Retalhos de vidas – Quarta parte Xavier e Branquinha

 

Xavier e a sua Tia, no próprio dia em que chegaram, foram fazer uma visita à Igreja da Lapa. A Tia já há quase vinte anos que não entrava nesta igreja que era a sua preferida, desde sempre. Procuraram um lugar mais perto do altar e ajoelharam-se numa vénia respeitosa. Sentaram-se nos bancos compridos e rezaram um pouco. Que saudades! Que quantidade de recordações lhe vinham à memória desde que tinha entrado de novo na sua tão querida igreja da Lapa… era quase como chegar a casa. Havia tantaos pedacinhos da saudosa Mariazinha ali… tanta falta que a querida sobrinha lhe fazia. Já ia fazer vinte anos que tinha morrido e sua Tia conseguia quase que vê-la e ouvi-la por ali a cirandar, com o seu vestido de xita de pequenas flores, que lhe ficava tão bem e o seu bonito cabelo muito bem entrançado…
Nessa manhã, quando tinha entrado em sua casa depois de duas décadas de ausência, só pensou em Mariazinha e no terrível último dia que passaram naquela casa. Parecia-lhe que tinha sido ontem, tanto a sua memória desse mau bocado era pormenorizada. Que aflição, tanta que foi a pressa em desaparecer dali para fora sem serem vistas ou ouvidas! E Mariazinha? Tão nervosa e triste que ela estava… o seu coração apertou-se só de pensar nela nesse estado. Mas tudo acabou por correu bem. Ninguém se apercebeu e, em consequência, ninguém soube para onde elas foram. Muito menos de quem elas fugiam, o António.
Foram viver para a Nazaré, terra onde vivia a Mãe de Mariazinha. Foram bem recebidas por essa terra de pescadores.
Mas, pouco se pode fazer para contrariar a desventura de uma vida, quando ela teima em persistir… Mariazinha deixou-se envolver pelo desgosto, perdendo as suas forças aos poucos. Continuava a pensar em António, o António dantes, como ela dizia. Sentia-se miserável por se ter apaixonado por um homem casado e com família.
Mariazinha não tinha descanso na sua tristeza. Dormia muito mal, alimentava-se à força, sofria muito. Os médicos que a iam ver, diziam todos o mesmo: ela tem que se distrair, não pode estar sempre assim tão angustiada. Mas todos os xaropes, remédios e mezinhas não adiantaram de nada e o pior aconteceu: Mariazinha morreu. Foi nos braços maternais de sua Tia que exalou o último suspiro.
A sua morte deixou a sua Tia inconsolável. Só Xavier, aos poucos, lhe veio preencher o vazio enorme que a sua querida sobrinha tinha deixado dentro de si. Por ele, voltou a encontrar ânimo e forças para viver. Refez a sua vida já com Xavier a seu cargo. Criou-o o melhor que pode e não descurou a sua educação.
Xavier, inteligente e muito estudioso, conseguiu o prodígio de entrar em Advocacia na Universidade de Coimbra com apenas 16 anos com notas máximas e terminou o curso quando fez dezanove anos. Os seus Professores nunca tal tinham visto. Saiu da Faculdade já com um estágio em Lisboa numa das mais importantes firmas de advogados da capital. Depois de um ano a estagiar, Xavier conseguiu facilmente um lugar numa firma de Advogados também muito conhecida no Porto. Mas quis que a Tia fosse viver com ele para o Porto. Afinal de contas até lá tinha casa e tudo…. e foi assim que a Tia da pobre Mariazinha, desta vez acompanhada pelo sobrinho Xavier, voltou para o Bairro da Lapa.
Já faltavam algumas das pessoas amigas de outrora. Mas quase todos a receberam e ao seu Xavier com braços abertos e generosos na amizade. Todos eles ficaram consternados ao saberem da morte da Mariazinha. A tia ainda lhe custava falar sobre isso, não dava aso a muitas conversas. Aos poucos a vida começou a parecer aos dois habitual e com rotinas diárias que se traduziam em aceitação daquela casa como o verdadeiro lar deles.
Xavier dava-se bem na firma, respeitava e era respeitado por todos. O seu carácter era de homem honesto, inteligente e muito trabalhador. Sabia que tudo o que tinha devia-o à sua Tia, que o proporcionou. Tinha consciência que sem ela, a sua vida tinha sido muito complicada. Estava-lhe grato e demonstrava-o diariamente através da amizade e respeito que lhe tinha.
Na semana que precedia às festas de Natal, Xavier decidiu sair do escritório ainda a tempo de ir fazer uma visita aos Armazéns do Porto. Queria comprar um presente bom para a sua Tia. Chovia, por isso teve que levar o seu grande guarda-chuva.
