Um dos seus braços estava numa posição estranha, num ângulo impossível. Estava destapado, e tinha no chão perto de si uma malga com água.
– Meu Deus! Dionísio! Dionísio, somos nós… Acorda, por favor!
Mas Dionísio não dava acordo de si.
Bateram levemente nos vidros, com medo que alguém os ouvisse, mas Dionísio não acordava…
– Está morto? -perguntou sussurrando Zé Bento…
– Está calado, Zé Bento. Está nada morto! Não pode estar!

E a aflição da Torneirinha era palpável… o que iriam agora fazer? Como ajudar o Dionísio?

(continua)

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