Retalhos de Vidas – Sexta parte O desgosto de Xavier

 

Xavier mal chegou a casa, depois de um longo dia de trabalho, sentiu de imediato que alguma coisa tinha acontecido. A Tia, apesar de ainda ser cedo, já tinha as portadas fechadas e estava sentada numa cadeira, às escuras, à sua espera. Xavier notou-lhe ainda algumas lágrimas perdidas na sua cara. O seu ar era de muita tristeza.
– Minha Tia! O que aconteceu? Está com alguma dor? Magoou-se! Caiu! Diga-me, por favor, o que sente! Quer que eu mande chamar o médico?
– Filho, nada disso. Vem sentar-te aqui ao pé de mim. Estava há muito à tua espera. Demoraste a chegar a casa, hoje…
– Depois destes dias em que não trabalhei, acumulou-se muita coisa. Mas já adiantei bastante, durante a próxima semana conseguirei pôr tudo em dia, novamente. Mas diga-me, vejo-a muito nervosa e aflita, nem me lembro sequer de a ver alguma vez assim nesse estado. Não me deixe tão preocupado e diga-me o que se passa consigo!
– Filho, o que tenho para te dizer vai deixar-te triste. Mas quero que saibas que podes contar com o meu apoio incondicional. Gosto de ti como se fosses meu filho. Vou contar-te tudo o melhor que conseguir.

