A Torneirinha – sétima parte

 

O que fazer? Como ajudar o Dionísio? Não conseguiam entrar no quarto pois a janela só abria por dentro. Nem sequer podiam fazer barulho, pois podia alguém ouvi-los… Torneirinha, decidida, empurrou Zé Bento para trás e ajoelhando-se mandou-o subir até lá cima usando as suas costas como trampolim. A seguir deixou-se ajudar por ele que a puxou com todas as suas forças. Saíram apressadamente de lá, voltaram a subir o portão e de um salto estavam de novo juntos com a Aninhas. Ao afastarem-se daquela maldita casa, iam contando tudo a Aninhas. Torneirinha estava muito angustiada, sem saber o que fazer para ajudar o amigo.
– O melhor seria esperarmos pela manhã e perguntarmos a algum adulto o que devemos fazer – disse Aninhas, sempre sensata…
– Pois não pode ser de outra maneira, por mais que nos custe, vamos ter que esperar pela manhã… respondeu Zé Bento.
– E se fôssemos agora à Polícia? – perguntou Torneirinha.
– E tu achas que eles iam acreditar em nós?
– Pois… se calhar não…
E Torneirinha, de tal forma estava angustiada que se abraçava a ela própria, apertando o coração. Só queria que aquela coisa desaparecesse dentro de si!
E voltaram cada um para as suas casas, amanhã falariam com um adulto que os ajudasse a salvar o amigo.
Torneirinha descalçou-se de novo para entrar em casa, empurrou a porta e quando já estava dentro da cozinha ouviu um vozeirão de meter respeito, a gritar:
– Quem está aí? Responda ou primo o gatilho desta minha caçadeira!
E Torneirinha reconheceu a voz do seu patrão….
Oh meu Deus! Tinha sido apanhada… e agora, o que fazer?!! E fez o que não conseguiu controlar: chorou perdidamente de medo e de preocupação com o seu amigo Dionísio. O Senhor, reconhecendo-a perguntou:
– Cecília? És tu? O que andavas a fazer lá fora no meio da noite?
E Torneirinha, acabou por tudo contar ao Senhor, entre os soluços e tristeza que sentia. Contou como tinha conhecido o Dionísio, contou como era a vida dele lá naquela casa horrível, contou como ele era desprezado pelos outros e contou como ele era frequentemente castigado, na maior parte das vezes sem sequer saber porquê. Contou-lhe que era costume porem-no apenas a pão e água durante duas ou três semanas e contou-lhe que quase nunca o deixavam sair aos Domingos. Contou-lhe tudo o que sabia da vida infeliz que Dionísio levava, sem nunca se queixar, ela é que se apercebia das coisas más que lhe faziam.
O Senhor ouviu tudo, fez-lhe algumas perguntas e mandou-a preparar para si um copo de leite morno.
– É para te acalmares. Depois quero que vás acordar o Aníbal e o Zé. Diz-lhes para se vestirem rápido e que venham ter comigo ao escritório. Mas preciso só que me confirmes se a casa onde está o teu amigo é a casa verde que fica mesmo em frente àquela mercearia que nos fornece? É a casa da família Magalhães?
– O nome deles eu não sei meu Senhor, mas que é verde e fica mesmo em frente à mercearia do Sr. José isso sim, tenho a certeza.
– Tem dois leões em cada um dos lados do portão, não tem? Sei muito bem quem são: são uma escumalha de gente, uns animais é o que eles são. Mas eu sei como lidar com eles, não quero que te preocupes mais, Cecília. Agora vai rápido e faz o que te disse, chama o Anibal e o Zé.
E a última coisa que Torneirinha viu foi os três homens saírem do escritório cada um com uma espingarda na mão, directamente para a porta da rua. Torneirinha, assustada, avançou para eles mas o Senhor levantou a mão, e peremptoriamente mandou-a ficar onde estava e esperar por eles.
E Torneirinha esperou, e rezou ao Jesus e a Sua Mãe e até pediu ao seu irmão Bernardino para ajudarem o seu amigo Dionísio.
-Dionísio, sê forte, o meu patrão vai ajudar-te…
E para a muito atormentada alma da Torneirinha, essa espera nunca mais terminava. De vez em quando abria a porta, descia ao portão e espreitava para o lado de baixo da rua: nada! Não via nada… o seu coração batia-lhe forte, não conseguia ficar parada um minuto seguido. Uma eternidade de tempo depois, finalmente ouviu barulho de passos e precipitou-se para o portão para ver se eram eles. Vinha o Senhor à frente, espingarda às costas, atrás o Zé que vinha carregado de duas espingardas, a sua e a do Aníbal e este último, trazia o Dionísio nos braços! Dionísio! Como é que ele estava?