Desceu a Rua do Almada, cortou pela Rua da Fábrica do Tabaco e chegou lá num instante. Na entrada dos Armazéns do Porto, enquanto sacudia o seu guarda-chuva para o colocar num bengaleiro à porta, sentiu, antes sequer de ter ouvido qualquer barulho, um delicioso perfume pelo ar que o envolveu por todo. O que seria? Rosas? Amores-perfeitos ou era o cheirinho das violetas? Donde viria aquele perfume maravilhoso?
E foi então que reparou nela, a rapariga mais bonita que alguma vez tinha visto! O perfume emanava dela, que maravilha… Xavier sentiu o seu coração contrair-se, a sua respiração quase parou e não conseguia desviar os olhos daquela que lhe parecia uma visão celestial. Ela passou por ele, olhou-o intrigada e desviou-se do guarda-chuva que ficou caído, ainda nas mãos de Xavier, na horizontal, empurrou a porta rotativa e entrou decididamente nos Armazéns. Era Branquinha, a filha de António.
O destino não se deixa desviar do seu caminho. Estava escrito nas estrelas que estes dois se iriam encontrar, e foi esse presságio que se cumpriu nesse momento de encontro.
Branquinha e sua Mãe tinham vindo passar a temporada de Inverno ao Porto. Luís juntar-se-lhes-ia para comemorarem juntos a noite da Consoada e a noite de Ano Novo. Voltariam para Vila Real em meados de Janeiro, depois do Baile do Clube Portuense.
Xavier recompôs-se e não perdeu tempo a ir atrás de Branquinha. Tinha que descobrir quem ela era, e se nunca mais a via? Um nervosismo miudinho apoderou-se dele e não descansou até a encontrar de novo. Estava na secção de roupa interior feminina, o que complicou um bocado o plano que Xavier tinha, de se mostrar interessado em algum artigo em particular. Só via soutiens, combinações, cuecas e uma infinidade mais de peças que ele nem sabia para o que serviam! E era grande, esta secção… acabou por se posicionar a admirar uns cabides cheios de camisas de noite, cobertas de rendas, folhos e fitas. Parecia-lhe até complicado dormir com aquilo tudo vestido. Mas não querendo perder a rapariga de vista, acabou por aceitar a ajuda de uma empregada que o ajudou a escolher uma das camisas para a sua Tia. Pelo menos ficava com o presente resolvido. A empregada garantiu-lhe que aquela camisa seria o sonho de qualquer mulher! De certeza que a Tia ia gostar dela…
E o melhor de tudo era que não tinha perdido de vista a bonita rapariga que terminava nesse momento de fazer as suas compras. Encontraram-se os dois no cimo das escadas, e Xavier ofereceu-se para lhe levar os embrulhos. Branquinha, toda sorridente, aceitou e agradeceu a ajuda.
Saíram em direcção à Rua dos Clérigos e Xavier apresentando-se a ele próprio, perguntou se podia saber o seu nome e se podia acompanha-la a casa. Branquinha riu-se, respondendo que dependia a que casa se referia… se fosse mesmo a dela, teria que percorrer mais de 100 quilómetros e seria melhor ir prevenido com um farnel, se fosse para a casa onde estava hospedada no Porto, era na próxima esquina, a da Rua das Galerias de Paris. Riram-se os dois quando Xavier lhe respondeu que na verdade preferia acompanha-la durante mais de 100 quilómetros, assim tinha mais probabilidades de ficar seu amigo… cansados de tanto andar, seria um facto, mas amigos. Agora, até à próxima esquina, já tinha que se despachar para que se conhecessem um bocadinho melhor…
E passou a ser esse dia chuvoso e frio de Dezembro, o primeiro dia de uma bela amizade entre estas duas almas tão diferentes uma da outra, socialmente falando, mas que dia após dias descobriam grandes afinidades e muitos gostos em comum. Até que o Natal chegasse, encontraram-se mais três vezes para tomarem um chá na Arcádia. Foram horas de deliciosa conversa cheia de descobertas e de muito bom humor. Branquinha gostava da maneira como ele a fazia rir. Xavier gostava era de a ver rir: até os olhos dela pareciam acompanhar o seu riso.
O tempo era como se voasse, quando estavam juntos. Despediam-se com a sensação de que a conversa não estava nem de longe nem de perto terminada. Não se separavam sem antes ficar combinado onde e quando era o próximo encontro.