E a Tia começou por contar toda a história de Mariazinha e a sua maldita ligação com António. Xavier ficou então a perceber porque se tinham mudado elas para Nazaré. Ficou triste pela Mariazinha e com uma raiva imensa de António. Disse à Tia que se ele o tivesse conhecido então , não deixaria que ele fizesse gato e sapato de Mariazinha. Com o fogo e empolgamento próprio de um jovem homem honesto e leal, Xavier tinha realmente pena de não se ter cruzado com tal verme rastejante, que era o que António era.
Sua Tia, fez uma pausa depois de ouvir isso, para logo a seguir lhe dizer, devagarinho, que ele já conhecia o tal António. Perguntou-lhe se se lembrava daquela indisposição que ela tinha sentido no último jantar em Vila Real. Sim, Xavier lembrava-se bem.
– Pois meu filho, senti-me mal porque tinha reconhecido no Pai de Branquinha o António, causador de tanto mal. Foi como se tivesse sentido o Diabo em pessoa. Apercebi-me que ele não se lembrava já de mim. Mas fiquei com medo que ele mais tarde ou mais cedo o viesse a fazer. E foi o que aconteceu. Contou tudo a Branquinha. Sei disto tudo Xavier, porque estiveram cá hoje os dois, vindos directamente de Vila Real. Branquinha queria que eu confirmasse que o que o Pai lhe tinha contado era verdade. E eu não pude fazer nada diferente do que fiz, que foi dizer que sim, que António tinha sido amante da Mariazinha quando ele já era casado e Pai de um filho.
– Tia, não fique assim tão apoquentada. Falarei com Branquinha e tudo se resolverá. Eu sei que tanto ela como sua Mãe e seu irmão têm pouca ou nenhuma afinidade com aquele Pai. Branquinha várias vezes me falou sobre a tristeza da Mãe que nunca foi feliz com o marido e o muito que a sua Avó sofria com isso, culpando-se por ter permitido que ele estragasse a vida da filha…
– Filho, Deus te oiça. É o que eu mais queria, que tu te entendesses bem com a tua namorada, que ela tivesse a sabedoria suficiente para separar o trigo do joio, mas devo dizer-te que neste momento não me parece isso possível, bem vi a cara dela quando daqui saiu, hoje de manhã. E ainda há outra coisa que tens que saber: António é um homem muito cruel e violento. Já ouviste com certeza falar de um assassínio de um Merceeiro aqui da Lapa que ficou por resolver, era o Sr. Lino. Era muito meu amigo. Xavier, vais ter que ficar calado sobre isso, mas eu sei que foi ele que o matou. E a culpa foi minha, nunca deixei de sentir remorsos por ter dito a António que tinha sido por ele que descobrimos que era casado. Um dia depois, apareceu morto, violentamente espancado. E não é tudo, não sei como, mas também descobriu que foi enganado pela mulher que supostamente teria feito o tal aborto a Mariazinha. Ontem fui visita-la ao Hospital de Santo António. Teve mais sorte que o nosso amigo Sr. Lino, não morreu depois de ter sido também espancada por ele. Ficou sem um olho… Xavier, ele é muito perigoso, eu não quero que tu o enfrentes!
Xavier nessa noite tratou ele do jantar, fez companhia à Tia, prometeu-lhe até que nunca iria confrontar-se com António. Ajudou-a a deitar-se e rezou com ela a oração da noite.
Quando a Tia adormeceu, correu para a sua secretária e escreveu uma longa carta a Branquinha. Descreveu tudo o que a sua Tia lhe tinha contado, garantindo-lhe nada ter sabido disso antes, pois a sua Tia nunca gostou de falar sobre Mariazinha. Pedia-lhe que lhe contasse o que lhe tinha dito seu Pai e fazendo as habituais juras de amor eterno, pedia-lhe que lhe respondesse rápido, para que a ansiedade que tomou conta dele se dissipasse com a sua próxima missiva.
Mas a sua ansiedade tinha chegado para ficar, mal ele sabia que ía ser a sua companheira durante muito tempo… Dois dias depois, Xavier recebeu a sua carta de volta, com um apontamento que dizia ter sido recusada pelo destinatário. Recusada? Xavier verificou se estava bem endereçada. E estava. Voltou a expedi-la e dois dias depois voltou a ser-lhe devolvida novamente por abrir. Xavier não conseguia perceber porque Branquinha a recusava. Se calhar haveria alguma explicação… Voltou a escrever uma e outra vez e o resultado era sempre o mesmo: a devolução das cartas ainda intactas.
Decidiu usar o telefone para falar com Branquinha, para perceber o que se estava a passar. Fez a ligação de um posto público que havia na Praça de Carlos Alberto. Foi informado que Branquinha não queria falar com ele e que não valia a pena insistir, ninguém iria contra qualquer ordem dela. Xavier finalmente percebeu que a determinação de Branquinha iria ser um obstáculo muito difícil de ultrapassar. Só havia uma solução: ir pessoalmente a Vila Real falar com ela. Avisou na firma que se iria ausentar do Porto por dois dias e lá foi ele para Vila Real. Partiu do Porto esperançoso e o que trouxe de volta foi o seu coração destroçado. Branquinha não queria nem sequer vê-lo quanto mais falar com ele. Ficou isso bem claro nos recados que ia recebendo através do portão da casa dela, que se manteve sempre fechado para ele.
Xavier nada mais podia fazer. Não conseguia chegar à fala com Branquinha.
Mas que coisa ! Xavier já achava que havia muito exagero na atitude dela. O seu amor-próprio já não lhe permitia insistir mais. Talvez em Novembro, quando Branquinha viesse passar o Inverno com a Mãe ao Porto eles se conseguissem entender. Xavier era um apaixonado, mas não tinha perdido a paciência. Continuou a escrever-lhe mas, à medida que ia recebendo de volta as suas cartas por abrir, foi-as espaçando até finalmente perceber que não valia a pena escrever mais nenhuma.
Xavier andava triste, cada vez mais triste. Tentava concentrar-se o melhor que podia no seu trabalho, e era isso o que lhe valia. Quanto mais infeliz andava, melhor o trabalho lhe saía. Já tinha dois casos importantes em mãos, de sua inteira responsabilidade. Dedicou-se a eles com afinco e conseguiu um óptimo resultado para dois dos melhores clientes da firma. Atrás desses vieram outros tantos casos bons. Xavier estava muito bem lançado na sua carreira profissional. Mas o seu coração não lhe dava descanso. Não conseguia perceber que mal tinha ele feito para merecer tamanho castigo, pois era isso que ele sentia, estar a ser castigado por Branquinha. Contorcia-se entre dois fortes sentimentos: amá-la e odiá-la. Ainda lhe custava a acreditar que Branquinha fosse assim tão preconceituosa ao julgá-lo a ele por erros cometidos por outras pessoas. Quem lhe dera a agora não se ter entregado assim tanto a ela… talvez então o seu desgosto não fosse tão grande. Acabou o mês de Setembro, correu o mês de Outubro e passou o mês inteiro de Novembro e também o de Dezembro sem que Branquinha e sua Mãe fossem vistas lá pela cidade do Porto. Xavier estava atento, todos os dias passava pela casa onde elas costumavam ficar hospedadas sempre que vinham ao Porto. Nunca apareceram.
A sua tristeza aumentava de dia para dia. Estava mais magro, calado e, propositadamente, atolava-se de trabalho. O sorriso que dantes lhe era frequente nunca mais lhe apareceu na cara.
E o tempo foi passando, trouxe a Primavera florida, trouxe o Verão seco e quente, trouxe o Outono ventoso e chuvoso e voltou finalmente a trazer o frio e o gelo com o Inverno. E assim passou um ano inteiro. Um ano que devia ter trazido descanso e apaziguamento aos dois corações doentes, tristes e desesperados, mas que não trouxe. Branquinha continuava a lutar para que o esquecimento de Xavier chegasse finalmente, mas nunca chegou. Depois da sua apatia inicial com os seus negócios, agarrou-se a eles com unhas e dentes numa tentativa de esquecer-se de Xavier. De nada lhe valeu…

