Retalhos de Vidas – Quinta parte O Desgosto de Branquinha

António tinha ficado muito intrigado: “sobrinho” da Tia da Mariazinha, muito parecido com ela, com quase vinte anos de idade… seria possível? Não! Nem pensar! Ele tinha a certeza que tudo tinha corrido de feição… no entanto, a dúvida não o abandonava… E se alguma coisa tinha corrido mal, nesse dia tão longínquo? E se o tivessem enganado? Tantas perguntas e nenhuma resposta. E António, com aquela essência maldita dele, conseguiu imaginar que, se calhar, até podia extorquir dinheiro à filha à custa disso. Mas tinha que ter a certeza. Amanhã partiria para o Porto para procurar a mulher que tratou desse assunto do bebé de Mariazinha. Com certeza que iria descobrir o que realmente se passou.
Assim o pensou e assim o fez.
Encontrou facilmente a mulher, já velha e trôpega mas com a cabeça ainda perfeita. Já não trabalhava assim tanto, só fazendo um ou outro trabalho de vez em quando e só para amigos. António queria saber se ela se lembrava dele e da namorada de há vinte anos atrás. Tinham vindo algumas vezes a casa dela mas só à terceira é que a namorada, que se chamava Mariazinha, tinha feito o aborto, numa manhã que veio acompanhada por uma Tia dela. Lembrava-se delas?
“- Olhe, já foram tantas e durante tantos anos que é impossível lembrar-me de todas!”
– Mas vai ter que se esforçar mais – disse António, endurecendo a voz e a sua expressão facial – eu não estou para brincadeiras ou lamentos. Quero lá saber se a sua memória se encontra bem ou não! Eu nesse dia paguei-lhe e não foi assim tão pouco, para fazer um serviço que me parece não ter sido feito! Quero saber o que se passou e não admito mentiras, fui claro?
E quando acabou de proferir estas palavras, já num tom de voz muito elevado, António deu um pontapé na bengala em que a mulher se apoiava, fazendo-a estatelar-se no chão com grande estrondo. O medo tomou conta dela, estava sozinha em casa, sabia que não tinha ninguém que a acudisse, nem vizinhos, pois não era uma pessoa querida por eles. Percebeu que aquele homem não estava ali para brincadeiras e despejou logo a descrição de como tudo se tinha passado, entre soluços, choro e fungadelas:
– Nesse dia, quando a menina e a mulher que a acompanhava entraram para eu fazer o trabalho, a que penso ser Tia dela perguntou-me quanto é que o Senhor me tinha pago pelo trabalho combinado. Quando lhe disse o valor, ela meteu a mão ao bolso, tirando um monte de notas, contou o dobro do montante que eu lhe tinha dito, estendeu-me as notas e disse-me ainda que me dava mais algum ainda para que eu não fizesse nada mas fingisse que o tinha feito. Perguntou quanto tempo aquilo costumava demorar. Disse-lhe que normalmente eram precisas pelo menos duas horas para que tudo ficasse terminado. Quando peguei no dinheiro, aceitando assim aquele negócio, pediu-me para que me comportasse, durante essas duas horas, como se estivesse a fazer o meu trabalho. Assim o fiz, e duas horas depois elas saíram daqui de casa, pretendendo estar a rapariga toda dorida e triste. O Senhor desculpe, mas há vinte anos atrás eu era muito pobre e tinha quatro bocas para sustentar, e qualquer dinheiro que viesse extra era uma dádiva para mim…”
António nem se deu ao trabalho de lhe responder. Desferiu-lhe um pontapé nas costas – a mulher ainda estava estendida no chão – e friamente, debruçou-se sobre ela e com os seus terríveis olhos a faiscarem de crueldade, disse-lhe que não ía repetir a pergunta que lhe ía fazer a seguir, por isso, era melhor ela ouvi-la com atenção e ser rápida na resposta. Se não o fosse, era de imediato espancada ali no chão.
– Onde é que tens o teu dinheiro escondido, velha estúpida?