Passou o Natal, passou o Ano Novo e chegou o dia do Baile do Clube Portuense. Branquinha quase perdeu a vontade de ir ao baile. Mas tinha que acompanhar a sua Mãe. Ficava triste e apreensiva quando pensava na partida para Vila Real que estava combinada para o dia seguinte ao do Baile. Era grande a distância entre as duas cidades ao mesmo tempo que era grande a vontade de estar muitas vezes com Xavier. Mas Branquinha sabia que não podia ficar mais tempo longe das suas propriedades, era imperativo que voltasse a tomar conta das rédeas da administração.
Xavier não pensava noutra coisa, como iriam fazer daqui para a frente?
Branquinha voltou com sua Mãe para Vila Real e Xavier continuou com a sua vida de trabalho no Porto. A cidade parecia-lhe agora vazia, escura e fria… faltava-lhe o seu solzinho, como ele em pensamento tratava a sua Branquinha.
Começaram a escrever-se. Primeiro, uma carta por semana, ou seja: esperavam que um e outro respondesse à carta anterior. Mas muito rapidamente a frequência das cartas foi aumentando, pois nem ele nem ela conseguiam segurar dentro de si o que o coração lhes pedia para ser contado com aquela urgência própria dos apaixonados. Branquinha quando recebia uma carta de Xavier, dobrava-a em duas e guardava-a dentro do corpete do vestido, bem junto ao seu coração. Gostava de a saber lá, vibrava de entusiasmo ao tentar imaginar o que Xavier lhe escrevia desta vez… por vezes passavam horas até Branquinha encontrar o sítio e o lugar ideal para, calmamente e sem interrupções fúteis, conseguir ler finalmente a carta. Que bem lhe sabiam as palavras de Xavier! Voltava a ler a carta umas poucas de vezes até a saber de cor e salteado.
Xavier, fazia quase o mesmo. Quando saía do escritório, não via a hora de chegar a casa para encontrar uma nova carta de Branquinha.
Sentiram-se os dois meio perdidos quando, durante duas semanas e consequência de um terrível temporal que varreu Portugal de Norte a Sul, em muita zonas transformando-se mesmo em Furacão , a correspondência a nível nacional esteve interrompida. Que angústia e desassossego não ter notícias diariamente como já estavam ambos habituados..
Ía assim a cumplicidade deles aumentando a cada dia que passava.
Xavier, percebeu que tinha que aprender a estar à altura de Branquinha. Era inteligente e sabia que, mais tarde ou mais cedo isso iria ser fundamental para o sucesso do relacionamento dos dois. Desabafou com um dos Advogados mais velhos da firma onde trabalhava. Este pertencia a uma das famílias mais tradicionais do Porto. Xavier disse-lhe, mesmo sem rodeios, que precisava de se educar, pois queria estar à altura da sua namorada e para além disso, mal não lhe havia de fazer, pois sempre tinha gostado de aprender e era aprendendo que se evoluía para melhor. Pedia-lhe assim a sua ajuda.
Esse Advogado, depois de pensar um pouco, disse-lhe o seguinte:
– Xavier, pensando bem no que me pedes, para que te ajude a seres bem-educado, cheguei à conclusão que nada te posso ensinar de novo. Para mim ser bem-educado é ser honesto, trabalhador, gentil, leal, respeitador e de boa-vontade para com os outros. Isso tudo e mais algumas coisas que sei fazerem parte do teu bom carácter já faz de ti um homem educado, e pelo que tenho observado, um homem com H grande. Sobre isso estamos conversados. Agora o que me parece que poderás melhorar substancialmente é o saberes estar e movimentar-te socialmente por todos os estratos sociais. Isso sim, vou puder ajudar-te nesses pequenos-grandes pormenores do dia-a-dia da melhor sociedade nortenha. E começamos já hoje: estás convidado para vir hoje almoçar comigo ao Clube Portuense. É Quinta-feira, por isso é dia de Sopa-seca! Um dos meus pratos preferidos do Clube. Falarei entretanto com a minha mulher e, discretamente, iniciarás a tua aprendizagem.
E foi assim que Xavier granjeou a estima e protecção dos Almeida Coutinho, família muito tradicional da cidade do Porto, que tinham casa na Rua de Cedofeita. O Dr. Albano Almeida Coutinho e sua mulher, a Senhora D. Joana, abraçaram a causa de Xavier e patrocinaram-lhe a vontade de ser melhor.
D. Joana, excelente dona de casa e irremediável casamenteira, foi mesmo mais longe: a Tia de Xavier passou a ser convidada frequente lá de casa e, muito delicada e discretamente para não melindrar ninguém , também foi recebendo lições de etiqueta e de bem estar. D. Joana, com a sua natureza muito generosa, passou a acompanhar a Tia de Xavier na compra de algumas peças de roupa, para ela e para Xavier. Pouco teve de fazer aí, pois o gosto de Xavier e da Tia era simples, o que já ajudava muito.