Xavier continuava a alienar-se com todo o trabalho que conseguia angariar, numa tentativa de arrancar da sua cabeça a memória e as saudades que tinha de Branquinha. Mas apesar de todo o tempo ocupado, existiam ainda as noites… e desde que poisava a sua cabeça no travesseiro as lembranças da sua amada vinham em catadupa para atormentar o seu merecido descanso. Xavier tinha emagrecido muito. E continuava triste.
Recusava todos e quaisquer convites que lhe fizessem para festas ou jantares. Não sentia disposição para se distrair com mundanidades.
Uma tarde do mês ainda frio de Março, inesperadamente, entra-lhe no seu gabinete a Senhora D. Joana Almeida Coutinho.
Xavier de pronto se levantou e ofereceu uma cadeira para a senhora se sentar. D. Joana não conseguiu disfarçar o espanto de ver Xavier tão magro e tão diferente de outrora. Normalmente a descrição em pessoa, percebeu que teria que usar de abordagem diferente com Xavier agora. Já lhe bastavam os muitos convites para almoçar ou jantar em sua casa que ele, educada mas persistentemente, tinha declinado com as mais variadas desculpas. D. Joana vinha sabendo através de seu marido no estado miserável em que Xavier se encontrava mas não imaginava até que ponto ele tinha chegado. “Homens! – pensou ela – nunca sabem analisar nada em condições, no que respeita a assuntos do coração… vou ter que intervir, não sei o que fazer, mas alguma coisa vai ser preciso e urgente!”
E a Senhora D. Joana, pela segunda vez, abraçou a causa de Xavier e decidiu-se a ajudá-lo.
Foi direita ao assunto, avisando-o de antemão que iria por as descrições de lado, pois queria que Xavier confiasse nela e lhe contasse tudo o que tinha havido entre ele e Branquinha. Já tinha passado muito tempo e D. Joana sabia, de fonte amiga e por isso segura, que Branquinha também andava muito infeliz. Pedia a Xavier que não lhe omitisse nada. Dali a duas semanas, durante a semana Santa, ficaria hospedada na quinta de sua cunhada, a passar a festa da Páscoa. Essa quinta confinava com os terrenos da casa de Branquinha. Iam sempre receber o Compasso a casa de Luisa e Branquinha onde tradicionalmente lhes era oferecido depois um excelente almoço. Era um costume perpetuado pela Avó de Branquinha e esta não queria deixá-lo cair. Nessa altura, falaria com as duas e tentaria perceber o que estava em causa. E veria o que podia fazer….
E Xavier, com um raio de esperança a luzir-lhe nos olhos e a apertar-lhe o coração, contou tudo à sua Benfeitora, não ocultando absolutamente nada.
O relato foi longo, Xavier até descreveu os planos que ambos tinham feito antes da sua desgraça.
Quando o rapaz terminou de falar, afirmando que nada tinha ficado por contar, D. Joana ficou por momentos muito calada, olhando fixamente para as suas mãos que estavam poisadas no seu regaço.
Subitamente, levanta a cabeça, encara Xavier e diz-lhe, sem rodeios, que alguma coisa não batia certo nessa história. E ela iria descobrir o quê. Parecia-lhe a atitude de Branquinha muito desproporcionada em relação ao que se tinha ficado a saber sobre Mariazinha. A sua intuição feminina quase nunca a atraiçoava… Agradeceu a confiança que Xavier tinha depositado nela e prometeu-lhe que mal tivesse novidades lhe diria alguma coisa.

(Continua)

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