A mulher, tremendo de medo, apontou para uma lata de açúcar em cima de uma prateleira que havia na cozinha.
António, calmamente, pegou na lata, abriu-a e tirou-lhe todo o dinheiro que lá estava, mesmo sem o contar, e guardou-o num dos seus bolsos.
De seguida, voltou de novo para junto da mulher e vingativo, disse-lhe que a ele ninguém enganava e conseguia sair impune. Começou então a pontapeá-la, esmurrá-la e a pisar-lhe até a cara. A mulher perdeu os sentidos e só nessa altura António se deu por satisfeito e se foi embora dali.
Xavier era filho dele, agora tinha a certeza absoluta. António riu-se e pensou que até que agora isso lhe vinha a calhar… tinha era que fazer as coisas bem para conseguir o máximo dinheiro possível com aquela informação preciosa para a filha e para o seu futuro.
Soube também nesse dia, pelo Sacristão da Igreja da Lapa, que foi visitar, que Mariazinha tinha morrido há quase vinte anos, na aldeia da Nazaré, para onde tinha ido morar com a Tia dela.
Tudo agora fazia sentido. Mariazinha continuou com a gravidez, teve o filho dele e acabou por morrer ficando a Tia com a criança, o Xavier, a seu cargo.
António ainda passou por uma Taberna, embebedou-se e foi procurar uma sala de jogo clandestina onde acabou por gastar todo o dinheiro que tinha roubado.
Voltou de novo para Vila Real tal como tinha saído de lá: sem dinheiro.
Na semana que se seguiu, andou a rondar a filha, dizendo-lhe que precisava de um montante de dinheiro muito elevado, mas em troca, tinha uma informação muito importante para lhe dar. Branquinha passou esses dias a ignorar o Pai, sabia muito bem para que queria ele o dinheiro e isso da informação era com certeza mais um dos estratagemas dele para o conseguir. Não lhe deu importância. Mas quando o Pai lhe falou de Xavier e da sua proveniência, achou estranho e disse-lhe que se o Pai não o conhecia, não podia saber grande coisa sobre ele.
– E se eu te disser que eles moram no Bairro da Lapa, no Porto? E se eu te disser também que a Tia de Xavier saiu de lá com a sobrinha, que se chamava Mariazinha há vinte anos atrás, quando foram viver para Nazaré?
– Continue, Pai. O que pode saber assim de tão importante sobre eles que eu precise imperiosamente de saber?
– Para eu te dizer, tens que me prometer que me darás o dinheiro que eu te pedi. Eu não queria obrigar-te a dá-lo nestas condições, mas a verdade é que a tua avó me deixou na penúria, a tua Mãe não me ajuda e eu preciso absolutamente dessa quantia. É uma questão de vida ou de morte, acredita…
– Seja, então. Venha ao meu escritório para eu lhe passar um cheque.
E lá foram os dois. Branquinha, não tinha dado grande crédito ao que o Pai lhe disse, acabou mesmo por achar que lhe daria esse dinheiro com o aviso definitivo que fecharia a torneira daqui para a frente. Não lhe passava pela cabeça a bomba que estava prestes a rebentar na sua vida, daquelas bombas que são construídas com pedaços ferrugentos de ferro e parafusos que, ao explodir a sua hospedeira se espalham por todos os lados, ferindo tudo a torto e a direito.
Com o cheque na mão, António começou então a falar. E não poupou pormenores, contou mesmo tudo … à sua maneira!
O Xavier era filho dele e de Mariazinha, que tinha sido uma das suas amantes.
– Na altura, já era casado com a tua Mãe e tive que vir passar uns tempos no Porto para ajudar um Tio meu, Pároco da Igreja da Lapa, nas obras de restauro. Conheci Mariazinha e apaixonamo-nos logo à primeira vista. Embora gostasse muito da tua Mãe, não conseguia separar-me da Mariazinha. O tempo foi passando, e ela sempre a insistir para que eu deixasse a tua Mãe e viesse viver para o Porto com ela. Chegou mesmo a mostrar-me a casa que queria alugar para nós os dois. Nunca aceitei, tinha respeito pela tua Mãe, sabes? Não lhe podia fazer uma coisa dessas!