Passou a Primavera, chegou finalmente o Verão. Tempo de estio nas quintas, tempo de esperar pelas vindimas e um pouco de tempo livre para se gozar em pleno o ar livre e saborear a temperatura que chegava amena logo pela manhã. Luísa, decidiu convidar Xavier e a sua Tia para passarem duas semanas na Quinta em Vila Real. Ainda não conhecia nem um nem o outro. Tinha chegado a altura das famílias se conhecerem. No próximo mês de Novembro, voltariam as duas ao Porto para passarem lá uma temporada. Era do mais conveniente as duas famílias já se terem encontrado e conhecido nessa altura.
Ficou combinado que os dois passariam a segunda quinzena do mês de Agosto lá em cima.
E assim aconteceu. Foram duas semanas pródigas em produzir boas memórias. Luísa, Branquinha e Luís receberam muito bem os dois convidados. Estes, reconhecendo a gentileza dos seus anfitriões, retribuíram com gratidão a hospitalidade. Xavier e Branquinha não paravam um segundo sequer. As duas semanas pareceram aos dois um tempo muito curto. Entre conversas, namoro, passeios e visitas o tempo seguia imperturbável no seu avanço ritmado. Foram dias preenchidos de cumplicidades, risos, declarações de amor e de muita diversão. Os dois jovens, reafirmaram um ao outro que não poderiam mais viver um sem o outro. Xavier e Branquinha transbordavam de felicidade. Que ventura lhes parecia as suas vidas, cheias de promessas de um futuro a dois!
A Tia de Xavier, muito serena, andava encantada com a companhia da Senhora D. Luísa. Trocaram as suas melhores receitas culinárias e partilharam segredos da vida doméstica que ambas tão bem conheciam.
O tempo que passou com a Senhora D. Joana Almeida Coutinho tinha sido um tesouro incalculável. Tanto a Tia como Xavier, assimilaram muito bem tudo o que precisaram para estarem à altura do ambiente familiar daquela casa.
Mas aqueles dias de bonança para os dois apaixonados estavam já a acabar, e eles não o sabiam! Era como uma tempestade que começava a formar-se e a aproximar-se cada vez mais…
Na véspera da partida para o Porto dos dois convidados, no último jantar a que estariam presentes, também se lhes juntou António, vindo de uma das suas muitas viagens misteriosas que ninguém percebia bem onde era.
A Tia de Xavier, a primeira a reconhecer essa pessoa do seu passado, ficou estupefacta quando o viu, no momento em que eram os dois apresentados. Tinham passado mais de vinte anos, mas as más recordações estão sempre prontas a serem lembradas… A pobre Tia viu-se a apertar a mão a António, uma mão que tanto mal tinha provocado na sua vida. Tremeu, e voltou a tremer. Todo o seu corpo repudiava aquele que tinha sido para a sua querida Mariazinha o Diabo em pessoa. Ouvia como se fosse lá muito ao longe a voz dele e dos outros que trocavam cumprimentos.
O quê? Era este patife afinal o Pai de Branquinha?? Nunca pensou vê-lo outra vez, e aqui estava ele, a dar-lhe a sua direita na mesa de jantar. Como este mundo pode ser cruel, parece até que brinca com as pessoas. Xavier, reparando que alguma coisa se passava com sua Tia, perguntou-lhe se se sentia bem. Todos concentraram as suas atenções nela e foi só nesse momento que António lhe pareceu já a conhecer. A sua fisionomia fazia-lhe lembrar alguém, mas não conseguia perceber quem seria. A Tia, recuperando a custo a sua postura normal, foi dizendo que tinha sido por causa do calor. Era um final de um dia que tinha sido muito quente, com a temperatura a atingir os 33 graus centígrados. “Que já estava melhor, depois de beber um pouco de água”, descansou assim a Tia o seu sobrinho.
O jantar decorreu normalmente, António nem sequer abriu a boca.
Mas a sua curiosidade ía aumentando cada vez mais: de onde conhecia ele aquela parola? Era do Porto, António não tinha muitos conhecimentos por lá, mas onde é que ele já a tinha visto? Pensava António, olhando de esguelha para ela. A sua filha ía casar com o sobrinho dela, segundo o informaram logo que chegou. Ao darem-lhe a novidade, também lhe pediram para tentar ficar sóbrio, pelo menos nessa noite. Branquinha chegou mesmo a prometer-lhe algum dinheiro se ele não a envergonhasse à frente do seu namorado e de sua Tia.
