Rumo a Santiago. Décimo dia

A manhã começou por ser muito fria. Nos primeiros quilómetros andava sempre à procura de algum sinal que me indicasse que o sol iria aparecer. Tive que esperar pelas 11h00 para me sentir aquecida por ele… Tinha marcado encontro com a Maribel, seguimos juntas. O caminho ía crescendo em matas, em beleza e em solidão. Fizemos troços sem ver vivalma por umas boas horas. Não consegui alhear-me de tanta beleza que ía vendo e apreciando. As minhas paragens aumentam, proporcionalmente ao tanto de bonito que me aparece pela frente. A Maribel caminhou com muitas dores num pé, com aquela coragem e persistência tão própria de mulheres fortes.

Deixei para trás mais duas pedras… bolas! Nem imaginam como fazer isso sabe bem! Sei bem que é simbólico e de que nada vale se nós não nos decidirmos a mudar o que é forçoso mudar, mas no exacto momento de as abandonar até parece que “aquilo” vai deixar-nos mesmo em paz. Fiquei ainda com duas pedras mais pequenas e muito negras no bolso, são as duas de basalto. Guardei-as para as largar já quase em Santiago. Já tinha pouco espaço para guardar o que ía encontrando de bonito e “transportável” pelo caminho.
Foi nesse dia que encontramos o Dylan. Um rapaz francês, de 23 anos, que estava plácidamente em pé, à borda do caminho, a fumar um cigarro de tabaco enrolado. Sei-o porque o vi a fazê-lo no princípio da recta onde estava, só o alcançando uns bons 5 minutos depois. Tinha um ar angelical, um sorriso doce e sereno, muito loiro e com uns bonitos olhos azuis. Mas estava muito sujo. Próprio de quem não vê chuveiro há demasiado tempo. Estava a caminhar em sentido contrário ao nosso, em direcção a Fátima. Depois de nos despedimos, e ao ver que ele continuava em pé, não contive a minha curiosidade e perguntei-lhe se ele ía continuar ali a descansar (em pé? pensava eu?!?!?) Mas, muito calmamente, respondeu que estava a fazer companhia a um cão que tinha sido atropelado, apontando ao mesmo tempo para cima de uma pequena ravina. E foi só aí que vimos o cão, com um ar assustado e cansado a cambalear a cabeça. Estava realmente ferido e não devia ser recente, pois o sangue já estava seco. Fiz mais algumas perguntas e fiquei a saber que já se encontrava ali há um pedaço, já tinha tentado que o animal comesse pão e bebesse água, sem sucesso. Pediu ajuda a uns espanhóis que passaram por ali de carro, mas, como não percebia nada de espanhol ficou sem saber se eles íam ou não ajudar…. Aquele rapaz, que vinha de Santiago depois de ter percorrido todo o caminho francês, estava ali a fazer companhia a um cão, apenas porque não queria que ele ficasse sózinho… sem a mais pequena preocupação com ele próprio, apenas com o animal! O Mundo ainda tem rapazes destes, ainda podemos ter esperança… Chamou-se a Polícia (os outros anormais dos rapazes espanhóis não tinham ligado para ninguém) e meia hora depois estavam a recolher o pobre coitado, ficando assim o Dylan livre para continuar o seu caminho, sorrindo para tudo e todos, serena e mal-cheirosamente…
Juntou-se a nós, pelo resto do dia o Andreas, um Alemão que já fazia parte do meu grupo há uns dois dias. Quis fazer-nos companhia, apeteceu-lhe ir mais calmamente e acompanhou-nos. As confidências sobre o nosso caminho e as nossas razões foram tomando forma e grande valor, a julgar pela reserva natural do Andreas. A beleza do caminho ajudou-nos a apreciar ainda mais a companhia um dos outros. Foi uma boa tarde. Essa coisa que se diz que os Alemães não têm espírito de humor não se aplica a este… Rimo-nos bem.
E já só faltavam quatro quilómetros para chegarmos! Mas como sempre, esses últimos eram os que mais nos pesavam nos pés… Custaram, mas fomos amplamente compensados com um extraordinário final de tarde: um pôr-de-sol fabuloso, mesmo a chegar a Padron!
E já só me faltavam fazer 27 quilómetros…. foi o que pensei, imediatamente antes de adormecer, no Albergue de Padron.

E para completar o relato deste dia, e porque não consegui decidir-me qual das duas ía publicar, aqui estão duas versões da mesma música: Greensleeves. Ao ouvir a primeira, quase um canto Gregoriano, dá para perceber a origem céltica da melodia, o que é perfeito para evocar estes bosques de árvores autóctones que bordejavam os rios Valga, Ulla e Sar. A segunda é um arranjo de Ralph Vaughan Williams, brilhante!

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