– Curioso o que diz, Pai! Não podia, mas fez! Que grande paradoxo, não acha?
– Não percebes, ela não parava de me perseguir, foi das pessoas mais insistentes que eu conheci em toda a minha vida, manipuladora… chegou mesmo a ameaçar-me de se meter no comboio e vir cá falar com a tua Mãe e a tua Avó! Eu andava muito aflito e arrependido. Não sabia como resolver a situação. Até que um dia, inesperadamente, Mariazinha contou-me que estava à espera de um bebé, e que queria que eu ficasse a viver com ela no Porto. Não aceitei e quis que ela se desfizesse da criança. Eu sei que foi mal feito, minha filha, mas era muito novo na altura e fiquei assustado com a possibilidade da tua Mãe e da tua Avó descobrirem tudo… Contratei uma mulher para o fazer, paguei-lhe de antemão e acompanhei até lá a Mariazinha. Mas as duas enganaram-me, soube isso agora. Quando reconheci a Tia do Xavier como a Tia de Mariazinha, percebi logo que ele era filho dela, é muito parecido com a Mãe. Depois, foi só fazer contas para ficar a saber o que já desconfiava. Confirmei por fim em definitivo quando falei com a mulher que supostamente teria feito o desmancho. Ela contou-me toda a verdade, como tinha sido obrigada a fazer aquele teatro todo só para me enganar… Não são gente que preste, aproximaram-se de ti só por interesse e provavelmente para se vingarem de mim através de ti. Não são bons para teres como família, minha filha. Desliga-te deles!
Branquinha estava como que paralisada. Aquilo que o Pai estava a tentar dizer-lhe era que Xavier era seu irmão? Durante muito tempo, em estado de choque, não conseguiu articular uma palavra que fosse. Seu irmão? Xavier SEU irmão? Mas como era isso possível!? Não podia ser verdade! O Pai toda a vida tinha sido um mentiroso, esta era apenas mais uma das suas mentiras. Mas, SEU IRMÃO?? Oh, Xavier… Xavier… não, não pode ser verdade!
– Amanhã vem comigo ao Porto. Quero confirmar o que me disse com a Tia do Xavier e quero que esteja presente. Caso contrário mandarei suspender o pagamento desse cheque que lhe dei. Saíremos às cinco da manhã, esteja pronto a essa hora. Outra coisa, livre-se de contar o que quer que seja disto a minha Mãe e ao meu irmão! Percebeu bem? Agora saia. Quero ficar sozinha.
E Branquinha ficou só, com a sua angústia o seu desespero e a sua desorientação. Nem sabia bem o que pensar. Não podia falar com o seu irmão sobre isso, muito menos com a sua Mãe. Tomara que a sua Avó ainda fosse viva, essa sim, saberia logo o que fazer…
Branquinha deitou-se nessa noite não para dormir mas para ter um turbilhão de pensamentos que lhe inundaram a cabeça de dúvidas e tristeza. Não conseguia acreditar que uma coisa dessas acontecesse consigo e com o seu Xavier. Irmãos? Meu Deus, minha Nossa Senhora, por favor, fazei com que isto seja tudo um mal-entendido. Protegei o nosso amor, dai-nos a Vossa benção para a nossa união… Fazei com que isto seja apenas um pesadelo que eu esteja a ter!
Mas infelizmente o dia seguinte chegou e trouxe a confirmação que Branquinha mais temia.
Chegaram a casa de Xavier já passava das onze da manhã. Branquinha bateu à porta e viu a surpresa e o tremor da Tia de Xavier quando esta viu o seu Pai. Disse-lhe que não estava ali para conversarem, que tinha umas perguntas muito rápidas para fazer, e que queria respostas honestas e o mais concretas possíveis.
– A Senhora tinha uma sobrinha que se chamava Mariazinha a viver consigo?
– Já conhecia o meu Pai há vinte anos?
– O meu Pai António foi amante dela até se mudarem para a Nazaré?