“Pai, é só hoje que te peço esse sacrifício. Depois, podes fazer o que tu quiseres, como sempre o fizeste, e que pouco ou nada me importa”
António não falava, sempre de semblante carregado, contrariado por não puder beber o vinho que lhe apetecesse, suspirava a alto e bom som para que aquela porcaria de jantar terminasse. Ainda tinha que descobrir a maneira de como arrancar mais dinheiro da filha. A mosquinha morta da mulher já não tinha nenhum, pelo menos até à próxima mesada… tinha de alguma maneira mostrar que estava empenhado em pagar a dívida ao Manolo prestamista. “O gajo não era para brincadeiras” -pensava António, enquanto afagava o seu ombro ainda ressentido do torção que um dos seus homens lhe tinha dado ontem, em jeito de aviso, com a declaração de ter uma semana para pagar a dívida.
E enquanto pensava nisto, ía olhando para o palermita do namorado da filha. E foi então que reparou nas mãos de Xavier! “Mas… aqueles dedos compridos e finos, as unhas bem desenhadas e peculiarmente planas e proporcionadas… onde é que já tinha visto umas mãos exactamente iguais?? Mariazinha!” As mãos do idiotazinho do namorado da filha eram iguais às da Mariazinha, uma antiga namorada que tinha fugido com a Tia …. a Tia! Pois claro, agora sabia porque aquela cara não lhe era estranha! Era a Tia da Mariazinha, apesar dos muitos anos passados, dos muitos quilos a menos, da boa apresentação e das maneiras educadas que ela agora apresentava. Por isso tinha tido uma má disposição quando o viu!
E Mariazinha? Onde estava ela? Não lhe podia perguntar por ela… aliás, o melhor mesmo era continuar a fingir que não a conhecia. Caso contrário como ía explicar as coisas à sua filha? E ainda corria o risco da velha abrir a boca para o que ele tinha feito… Não, decidiu António. Não ía fazer nada, por agora….
Teria que conseguir aquele dinheiro da filha, era o mais urgente agora.
Mas voltando a observar Xavier, António começou a reparar em mais parecenças com Mariazinha: a cor do cabelo era igual, assim como os seus olhos de um azul estranho, envolventes como eram os de Mariazinha. Raios! Até o formato da cara e o nariz bem aprumado ele tinha iguais aos dela… António dirigiu a palavra, pela primeira vez, a Xavier para lhe perguntar quantos anos tinha.
– Dezanove, Senhor. Completarei vinte anos agora em Setembro.
António ficou novamente calado, muito pensativo e ainda mais carrancudo até ao final do jantar, altura em que fez as suas despedidas e se retirou para o seu quarto. Xavier e a Tia nunca mais o viram até à sua partida no dia seguinte.
Voltaram para o Porto. Xavier já vinha carregado de saudades de Branquinha, mesmo antes de ter saído de casa dela. Mas vinha feliz, tinham combinado a sua festa de noivado para o próximo mês de Novembro, quando Branquinha e sua Mãe voltassem de novo ao Porto para a temporada de Inverno. Ficou também acordado que o noivado teria uma duração de um ano. Um ano que Xavier antecipava com grande entusiasmo que seria de preparativos e ajustamentos à vida de ambos, para melhor conciliar a profissão de Advogado de Xavier com a administração das propriedades e negócios de Branquinha. Mas, com amor e muita entrega, tudo iria correr pelo melhor, pensavam e prometiam-se os dois namorados.
Mas sua Tia, ainda abalada com o encontro de António, já não vinha tão optimista. Sentia qualquer coisa estranha, um sentimento que a assustava, como se tivessem uma nuvem negra a crescer em tamanho, em cima da vida deles… Xavier só via o sol, mas ela começava a ver as trevas… começava até a sentir frio no coração.
Era o maligno a rondar outra vez, em perfeita expectativa para espalhar o seu hálito de maldade e crueldade…
Que ser desprezível era António! A arrogância e a malcriação que ostentou para eles os dois e mesmo para a sua família durante o jantar da noite anterior, tinham impressionado a Tia embora não a surpreendendo, pois já lhe conhecia bem a sua má índole. Como a vida pode ser tão cruel, porque nos prega destas partidas? Tantas raparigas para Xavier se apaixonar e tinha que ter sido logo pela Branquinha, filha daquela besta do António? E agora, o que fazer? Ainda bem que António não a tinha reconhecido, isso dava-lhe algum tempo para pensar e decidir como lidar com a situação.

(Continua)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s