– Não está lá muito bem, vamos levá-lo para o quarto livre lá de baixo. Vai a correr chamar a Maria pois vamos precisar que ela nos ajude. Zé, vai então a casa do Dr. Melo como eu te pedi e que venha urgente cá a casa, diz-lhe só que é uma emergência, eu depois explico-lhe tudo.
E Dionísio estava finalmente num sítio seguro, como já há muito não lhe acontecia. Foi tratado cuidadosamente. O seu braço, partido, foi colocado no seu lugar e enfaixado para não se mexer. As suas feridas resultantes do espancamento que tinha sofrido, por parte dos filhos do seu patrão, foram limpas, tratadas e as que estavam abertas ainda foram cosidas. O Dr. Melo, com a ajuda da Maria que tratou de ferver água e arranjou trapos e ligaduras limpas, conseguiu que Dionísio ficasse o mais confortável possível, deitado numa boa cama e mandou que lhe dessem à colher um caldo de carne, para que não ficasse nem com fome nem desidratado. Deixou também um xarope que lhe acalmaria as dores. Depois era deixá-lo dormir o mais possível, o corpo dele tinha que recuperar e de sono e boa comida era do que ele precisava, nos próximos dias.
Nunca ninguém chegou a perceber bem o que se passou quando o Senhor e os seus dois criados foram resgatar o Dionísio do seu cativeiro. Torneirinha não se atrevia a fazer perguntas. Essa família já era sobejamente conhecida pelo seu patrão, que era Juiz no Tribunal de S. João. E foi precisamente por os conhecer bem demais, que percebeu de imediato a urgência em tirar de lá Dionísio assim como sabia a melhor maneira de lidar com eles. A cobardice está normalmente onde existe fanfarronice e mau caracter. E as espingardas fizeram muito bem o papel de abanarem essa cobardia…
Dionísio foi melhorando e a única coisa que o aterrorizava era a possibilidade de ter que voltar para aquela casa. Os Senhores, quando ele ficou capaz de se levantar, chamaram-no à sala do Coração de Jesus, onde estavam a lanchar, e descansaram Dionísio: que nunca mais tinha que voltar, pois o assunto com aquela família estava resolvido e encerrado no que lhe dizia respeito. Perguntaram-lhe se queria ficar a trabalhar para eles ou se preferia voltar para casa, no Marão.
E foi assim que os dois amigos ficaram mais unidos ainda. Dionísio revelou-se um criado muito competente, diligente, responsável e cheio de boa vontade, agradando muito a toda a família e conquistando por completo toda a criadagem, a começar pela Maria cozinheira. Não havia sapatos, cintos, malas, carteiras, cadeiras ou qualquer objecto de couro que não andasse sempre impecavelmente bem engraxado pelo rapaz. Assumiu também as idas diárias à Carqueja, libertando assim a Torneirinha para outros afazeres.
Nos dias em que calhava a Torneirinha ir a casa, a Senhora mandava que fosse também com ela. Dionísio não tinha ninguém de família no Porto e assim podia usufruir da companhia da família e amigos da Torneirinha. Não tardou muito para Dionísio ficar conhecido lá pela Sé e Rua de Santa Catarina das Flores. Até a D. Alzira o “adoptou”, oferecendo-lhe, tal como à Torneirinha, os famosos rebuçados da Régua.
– Ora viva, meninos! Hoje é dia de virem a casa? Gosto muito de os ver assim sorridentes… tomem lá, para ficarem ainda mais bem dispostos! – e ao mesmo tempo que dizia isto, sacava dos seus bolsos uma mão cheia dos gigantescos rebuçados da Régua e enfiava-os nos bolsos das duas crianças que ficavam com um sorriso de orelha a orelha…
– Muito obrigada, D. Alzira! A sua benção!
– Deus vos abençoe e vos dê uma vida melhor do que a vida macaca que os dois têm tido!
Vida macaca? Desta vez não foi só Torneirinha que ficou espantada, também Dionísio não sabia o que era uma vida macaca…

(continua)

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