E a todas estas perguntas a Tia de Xavier respondeu que sim, abanando a cabeça várias vezes na vertical. Não se atrevia a dizer mais nada, tinha muito medo de António, não por si, que já era velha, mas por Xavier. Sabia bem do que António era capaz. Ontem, chamada por ela, tinha ido visitar a mulher que simulou fazer um desmancho a Mariazinha, ao Hospital de Santo António. Estava numa enfermaria, toda entrapada, com o pouco de pele que estava à vista toda negra. Tinha sido espancada por António, depois de lhe ter arrancado toda a verdade. A mulher queria avisa-la para que tivesse cuidado com ele, sabia que ela tinha voltado ao Porto, achava que não estava segura. Os médicos disseram que ela ainda assim teve muita sorte, nem perceberam como não tinha sucumbido a tanto pontapé que apanhou. Não lhe conseguiram salvar o seu olho esquerdo, que lhe saltou da órbita com o impacto das pancadas.
E agora ali estava ele bem à sua frente, com um daqueles sorrisos maléficos dele… o homem era o Diabo!
Branquinha, desatando num pranto, virou as costas para sempre àquela pessoa, àquela casa e ao que tinha sido até agora o seu Xavier.
Só queria chegar a sua casa, não sabia como se sobrevivia a tanta dor no peito, nunca tinha sentido tamanho desgosto… O que iria ser a vida dela a partir de agora?
Quando chegou a casa, foi directa ao seu quarto. Juntou todas as cartas, livros, presentes e recordações que tinha de Xavier, meteu tudo dentro de um baú velho, fechou-o à chave e mandou-o arrumar no sótão, bem longe da sua vista. Não desceu para jantar e mandou recado a sua Mãe dizendo que estava com uma terrível enxaqueca e que se iria deitar. Falaria com ela na manhã seguinte.
No dia seguinte, após o pequeno almoço, contou a sua Mãe a verdade, que ela e Xavier eram irmãos. Pedia desculpa por lhe dar mais este novo desgosto em relação ao seu Pai, mas tinha toda a noite pensado numa outra maneira de lhe contar tudo sem a magoar e não a soube encontrar. Sua Mãe, estupefacta com aquela má novidade descansou de imediato sua filha. Já há muito que não se importava com o seu Pai. Pensava nele como a sua cruz que carregava diariamente, mas não sentia nada por ele, a não ser pena. O que a preocupava verdadeiramente era Branquinha. Abraçou-a e amparou-a no seu choro tão perdido e desesperado.
Branquinha, quando se acalmou um pouco, reuniu todos os criados e transmitiu-lhes que a partir desse dia ninguém mais poderia deixar entrar em sua casa ou sequer falar com qualquer um deles, Xavier e a sua Tia. Todas as cartas ou encomendas que tivessem um dos dois como remetentes, deveriam ser de imediato devolvidas ao carteiro por quem as recebesse. De igual modo, as chamadas telefónicas de qualquer um deles deveriam ser também recusadas.
Branquinha tinha fechado para sempre a porta a Xavier. Queria arrancá-lo assim do seu coração e achava que era cortando drasticamente com qualquer contacto que o iria conseguir mais depressa e melhor.
Mas ai! O amor não se deixa assim controlar… tem vontade própria, alimenta-se de lembranças, atraiçoa-nos com um cheirinho, um sabor, uma certa música ouvida sem querermos, uma paisagem outrora sonhada a dois, a qualquer pequena coisa se agarra o nosso coração para não se esquecer, independentemente da nossa vontade. Branquinha sofria. Sofria com a luta interior que levava a tentar esquecer Xavier. Dizia a si própria vezes sem conta que Xavier era seu irmão, por isso não podia pensar nele assim! E chorava. Durante muito tempo, não houve noite que não adormecesse a chorar. Perdeu o gosto pela vida de que tanto gostava. Não mais se interessou pelas suas quintas, pelos seus cavalos. O seu sorriso desapareceu da sua cara bonita.
Branquinha estava irreconhecível.

(Continua)

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